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Julio Mesquita
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GUIA CADERNO 2
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  A melhor idade do Masp?

O Museu de Arte de São Paulo completa 60 anos e chega à terceira idade no dia 2 de outubro. Mas poderia estar em melhor forma

Nathalia Lavigne e Thais Caramico

Um museu de pernas para o ar. Poderia ser só a descrição do projeto de Lina Bo Bardi para o prédio do Museu de Arte de São Paulo, mas é um pouco também como se escreve a própria história da instituição. O rico acervo, tão admirado que parte dele é emprestada a museus de todo o mundo, foi formado com o faro e o conhecimento artístico de Pietro Maria Bardi e vale um bilhão de reais. Mas só graças ao talento quase artístico do empresário Assis Chateaubriand para a chantagem e as ameaças é que os Goyas, Renoirs e Ticianos foram parar ali. É o principal museu da América Latina, mas quase ficou sem luz em 2006. Ponto de referência para os paulistanos, cartão-postal para todos os brasileiros, o Masp chega em crise aos 60 anos. Mas, à luz de sua história ou à sombra de seus problemas, sempre pode ser visto como uma obra-prima do chiaroscuro.

AGORA É POR TEMA A NOVA MUSEOGRAFIA

Renovar ‘o visual’ costuma cair bem para quem faz aniversário. Em seu 60º ano, por iniciativa do curador Teixeira Coelho, o Masp será repaginado e seu acervo será organizado de outro jeito. Antes separadas por períodos e escolas, a museografia agora será disposta por tema. Desde que assumiu a curadoria do museu, Coelho costuma dizer que o Masp não deve “se entrincheirar” atrás de suas obras clássicas e que é preciso mais espaço para a arte contemporânea. Por enquanto, apenas ‘O Mito da Arte’, primeira de quatro exposições temáticas, está pronta e será inaugurada no dia 3, quarta-feira. As próximas serão montadas ao longo do ano comemorativo. ‘A Natureza das Coisas’ vai reunir paisagens e naturezas-mortas a partir de novembro; ‘Olhar e Ser Visto’ terá retratos da coleção a partir de janeiro, e ‘Arte Religiosa’ finaliza a montagem em abril de 2008.
Masp. Av. Paulista, 1.578, 2º andar, 3251- 5644,. 11h/18h (5ª, até 20h; fecha 2ª). R$ 15.

ARTE NARRADA
CINQÜENTA OBRAS SOBRE O MITO


A novidade da exposição ‘O Mito da Arte’ não são as obras - apesar de muitas delas ressurgirem de um período sabático na reserva do museu. Já a leitura do acervo de forma temática (que começa nesta exposição) nunca havia sido feita em nenhum museu brasileiro. “Procurei ligar obras de períodos e estilos diversos em um fio narrativo”, diz o curador Roberto Carvalho de Magalhães, que hoje mora em Florença e trabalhou com Pietro Maria Bardi, que dirigiu o Masp por 45 anos. Foi esta familiaridade que o permitiu explorar a diversidade de obras do acervo que tratam diretamente do tema como também fazer associações mais complexas. Na última seção da mostra, que retrata o declínio do mito, aparecem obras como ‘Banhista Enxugando a Perna Direita’, de Renoir, escolhida para mostrar como os impressionistas abandonaram o tema, mas continuavam retratando a figura feminina da mesma maneira.

2 de outubro de 1947, uma noite para impressionar

Na noite de 2 de outubro de 1947, as “destacadas personalidades” (como aparece na manchete do jornal da foto) que chegavam à pinacoteca de um edifício inacabado da Rua Sete de Abril não eram recebidas por anfitriões menos ilustres. Além do influente Assis Chateaubriand e do refinado Pietro Maria Bardi, estavam lá Fernando VII, rei da Espanha, e São Francisco de Assis - figuras representadas nas pinturas de Goya e Portinari, respectivamente.

