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Baú de histórias
Saiba como uma boa história nas mãos de um bom contador se transformou em ótimo programa cultural na cidade
Fernanda Araujo e Thais Caramico
Regina foi professora de Ana Luísa, que é amiga de Ilan, que conhece Kelly. Todos os dias eles saem de casa para contar histórias. Espere, mas quem não sai de casa para contar histórias? No trabalho, contamos a história de casa; em casa, a história da novela; para o marido, a história dos filhos; e há milhares de anos, todo mundo conta histórias. Então, o que Regina, Ana Luísa, Ilan e Kelly têm mesmo em comum? Todos fizeram cursos, se especializaram, evoluíram nesta técnica e prática, e hoje representam o que há de melhor na arte da tradição oral. Eles fazem parte de um movimento que vem crescendo, principalmente, nos últimos três anos, e que estendeu seus tapetes mágicos também aos adultos.
Não por acaso, dois eventos do gênero acontecem simultaneamente na cidade: Te Dou Minha Palavra - Cultura Oral Educação, a partir de hoje (19), no Itaú Cultural, e o 3º Festival A Arte de Contar Histórias (leia mais na pág. 7), espalhado em 28 Bibliotecas Municipais. Em ambos, palestras, oficinas, espetáculos e roda de contos preenchem uma programação intensa, que demonstra como a ‘contação’ está sendo valorizada. Identificar-se com algum personagem de um conto ou conseguir visualizar uma pessoa querida em um simples pedaço de pano demonstra como todas as pessoas estão ligadas com as histórias. No fundo, mesmo sem ser um contador oficial, todo mundo é um pouco narrador. As histórias estão dentro das pessoas - tanto que toda vez que gostamos de algo que ouvimos ou conhecemos, queremos rapidamente reproduzir os sentimentos e os fatos.
Nas páginas seguintes, reproduzimos três histórias da tradição oral, para que o leitor tenha uma idéia da riqueza que é construir o enredo ‘ouvindo’ uma boa narrativa. Mas acredite: ao vivo, a experiência é muito mais intensa.
Nesta arte, a palavra é única para cada ouvinte e ninguém consegue imaginar exatamente as mesmas coisas: com poucos elementos visuais, a voz e alguns recursos gestuais são suficientes para dar todo o sabor à história.
Regina Machado
Diz a lenda que, certa vez, uma menina bem pequena precisou viver uma história que ela não queria que fosse dela. Um dia, porém, ela cresceu e decidiu inventar sua própria história. Descobriu mais: que a narrativa tinha o poder de despertar novas histórias também em quem as ouvia. E foi assim que, há quase três décadas, a menina Regina Machado (hoje com 57 anos) tomou gosto pela arte. Em 1998, criou o primeiro grande evento do gênero em São Paulo: ‘Caravanserai’, no Itaú Cultural. “Conto histórias para me encontrar com as pessoas num espaço encantado onde vemos juntos a beleza, às vezes horrível, dos seres humanos”, explica a escritora e narradora, que concedeu ao Guia sua história verídica por email, já que está no Canadá em três eventos com mestres-narradores de diversos cantos do mundo.
Quer contar uma história?
Não há fórmulas mágicas para contar histórias, mas alguns elementos ajudam no sucesso da narrativa:
escolha uma história que você goste e tenha vontade de compartilhar com outras pessoas;
conheça bem a narrativa (não importa se você viveu, ouviu ou leu a história);
não tenha a intenção didática de aplicar uma lição de moral, pois o que vale é o prazer de provocar a reflexão;
deu branco? Duas técnicas podem resolver o problema: o silêncio e a repetição de palavras. Por exemplo, faça uma pausa, mude sua expressão e deixe o ouvinte ainda mais curioso (enquanto as palavras não vêm);
respire de acordo com o ritmo da história e não esqueça de envolver as pessoas com o olhar;
permita que os ouvintes possam imaginar sua narrativa. Cuidado com adjetivos e muitos detalhes que cansem;
seja um bom ouvinte, leia bastante e encontre seu próprio estilo. A simplicidade ainda é o melhor recurso.
