| |
Gestação a dois
Entrevista: A psicoterapeuta Natércia Tiba prepara casais - a maior parte, jovens e adolescentes - para a chegada do bebê
Denise Berto
A carreira de sucesso do pai, o psiquiatra Içami Tiba, conferencista e autor de 18 livros, inspirou sua filha do meio. Aos 33 anos, casada, mãe de Eduardo, de 6 anos, e Ricardo, de 2 anos e meio, Natércia Tiba é psicóloga formada há 10 anos pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), com especialização em psicodrama, terapia de gestantes, de casais e de família. Também é membro da Internacional Association of Group Psychotherapy (IAGP ) e fundadora do Instituto Integração Relacional.
Atualmente, trabalha em seu consultório com crianças, adolescentes, seus respectivos pais e, sobretudo, com casais “grávidos”, orientando-os para o parto, cuidados com o bebê e amamentação. Seu principal enfoque é a preparação do casal para que cada um exerça bem os papéis de mãe e pai, proporcionando uma boa educação para o filho.
Nesta entrevista, Natércia detalha as principais orientações que transmite para os casais, como o pai pode - e deve - participar da gravidez e dos primeiros momentos da vida do filho, e a melhor maneira de manter um lar harmonioso após a chegada do bebê.
O que é o Instituto Integração Relacional? Como atua?
O Instituto foi formado por mim e por meu pai. Baseado em seus 38 anos de experiência profissional, ele criou a teoria da Integração Relacional, que mostra como gente precisa de gente. O fundamental é a constatação de que não se pode ser feliz sozinho, e de que a saúde não está na felicidade individual, mas no bem-estar de todos. Daí a importância de cultivar a ética e a cidadania em cada um. Só se constrói um indivíduo e uma sociedade saudáveis com a perfeita integração de ambos. O Instituto funciona em nossos consultórios, onde promovemos palestras, workshops para grupos de estudo, pais interessados e profissionais da área.
Por que você decidiu especializar-se em gestantes, casais “grávidos”, crianças e adolescentes?
Comecei a conhecer a questão dos adolescentes muito nova, acompanhando o trabalho do meu pai, assistindo a várias palestras dele, lendo seus estudos e artigos. Sobre este assunto, ele sempre teve uma abordagem diferente do que existia antigamente, quando se via essa fase como luto, perda. Ele vê a adolescência como uma fase maravilhosa, de adrenalina, de desenvolvimento. Isso foi me encantando. Além disso, sempre gostei muito de crianças. Trabalhando com elas, fui me interessando pela família e vendo o que acontecia com a dinâmica do grupo. Então pensei: por que não trabalhar preventivamente? E foi assim que cheguei aos casais grávidos. Sempre tive paixão por todo o processo da gestação, pela obstetrícia, então fui juntando tudo e cheguei à família como um todo.
O que é fundamental na orientação de gestantes e casais que esperam um filho?
O primeiro ponto que trabalho com eles é que tenham consciência da própria história. Desta forma, vão poder se conhecer. O homem deve ter consciência da bagagem que ele tem enquanto filho e a mulher, enquanto filha. Em cima disso é que vão construir os papéis de pai e mãe. E tem que haver uma boa integração entre eles. Outro ponto importante é a questão dos valores que serão passados para esse filho. Mais do que preparar seu filho para se proteger deste mundo, o que é uma preocupação comum dos pais, deve-se passar para ele valores que o ajudem a melhorar o lugar onde vai viver. Tudo isso sempre respeitando os preceitos daquela família.
O futuro pai deve participar da gravidez de que forma?
Alguns homens se tornam “grávidos”, outros não, porque este é um processo que realmente acontece no corpo da mulher. O objetivo é ensiná-la a incluir seu companheiro nesse processo. O normal é que ela viva essa fase como algo muito dela, compartilhando seus momentos com a mãe, com irmãs ou amigas que já passaram por aquilo. Então, o importante é alertar a futura mãe de como ela pode incluir seu marido em tudo: nas emoções, nos resgates que ela vai ter no relacionamento com sua mãe. E o pai, ficando grávido junto, também vai resgatar muito da relação que tinha com seus pais, de como ele era como bebê, para poder ir se transformando dentro dele, criando o pai que ele vai ser quando o bebê nascer. O pai grávido não é só aquele que vai ajudar a montar o quarto, escolher a roupinha e o nome do bebê. Mas aquele que vai viver internamente todo esse processo de construção de um papel novo.
Quais são os principais desafios para manter um lar e casamento harmoniosos após a chegada do bebê?