Um acervo com cerca de 200 obras, que já incluía telas de mestres renascentistas como Botticelli (representado pela pintura ‘Virgem com o Menino e São João Batista Criança’), foi mais do que suficiente para impressionar membros da sociedade paulistana que visitaram o museu naquela primeira inauguração, há exatos 60 anos - entre eles, o empresário Ciccillo Matarazzo. Considerando que Bardi e Chatô já tinham formado a maior parte do acervo do museu até 1956, quem freqüentou a antiga sede do Masp pode não ver tantas obras diferentes hoje - a admiração e surpresa de então eram maiores. “O Masp era a grande sensação. Pessoas de todas as camadas sociais freqüentavam o museu nesse início”, conta a atriz Nydia Licia, uma das primeiras assistentes do ‘professor’ Bardi, que participou da montagem da primeira exposição.

Assim como ela, o arquiteto e urbanista Jorge Wilheim também vivenciou a rotina mambembe dos primórdios do Masp como assistente de Bardi. Aos 18 anos, ele chegou ao museu com a missão de montar a primeira exposição temporária com obras de Portinari. Propôs a Bardi que colocassem uma faixa no prédio: “Portinari no museu”.
Aprovada a idéia, seu trabalho não parou por aí. “Não tinha um elevador de carga no prédio e tive de subir com as telas de escada”, lembra. Buscar novas obras também era uma de suas funções. O quadro de Tintoretto ‘Ecce Homo’ foi trazido por ele do Rio de Janeiro em um DC-3, encostado no corredor entre uma poltrona e outra. “Naquela época não tinha todo esse cuidado”, revela. “Uma das minhas memórias mais gratas deste período é de estar sentado ao lado do (escultor Alexandre) Calder ajudando-o a montar seus pequenos objetos na sala do museu.”


ANTES DA AV. PAULISTA
O QUE HOUVE COM A VELHA SEDE?


Em vez das obras de arte, a antiga sede do Masp, no edifício número 230 da Rua 7 de Abril, hoje abriga uma agência do Unibanco e cinco empresas de telemarketing. Quando o jornalista Assis Chateaubriand decidiu criar o museu, em 1947, o prédio - que viria a ser sede dos Diários Associados - ainda estava em construção.

Depois de levar o marchand italiano Pietro Bardi para uma visita às obras, decidiu no dia seguinte ceder 1.000 m2 do andar térreo ao museu. O pavimento foi adaptado por Bardi com a ajuda de sua mulher, a arquiteta Lina Bo Bardi. Em 1950, outros dois andares do prédio foram emprestados ao Masp, que criou o Instituto de Arte Contemporânea com vários cursos.

Em 1968, o museu mudou de endereço: deixou o escondido prédio da 7 de Abril e seguiu para o terreno doado pelo então prefeito Adhemar de Barros, no número 1.578 da Av. Paulista. Ali, foi erguido o edifício projetado dez anos antes por Lina, famoso pela vista para a Av. Nove de Julho e pelo vão livre.

Hoje, não há qualquer indício de arte na antiga sede. Só alguns poucos senhores, que trabalharam no prédio, ainda se encontram na porta para relembrar aqueles tempos. (Juliana Araújo)

DE TUDO UM POUCO

Luiz Hossaka entrou no Masp em 1949 para ajudar nas montagens de exposições. Em poucos meses foi trabalhar no laboratório de fotografia e hoje é o curador conservador chefe - tendo assumido também a curadoria do Masp nos 10 anos em que o museu ficou sem uma pessoa exclusiva para o cargo.

Há 57 anos trabalhando aqui, o que o senhor ainda não fez?
Olha, já fiz muita coisa mesmo, mas antigamente todo mundo fazia um pouco de tudo. Teve uma época em que eu era até o secretário dos cursos do museu. A gente ia descobrindo como fazia as coisas. Por exemplo, eu passava tanto tempo no laboratório de fotografia que um dia o Bardi me perguntou: “Você deve saber mexer nisso, vamos mandar o laboratorista embora para economizar um dinheiro”.

ESCOLA DE ARTE
MODA, RÁDIO, MÚSICA...


