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Hiroshima, relógios e futebol
Toda semana, atrações que celebram o centenário da imigração japonesa
Juliana Araújo
“Foram 42 dias de viagem de navio. Mulher não queria vir, filhos não queriam, mas ouvi dizer que Brasil tinha tempo bom. Queria trabalhar uns 10 anos e voltar para Japão. Hiroshima tinha muito sofrimento, gente doente, com radiação e queimaduras. Vida difícil lá. Tinha relojoaria. Vendi e comprei passagem, pois diziam que quem tinha profissão no Japão era fácil de arrumar emprego no Brasil. Fácil, nada! Abri relojoaria, mas não deu certo. Não sabe falar português fica difícil. Quando aprendi mais, fui trabalhar na relojoaria de brasileiro. Vítima de bomba não podia nem trabalhar na lavoura. Mulher demorou para acostumar. A gente foi se adaptando quando ela começou a assistir futebol, na década de 70. Brasil campeão. Esposa torcia muito. Gostava de Pelé. Eu e minha filha somos são-paulinos. Esposa e filho, santista. Mas hoje nem ligo muito. O importante é família unida. Precisa dinheiro, precisa comer. Há 24 anos fundei a Associação das Vítimas da Bomba Atômica no Brasil e depois a Sukiyaki (mercearia). Vinha parentes e amigos para almoçar aqui, mas hoje vem todo mundo que sabe que comida é boa. Há 52 anos, quando cheguei, Brasil era considerado país do futuro. Futuro? Brasil é bom. Vou para Japão ver família, trabalhar e passear, mas sempre volto.” Takashi Morita, de 84 anos, chegou ao Brasil no dia 13 de março de 1956, com uma filha de 8 anos e um filho de 6. O português? Complicado, né, mas a filha ajuda. Morita está sempre sorrindo e se orgulha de, apesar das dificuldades, os dois filhos terem se formado na USP.
Bife a cavalo, né?!
A Sukiyaki, mercearia de Takashi Morita, tem bentôs e artigos importados, mas com um diferencial: nos fundos, há um restaurante com ‘cardápio da culinária da família japonesa’, que serve tanto pratos como kare quanto bife a cavalo (!), de 2ª a sáb., das 11h às 14h. Av. Jabaquara, 1.744, Saúde, 2577-0323. 7h/19h30 (sáb., até 19h; dom., até 13h).
Histórias da guerra
A animação Nagasaki 1945 - O Sino de Angelus, de Seiji Arihara (com legendas em inglês), aborda o ataque à cidade. Após a sessão, bate-papo com o diretor. Auditório da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa. R. São Joaquim, Liberdade, 381, 2577-0328. 4ª (26), 13h. R$ 3.
AQUI NO JAPÃO
No Sesc Avenida Paulista, até a ascensorista, uma garota japonesa de meias três-quartos e pelúcia no cabelo, faz parte da mostra Tokyogaqui - que significa ‘Tóquio aqui’ e ocupa três andares do prédio. As TVs de tela plana posicionadas no hall do 5º andar antecipam o que o visitante vai encontrar pela frente: logo na entrada, duas máquinas de simulação de dança convidam a experimentar a cultura pop japonesa. Além delas, videogames, uma minisala de cinema com uma seleção de várias imagens de filmes japoneses e uma biblioteca de mangás fazem parte da exposição Tradição Pop. No 9º andar, uma homenagem aos 101 anos de Kazuo Ohno, mestre do butô, mostra outro Japão. Em Ohno 101 + Kusuno, além da exposição de fotos, vídeos e figurinos de Ohno, intérpretes/dançarinos brasileiros de butô se revezam em performances pelo chão irregular. “O butô é a dança do desequilíbrio. Andando aqui, todos estão dançando”, explica o curador, Ricardo Fernandes. No 15º andar, a comedoria do Sesc virou um restaurante japonês, com tatames espalhados pelo chão e videokê. No cardápio, 14 opções de sushis, sashimis, minitempurás e chás quentes dividem as prateleiras com tortas e pães de queijo.
Sesc Avenida Paulista. Av. Paulista, 119, 3179-3700, 5º e 9º andares. 13h/21h (fecha 2ª; hoje, 21, abre às 18h). Grátis. Até 4/5.
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