A chegada de um filho dentro de um casamento é um terremoto. Muda tudo. Principalmente porque a mulher deixa de viver apenas o papel de mulher e passa a viver o papel de mãe, quase que exclusivamente. Então, o homem sente-se deixado de lado, porque o papel de pai, naquele primeiro momento, ainda não é tão solicitado. O principal é ter cumplicidade, e que cada um entenda o quanto vai ser exigido e as dificuldades de cada um, ou seja, o quanto aquilo toca o casal, o quanto o homem vai precisar ajudar a mulher naquele momento. Por exemplo: ele não vai poder amamentar, mas vai poder ajudar a criar um ambiente favorável para ela amamentar, e isso é muito importante. Portanto, não deve ver esse ato como uma exclusão, mas sim como algo importante do qual ele faz parte. No livro Quem Ama Educa (de Içami Tiba, mas com sua colaboração), falo do aleitamento paterno. O bebê que já toma mamadeira pode ser amamentado pelo pai: tirando a camisa e colocando-o de encontro à sua pele, ele pode criar um ambiente agradável e, depois, dar a mamadeira. Dessa forma, vai viver um momento de intimidade com o filho. Além disso, trocar fraldas, dar banho são atividades que ele pode e deve fazer para participar de maneira mais intensa. O homem machista, que achar que essas coisas são tarefas da mãe, estará, na verdade, excluindo-se de uma fase importante do seu filho.
A depressão pós-parto continua sendo comum? Por que acontece e como lidar com isso?
Pode acontecer devido a uma mudança hormonal muito brusca após o parto e, nesse caso, dependendo do grau, precisa ser medicada. Também pode acontecer por causa do impacto emocional que é a chegada do bebê, pela mudança de vida muito rápida. A mulher, nesses casos, acha que não vai dar conta de tantos encargos: ser a responsável por aquele ser. Também por sentir que não tem mais a liberdade de antes. Já tive muitos casos assim. Muitas vezes, é possível tratar com terapia. Dependendo da intensidade, são necessários anti-depressivos.
Quais são os erros mais comuns cometidos pelos casais?
Um dos mais comuns é acreditar que a chegada de um filho pode melhorar um casamento. Pelo contrário. A chegada de um filho exige que o casal tenha uma estrutura muito boa para agüentar as mudanças. Outra tolice ainda cometida por algumas mulheres: engravidar achando que vai segurar o parceiro por causa do bebê. E, pior ainda, incluir o filho nas brigas conjugais. Sem contar o que já citamos: mulheres que excluem totalmente o marido do dia-a-dia do bebê. Seja para poupá-lo ou porque são inseguras ao extremo e querem a exclusividade do amor da criança. Há também a questão sexual, da qual muitos homens se queixam: as mulheres simplesmente não querem mais sexo nos primeiros meses do bebê. Ainda, há outros homens que reclamam das cobranças da mulher, preferem realmente não participar das tarefas que dizem respeito ao bebê.
Qual é o perfil das famílias hoje?
Aquela estrutura de pai, mãe, filho e filha mudou muito. Hoje vemos configurações familiares muito diferentes: a namorada de meu pai, o filho do marido de minha mãe e assim por diante. As famílias cresceram tanto que as crianças, às vezes, ficam até confusas com o papel de cada um. Qual é o papel do padrasto, se ele pertence ou não à família, se ele tem papel de educador ou não. Ao mesmo tempo em que tem um lado, digamos, confuso, tem um lado de aprendizado de convivência interessante. De tolerância e respeito. Mas tenho uma preocupação com os chamados relacionamentos descartáveis. É aquele pensamento: “não deu certo, parte para outra.” As crianças acabam aprendendo que, se começa a haver muitas brigas e desavenças, não é preciso aprofundar o relacionamento. Simplesmente parte-se para outro. Na verdade, para desenvolver uma intimidade, existe sempre o lado bom e o ruim. Da mesma forma, para aprofundar uma relação, há brigas e momentos bons. Mas ninguém tem mais paciência para estreitar essa intimidade. Os jovens têm muitos relacionamentos, mas sem intimidade com ninguém, ou seja, tudo superficial, o que gera pessoas solitárias. A intimidade é fundamental para o bem-estar do ser humano, e essa superficialidade é preocupante.
O que você tem a dizer sobre casais homossexuais? Eles devem ter filhos?
Assim como os casais heterossexuais, podem ser bons ou maus pais. No entanto, é fundamental que se preparem - e preparem a criança - para os preconceitos e questões emocionais que enfrentarão ao longo da vida, diferentemente de outras crianças. Mas acredito que, se eles tiverem bem definidas as funções e os papéis de cada um, podem exercer bem as funções paterna e materna. Porque, hoje em dia, a criança tem desde muito cedo a convivência com a sociedade, seja na escola, pela televisão, por amigos, etc. Então, ela vai ter exemplos de masculinidade e feminilidade em outros lugares. O que vai ser um desafio para esse casal é explicar o que é cada um, o que é uma escolha sexual. Não acredito também que o fato de os pais serem homossexuais leve a criança a também ser.
|