Histórias pela cidade
Bumba-Meu-Boi e Outras Histórias Com Stela Barbieri, no projeto semanal ‘Histórias Contadas’. Sesc Santana. Av. Luiz Dumont Villares, 579, Santana, 6971-8700. Amanhã (20), 16h. Grátis.
Contação de Histórias em Inglês Com Sosô Uribe e seus ‘big books’. Livraria da Vila - Lorena. Al. Lorena, 1.731, Jd. Paulista, 3062- 1063. Dom. (21), 16h/17h. Grátis.
Degustação de Histórias - Noite Erótica e Noite
Árabe Com Ilan Brenman e a chef de cozinha Carole Crema. ‘Noite Erótica’. Livraria da Vila - Casa do Saber.
R. Dr. Mário Ferraz, 414, 3073-0513. 6ª (19), 19h45. R$ 45. ‘Noite Árabe’. Livraria da Vila - Vila Madalena. R. Fradique Coutinho, 915, 3814- 5811. 5ª (25), 19h45. R$ 40. Inscrição antecipada.
No Fundo do Mar Com Lu Martinez. Livraria da Vila - Lorena. Al. Lorena, 1.731, 3062- 1063. Amanhã (20), 16h/18h. Grátis.
As Irmãs e o Polvo Aventuras no mar, narradas pela autora Karin Pati, com participação do músico Kenura Livraria Sobrado. Av. Moema, 493, Moema, 5052-3540. Amanhã (20), 17h. Grátis.
Sipurim Em ‘Histórias e Poemas de Ninar e Sylvia Orthof’, Célia Gomes e a cantora Tânia Marílis contam, entre outras coisas, sobre um dente que cai. Centro de Cultura Judaica. R. Oscar Freire, 2.500,
Sumaré, 3065-4333. Dom. (21), 11h. Grátis (ingresso 1h antes). E, prepare-se, dia 27, Ana Luísa Lacombe conta ‘A Árvore Generosa’.
Ilan Brenman
Eu sou: escritor, com 13 livros publicados, doutorando em Educação, e formador de professores (e de quem quiser aprender a contar histórias)
Tenho: 34 anos
Conto histórias desde: 1991
Gosto de: contos da tradição oral universal
Utilizo recursos como: gestos contidos, leve mudança na voz, olhares expressivos e, principalmente, uma boa história
Minha história preferida é: ‘A Dobradura do Samurai’, de minha própria autoria (para crianças)
P: Qual o seu segredo para conquistar o público com uma boa história?
R: A simplicidade: o corpo desaparece para a história aparecer. Meu trabalho encanta pois é simples e as pessoas descobrem que também são capazes de fazer isso.
P:Já deu ‘um branco’? O que você faz quando isto acontece?
R: Sabe o caipira que enrola o cigarro e lentamente conta a história? Acha que ele é bobo? A pausa é a técnica do cara para buscar novos elementos. Outro recurso é a repetição: ‘Começou a correr, a correr, a correr’. É repetir até lembrar.
P: Como você lida com os contratempos que acontecem entre os ouvintes?
R: Uma vez, um menino grudou na minha perna e começou a berrar: ‘Você não vai contar história’. Balancei a perna com o menino perdurado, olhei para o público e gritei: ‘Cadê a mãe desse menino?’ E então surgiu ali uma nova história.
Ana Luísa Lacombe
Eu sou: atriz, autora do livro ‘Acender um Fogo - O Jogo do Teatro na Escola’ e cantora (mas só em peças musicais)
Tenho: 44 anos
Conto histórias desde: 2002
Gosto de: contos populares e até
mitos indígenas, mas prefiro textos orientais
Utilizo recursos como: lixo reaproveitável, tecidos, violão e, às vezes, pandeiro
Minhas histórias preferidas são: ‘Taibele e seu Demônio’, de Isaac
Bashevis Singer, e o conto tibetano ‘O Quadro de Pano’
P: Em uma roda de amigos, você sempre é a que conta mais histórias?
