estadao.com.br Estadao Jornal da Tarde Agencia Estado Eldorado AM Eldorado FM iLocal ZAP
   

Julio Mesquita
(1891-1927)
DIRETOR:
Ruy Mesquita

 
 
PARTICIPAÇÃO
ESPECIAIS
MERCADOS/FUNDOS
 
 
  
 
      Busca local   
Sábado, 17 junho de 2006   edições anteriores
FEMININO
 ÍNDICE GERAL | ÍNDICE DA EDITORIA | ANTERIOR | PRÓXIMA
  Salada de estilos

Conheça algumas tribos de adolescentes que se divertem e marcam presença na capital paulista

Ciça Vallerio

Emo, visual kei, gótico, rockabilly, alternativo cristão. Essas são algumas das tribos de adolescentes que despontam nas ruas da cidade. Cada uma segue um estilo e atitude próprios e, muitas vezes, seus adeptos deixam os pais de cabelo em pé. Mas nada de pânico! A menos que a turma do seu filho adote atitudes truculentas, como avisa a psicanalista carioca Lulli Milman, autora de Cresceram! Um Guia para Pais de Adolescentes (Editora Nova Fronteira):

- É comum o adolescente entrar para um determinado tipo de grupo, que, geralmente, é fechado e bem diferente das características dos pais. Isso serve para dar uma identidade ao jovem e é uma tentativa de ele criar certa independência.

Segundo a psicanalista, os pais devem se lembrar da própria adolescência para terem mais tolerância às diferenças entre as gerações e não criarem um afastamento abissal dos filhos. Flexibilidade, portanto, é a palavra-chave. Assim, fica mais fácil dialogar no dia-a-dia e conviver em paz com essas tribos contemporâneas.

DE VOLTA AOS 50
Eles andaram sumidos, mas voltaram com tudo. Atualmente, há mais de 20 bandas paulistas que animam festas, bailes e barzinhos, com o mesmo rock’n’roll que tocava na vitrola nos anos 50 - Elvis, Jerry Lee Lewis, Buddy Holly, entre outros. Só que, em vez de adultos saudosistas, é a moçada que quer reviver a cultura rockabilly.

Os homens seguem o visual James Dean, Marlon Brando e Elvis. As mulheres, estilo pin-up: saia rodada, camisa justa, jeans justo com barra virada, lenço no pescoço, etc. O importante é estar confortável para dançar, porque, como naquele tempo, rodopiar na pista é o grande barato.

Entre a turma rockabilly, até o namoro é mais romântico. Quando o cara está interessado por alguma menina, ele a convida para dançar uma música (romântica, de preferência). Aproveita os rostos colados para sussurrar galanteios no ouvido dela. Pega na mão, convida para tomar um milk-shake ou dar uma volta de carro, não sem antes abrir a porta para ela entrar.

“Não tem aquela coisa de chegar e ir pegando, como acontece nas baladas atuais”, avisa Bruna Pepper (sobrenome inventado por ela), de 20 anos, que faz faculdade de Moda e trabalha como estilista. Bruna e sua amiga Áurea Rick, de 21, no entanto, namoram punks! “Como ele (o namorado) não curte baladas rockabilly, acabo indo sempre sozinha”, fala Áurea.

A música é o que mais seduz a moçada. O vendedor Alexandre Ângelo, de 26 anos, sempre ouvia os discos do pai, mas foi numa festa rockabilly que o som bateu fundo. “Quando escutei a banda, senti até um frio na espinha.” Desde 2001, ele causa sensação quando resolve dar um “rolê” com seu Galaxy vermelho, de 1975. História parecida com a de Marcelo Guisandi, de 25 anos, que deixou o cabelo crescer - após anos raspando-o - para arrumar o topete e a costeleta.

Excentricidade é o mote
Visual kei é o nome dado ao movimento que nasceu no Japão. Está diretamente associado ao estilo de bandas orientais, conhecidas como J-Rock, que investem pesado num visual megaexcêntrico, o que inclui maquiagem, cabelos e roupas. O repertório musical é um mix de diversas vertentes - do rock pesado ao pop clássico, do techno e synth pop, ao punk.