Um anúncio no jornal sobre um curso de design no Masp (foto) chamou a atenção do jovem desenhista Alexandre Wollner. “Eu nem sabia o que era design, mas me inscrevi assim mesmo”, conta hoje um dos mais importantes designers gráficos brasileiros. Aos 23 anos, Wollner logo se animou com a escala industrial que seus traços poderiam alcançar. “Quando descobri que meu desenho poderia ser visto por um milhão de pessoas, me encantei com a profissão”, recorda o aluno da primeira escola de design do País, coordenada por Lina Boa Bardi e Jacob Ruchti. Assim como este, outros cursos que integravam o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) deram ao museu o status de embrião cultural da cidade. Foi a partir do curso de propaganda do IAC que nasceu, por exemplo, a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Ainda em 1948, a educadora Suzana Rodrigues coordenou no Clube Infantil de Arte cursos para crianças até então inexistentes. “O Masp era o núcleo inovador das atividades culturais em São Paulo, tudo acontecia na 7 de Abril”, confirma Jorge Wilheim, que também cuidou da programação musical do museu. Em um de seus cursos sobre a história da música, estavam entre seus ‘pupilos’ o então casal de namorados Ruth e Fernando Henrique Cardoso. “Até hoje ele me chama de professor.”

OBRAS PELO MUNDO

Nenhuma obra entra nem sai do Masp sem antes passar por Eugênia Gorini Esmeraldo, coordenadora de intercâmbio do museu. Funcionária do museu há 30 anos, ela lembra com carinho de quando foi assistente de Pietro M. Bardi e conta das viagens das obras.

Quantas obras vocês emprestam por ano?
Ano passado foram 33 para instituições como o Museu do Louvre, a National Gallery de Londres e a Pinacoteca. É um acervo requisitado.

A senhora freqüentou o antigo museu?
Sou de Florianópolis e na primeira vez que vim a São Paulo o Masp já estava de mudança para esta sede. Mas convivi 14 anos com o Bardi e, de tanto ouvi-lo contar, parece até que freqüentei. Tenho muito orgulho da história do museu. Tudo o que aprendi foi aqui, com o Bardi.

A PREDILETA DE JORGE WILHEIM

Jorge Wilheim não trabalhava mais no Masp quando esta tela de Modigliani passou a fazer parte do acervo. Mesmo sem nenhuma história para contar sobre ela, assume ser esta sua obra predileta. “Se pudesse, a levaria para casa”, diverte-se. Se pudesse, também, o arquiteto daria de presente ao Masp uma tela de Leonardo da Vinci, objeto de desejo que adoraria ver no museu. “Um Leonardo no Masp não seria nada mal.” Não há garantias de que seu desejo possa ser realizado tão logo, mas uma grande exposição de Modigliani está prevista para 2008.

RESTAURAÇÃO EXCLUSIVA AOS CUIDADOS DE KAREN

Na sala de restauração, Karen Barbosa divide sua atenção entre a ‘Vênus Vitoriosa’ de Renoir, o ‘Pobre Pescador’ de Gauguin e uma tela de Frans Post. Dessas obras, apenas a escultura de Rodin estará exposta nesta quarta-feira (3). Sorte que se trata apenas de uma conservação preventiva, diferentemente da obra de Post, que precisa de novas aplicações de pintura para corrigir uma restauração malfeita. Já a tela de Gauguin acabou de ter sua moldura consolidada e está pronta para embarcar para Roma. “Antes de autorizar qualquer empréstimo, eu sempre avalio se a obra tem condições de viajar ”, diz a única restauradora de um museu com 7 mil obras, grande parte delas com mais de 400 anos. Especializada no restauro de pinturas da tela, Karen muitas vezes recorre a especialistas quando precisa trabalhar em outros tipos de obras. É o caso deste Rodin (foto). “Mesmo sendo uma conservação, estou sendo orientada por um especialista do LACMA, de Los Angeles”, diz ela. A parceria com museus internacionais é comum. Recentemente, ‘O Artista’, de Manet, foi restaurado no Louvre. Em troca, passou alguns meses no museu.

O QUE NÃO VER NO MUSEU

Com um acervo avaliado em US$ 1 bilhão, é natural que a reserva técnica do Masp seja mais protegida que o cofre de um banco. A coordenadora do acervo, Eunice Sophia, entregou ao Guia parte do ouro escondido no espaço, onde está um bom pedaço das 7 mil obras do museu.

O QUE VER POR ENQUANTO

Enquanto o 2º andar, onde fica o acervo, está fechado até sua reabertura no dia 3, duas exposições, ‘Da Bauhaus a (Agora!)’ e ‘Arte e Ousadia - O Brasil na Coleção João Sattamini’ podem ser vistas no 1º subsolo e no 1º andar, Respectivamente.

   


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