R: Talvez. Na verdade, quem sempre espera que eu conte alguma história é minha família. Então costumo preparar algum texto para as festas de fim de ano, casamentos e outros encontros. No geral, só falo quando percebo que as pessoas estão dispostas a ouvir o que eu tenho a dizer. Se isto acontece, começo a falar e de repente já estou gesticulando e imitando vozes. Caso contrário, fico na minha, pois é muito chato ter de convencer alguém a ouvir o que você tem para falar.
P: Por que a narração de história tem se tornado cada vez mais comum?
R: Com certeza por causa da necessidade em ter mais contato com as pessoas e com as coisas simples. Em uma sessão de contos, o olhar do ator para a platéia e a forma como a história entra na imaginação de cada um é muito importante. É algo que se perdeu com o tempo.
Kelly Orasi
Eu sou: atriz, manipuladora de bonecos e filha de contador de causos
Tenho: 36 anos
Conto histórias desde: 1998
Gosto de: contos de fadas, populares, mitos indígenas e fábulas.
Utilizo recursos como: tecidos, objetos domésticos e violão
Minhas histórias preferidas são: Cinderela e outros contos de fadas (os originais, e não as versões de Walt Disney)
P: Se você é tímida, como consegue viver contando histórias para os outros?
R: Só falo sobre o que tenho necessidade de contar, alguma história que eu gosto muito ou, às vezes, presenciei. Nesse momento a timidez fica de lado, pois sinto que estou compartilhando algo com as pessoas e ainda conseguindo dizer coisas que nas minhas próprias palavras não teriam nenhum efeito.
P:Um bom contador de histórias é sempre lembrado pelas pessoas?
R: Nem sempre. O que acontece é que boas histórias sempre são lembradas por quem as ouve. Eu costumava contar histórias no condomínio em que eu morava, e um dia encontrei duas crianças de lá que não me reconheceram. Mas quando a mãe dessas meninas disse quem eu era, na hora elas começaram a reproduzir o texto todo que eu tinha contado, lembrando de todos os detalhes. Foi quando eu percebi que aquilo era o que realmente importava.
CONTANDO E APRENDENDO PALESTRAS, OFICINAS E HISTÓRIAS
Mitos, fadas e heróis estão espalhados pela cidade. Não por acaso, o mês das crianças é comemorado com o 3º Festival A Arte de Contar Histórias, em 28 bibliotecas (www.bibliotecas.sp.gov. br ou 3334-0001, ramal 2436), e também no Itaú Cultural (Av. Paulista, 149, 2168-1700) com o Te Dou Minha Palavra. Confira alguns destaques.
Itaú Cultural - Na 3ª (23), às 19h30, Ilan Brenman fala sobre o mito de contar histórias. No dia 27, às 11h, o Grupo Faz e Conta - de Ana Luísa Lacombe - mergulha nas lendas da natureza. No dia 28 haverá ‘O Rei que Ficou Cego’, do grupo Os Tapetes Contadores de História, às 11h; e ‘Era Uma Vez...e Não Eram Duas e Nem Três’, de As Meninas do Conto, às 17h. A programação continua em novembro com ‘As Velhas Fiandeiras’, também das ‘Meninas’, no dia 3, às 11h, e com ‘Moio de Pavio’, de Regina Machado, no dia 4, às 17h.
Bibliotecas - Hoje (19), na Biblioteca Monteiro Lobato (R. General Jardim, 485, V.Buarque, 3256-4122) haverá Cia. Prosa dos Ventos com ‘As Melhores Histórias de Todo o Mundo’, e amanhã, na Raimundo Menezes (Av. Nordestina, 780, São Miguel Paulista, 6297-4053), a Cia. do Bafafá com ‘Reciclando Histórias’, às 13h.
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