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Julio Mesquita
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Sexta-feira, 18 janeiro de 2008   edições anteriores
GUIA CADERNO 2
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  Do meu jeito

Oito estilistas abrem seus ateliês e mostram de onde realmente vem a inspiração para criar suas coleções (em qualquer estação)

Pedro Henrique França e Thais Caramico

Até terça-feira (22), você vai ouvir falar muito do maior evento de moda da cidade, a São Paulo Fashion Week (SPFW), no Pavilhão da Bienal, com desfiles das tendências de moda outono-inverno. Serão inúmeras entrevistas com estilistas que combinam as roupas de um jeito que você, lá no íntimo, não consegue entender, e que usam termos que, convenhamos, não dá para compreender direito. É que artista, você sabe, tem um jeito muito próprio de criar. E aí está o segredo: as fontes de inspiração para um estilista podem ser as mais diversas possíveis. Qualquer coisa - mesmo - pode ser transformado numa coleção para preencher um guarda-roupas inteiro.
Para entender melhor este universo, resolvemos entrevistar oito estilistas - entre eles, dois que desfilam coleções no evento - que mostram como uma vida de viagens pelo Oriente, o gosto pelos Ramones, o amor pelos animais, o descontrole por tênis coloridos e a paixão por histórias em quadrinhos realmente fazem a diferença na hora de criar uma roupa. Para sobreviver no mercado, é preciso talento e estilo. De preferência, o próprio.

VESTINDO O DIÁRIO DE VIAGEM

A estilista Andrea Simioni (Al. Tietê, 64, Jd. Paulistano, 3088-1618), que há um ano montou a
marca que leva seu nome, poderia ser consultora. De turismo. Ou aproveitar a formação de fotógrafa e publicar livros sobre viagens que fez a lugares como Xingu, Nepal, Camboja, Vietnã, Timor Leste e Peru. Tornar-se estilista foi apenas um jeito que ela encontrou para deixar registrado no seu dia a dia (e no de quem compra suas criações) boas lembranças dos destinos exóticos que fez pelo mundo. Desfiles? Ela não vê. “Prefiro me envolver totalmente com uma dessas culturas e captar delas uma história, uma mensagem.” Do Vietnã - lugar onde ela diz ter visto moda por todos os lados -, se apaixonou pelas tranças das mulheres feitas com cabelo enrolado em fios de lã. Tanto que o ponto alto da loja está na reprodução do penteado, que serve de cabide para os vestidões longos de sua coleção. Na escadaria de entrada, ela espalhou açúcar pelos degraus para tornar o caminho “mais doce”. A passagem leva a duas cubas recheadas de flores amarelas - em sinal de “boas-vindas”. “Quero que meus clientes se conectem com este universo e sintam a energia que quero passar.”

Da China, de onde acaba de retornar, trouxe 500m de tecido de Xangai que serão usados - ela ainda não sabe como - na próxima coleção. Entre seus pequenos rituais na cidade, ela dá dez passinhos e cai no ateliê vizinho da amiga Liège Monteiro (Al. Tietê, 90, Jardins, 3085- 8715), que costuma abrir sua casa toda quinta-feira. Se tiver o que compartilhar, está convidado.

MEU LIVRO DE ‘CABIDEIRO’

Os biquínis ilustrados com caveirinhas já indicavam que as criações de Patrícia Grejanin não seriam direcionadas a mulheres que levassem seu nome (no diminutivo)como apelido. “A música definiu meu estilo de vida, minhas amizades e meu visual”, conta a estilista, que sonhava criar uma moda praia punk. Na época, ela lia o livro ‘Mate-me por favor’, sobre a história do movimento punk na visão de grupos importantes como Ramones, sua banda de cabeceira. A Laundry (Galeria Ouro Fino, R. Augusta, 2690, 3085-0604) veio no outono seguinte, sem as peças do verão com caveiras, mas ainda com muita influência do universo rock. “Queria fazer roupa para pessoas como eu, com os mesmo gostos e que freqüenta os mesmos lugares”, conta. Na loja, livros, vinis e toy art dão o toque ‘indie’ à decoração - a letra da música ‘I Don’t Wanna Grow Up’, dos Ramones, cobre todas as paredes, em preto. Na prateleira, procure pelo miniportfólio do artista californiano Mark Ryden. Réplicas de suas lindas ilustrações são encontradas nos bottons (R$ 5) desenvolvidos por Patrícia, que podem ser levados para casa.

A Conde que ninguém vê

Para quem não é evangélico, um passeio pela Rua Conde de Sarzedas reserva surpresas curiosas. Você terá um sem-número de lojas para escolher a melhor oferta em bíblias, livros teóricos e todos os estilos possíveis de música gospel. Será chamado de ‘irmão’ ou ‘irmã’ e será abençoado a cada partida. Mas um endereço chama a atenção: na galeria homônima à rua (nº 149), camisetas modernas e acessórios que remetem à cultura pop rock ficam dispostas na loja Brother Simion. Tudo começou porque o próprio ‘Brother’ (que não revela seu nome) e sua mulher, Ciça, queriam vestir roupas com mensagens cristãs, mas nada do que viam agradava. Então fizeram 30 camisetas e venderam em um show gospel. O sucesso foi tanto que em pouco tempo abriram a loja - terão uma filial na Alameda Lorena em fevereiro. Passe na loja se quiser ouvir uma história de vida muito maluca.

ONCINHA DESDE OS ANOS 70

Chiara Gadaleta Klajmic é do tipo que chama atenção por onde passa. O temperamento irrequieto e ousado da stylist, ex-modelo e artista plástica foi apenas um detalhe para que ela “tivesse a necessidade” de criar, há dois anos e meio, uma marca em que pudesse se expressar ainda mais. Clara extensão de sua personalidade, as peças da Tarântula (http://chiaragadaleta.com) têm caftans orientais de seda e bijuterias extravagantes, feitas com trama de crochê e tricô e pedras brasileiras. É tudo grande e chamativo, assim como ela.
Mas tanta irreverência se justifica para quem nasceu em Capri, na Itália, de frente para o mar. Nos anos 70, ainda criança, já notava os maiôs de oncinha da mãe, que saía com uns camisões nada comuns à época, bem parecidos com os modelos criados por Chiara - hoje muito na moda. Intensa, muito feminina e fã da mitologia grega, chegou a posar como diva em um dos ensaios para a revista ‘Vogue’. Não que isso faça dela menos fã de Van Halen e Jennifer Lopez.

PRODUTO ANIMAL NÃO ENTRA

Ela tem uma banda de rock só de meninas, é vegetariana desde os 12 anos e administra com o irmão Tico a marca moderninha King55 (R. Harmonia, 452, V. Madalena, 3032-1838). Isso já poderia ser o estilo de vida de Carol Caliman, 25, se não fosse todo o cuidado que também teve na hora de desenvolver com o pai, Amauri, a marca que não faz uso de nenhum produto animal - tudo é biodegradável. “Trabalhamos com materiais alternativos, até o piso da loja não quisemos que fosse de madeira”, diz Carol. Vegans (militantes em defesa dos animais) desde crianças, os irmãos herdaram o negócio do pai e a experiência de quem cresceu no mundo da moda. “Minha mãe era costureira e meu pai alfaiate. Toda vez que eles pregavam um botão, eu observava atentamente e não conseguia entender como era feito. Até o dia em que precisei me virar e comecei a trabalhar com o que sabia fazer de melhor”, conta Amauri. Coerentes com o estilo de vida, resolveram abrir uma lavanderia ecológica que pudesse captar a água da chuva e reutilizá-la no processo de lavagem do jeans.

MEU CÃO, MEU ESTILO

Gabriela Demarco começou costurando para amigos, uma lição da avó, que se tornou o nome de sua grife, Elvira Matilde. A estréia foi em 1982, quando seu ex-marido pediu para que ela fizesse o uniforme do time de futebol de várzea. Sua criação já anunciava o que influenciaria as futuras coleções: em uma camiseta Hering, completamente branca, ela aplicou uma cobertura 100% de desenho com a figura de um tamanduá. Hoje, com lojas em BH e SP (R. Delfina, 42, V. Madalena, 3819- 8016), Gabriela mantém a paixão por animais. Seus prediletos? “Adoro todos os cachorros.” Só ela, tem seis. Na coleção passada, dedicou estampas às raças whippet e schnauzer. Gosta de animais e quer se inspirar e entrar na moda? Há inúmeros (para adoção) na Cobasi (www.cobasi.com.br). Quem sabe não leva um para
casa?

QUANDO TUDO ERA DEMAIS

O estalo para a moda veio para Marcelo Sommer aos 16 anos, quando gastou seu 1º salário todo em roupas. “Sou uma vítima da moda”, diz, sem pudores, o dono da grife Do Estilista (R. Bruxelas, 169, Sumaré, 3862- 4097) e atual diretor de criação da Cavalera (Al. Lorena, 1.682, lj. 5, 3083-5187). Era início dos anos 80 e ele estava mergulhado na cultura new wave, caracterizada por excessos visuais. Um deles já se mostrava pelos pares de ‘sneakers’ que Sommer começava a colecionar - hoje são mais de 100. Sua adoração pelos tênis diferentões, diz, influencia sua moda colorida. “Por este lance das cores, da versatilidade”, explica. Ao Guia, ele confessa estar mais “sem graça” atualmente, diferentemente de sua criação, que continua bem-humorada.

MÚSCULOS FEMININOS

Fabia Bercsek (R. Augusta, 2.445, cj. 5, Jd. Paulista, 3081-3935) sempre foi aficionada por HQs. Se encantava com as “coisas impossíveis” que lia nas tiras de suas heroínas prediletas: Elektra e Mulher-Maravilha. A “linguagem pop” de “cinema ilustrado”, somada à força dos personagens, ela levou para suas coleções de moda feminina, tudo com muita ilustração. “Não que eu faça fantasias, mas não deixa de ser um pouco. Sempre gostei da força das heroínas, dos corpos musculosos.” Hoje com lugar na SPFW, ela diz recorrer à sua centena de gibis para chegar a um resultado coerente. Seu lugar predileto para pesquisa? A Biblioteca Viriato Corrêa (R. Sena Madureira, 298, V. Mariana, 5573-4017). Na falta de tempo, ela revê suas musas em seu acervo pessoal.

SÓ MAIS UM, POR FAVOR

Os pares de sneakers de Marcelo Sommer continuam aumentando. Na cidade, há outros dois endereços onde ele - e você - podem encontrar diversos modelos dos tênis divertidos. A seguir, as duas dicas do estilista: The Lab (Galeria do Rock. R. 24 de Maio, 62, subsolo, lj. 27, Centro, 3361-2717 e MazeSkateShop (Galeria Pça. Nova Augusta.
R. Augusta, 2.077, lj. 16, 3060-8617).

   


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