Apaixonados por essas bandas, adolescentes brasileiros - na sua maioria - e alguns poucos nipônicos aderiram à novidade. Vestem-se de forma extravagante e, quanto mais chamam a atenção, melhor. “Não somos narcisistas, mas gostamos que nos vejam como pessoas diferentes e únicas”, fala a estudante Monica Toriyama, de 17 anos, conhecida por Momô - na foto de capa, entre as amigas Thais Watanabe (à esquerda) e Danielli de Castro.

“Aqui no Brasil, o visual kei ainda é muito novo, mas já tem uma galerinha adepta do movimento”, acrescenta Danielli Guedes de Castro, a Dana, de 20 anos, que faz faculdade de Designer Gráfico. Apesar de ser brasileira, ela é apaixonada pela cultura oriental e se identifica muito com esse estilo. Mas, como a maioria, só se veste com excentricidade durante o Anime Friends, evento que reúne fãs de desenhos animados japoneses.

Durante intercâmbio no Japão, Thais Watanabe, a Lime, de 17 anos, pôde realizar o sonho de muitos jovens que seguem o visual kei: curtiu os domingos no bairro de Tóquio chamado Harajuko - epicentro do movimento e lugar onde a moçada se reúne para desfilar e curtir a onda. “Foi fascinante estar lá, entre a moçada, visitar as lojas de moda específicas do visual kei, ver apresentações de bandas no meio da rua. Uma festa!”

Emotivos e carinhosos
O nome causa espanto. As atitudes, mais ainda. Emo está associado a emotional hardcore, também conhecido por emocore, estilo musical que mescla o som pesado das guitarras com letras dor-de-cotovelo. Os emos são expansivos com relação à sexualidade e emoções. A maneira de mostrar carinho entre amigos é explícita: vivem se abraçando e fazendo elogios mútuos. Não raramente, meninas beijam meninas e meninos beijam meninos.

“Marida”, “paixão da minha vida” são termos usados entre as garotas. Por isso, elas levam a pecha de gays. “Entre a gente, a homofobia é zero”, explica a estudante Fernanda S., de 14 anos. “Mas ser emo não quer dizer ser gay, nem bissexual.” Essa confusão explica a onda de preconceito que vem afetando adolescentes dessa tribo. São agredidos e xingados nas ruas por punks, skinheads, enfim, por quem está fora da tribo.

A estudante Carol C., de 13 anos, já ouviu insultos até de seu professor. “Ele disse que eu era ridícula e lésbica”, conta a garota, que, como o restante dos entrevistados, preferiu não revelar o sobrenome. “Meus pais já me encaminharam para um psiquiatra.”

Eduardo N., de 15 anos, não liga para as provocações e diz que gosta é de mulher. Como ocorre entre a maioria dos emos, seus pais não aceitam que ele faça parte dessa tribo. “Eles não entendem e não respeitam o nosso estilo”, diz o garoto. Mas dá para compreender tanto estranhamento entre os adultos.

Numa balada emo, embora não role drogas ilícitas (são contra), eles tomam umas e outras para se soltarem. Amassos calientes entre eles é lei, e leva o nome de abusa-abusa. Beijos triplos, quádruplos, quíntuplos também fazem parte da festa. Quer dizer, há beijos entre três pessoas ao mesmo tempo, quatro, cinco... porém, sem que isso se transforme numa orgia sexual.

O problema ocorre quando, nessa pegação danada, alguém se apaixona e não é correspondido. Hora de curtir - com orgulho - a fossa, com muita choradeira embalada pelas letras melosas do emocore. Foi o que aconteceu com Ju F., de 16 anos. “Somos mais emotivos do que o normal. Tanto na hora de sofrer por uma paixão, quanto no momento de demonstrar nosso carinho pelas pessoas de quem gostamos.”

Alternativos cristãos
Eles escutam hardcore, black metal, death metal, grind core, doom metal, grunge, metal core e por aí vai. Tudo som pesado, com muita barulheira e gritaria. O diferencial está na letra das músicas, que prega a palavra de Deus e os benefícios da fé. Os encontros dessa moçada acontecem nos fins de semana, em um galpão no bairro da Barra Funda, todo pintado de preto - que, na verdade, é uma igreja evangélica chamada Zadoque.

Lá, ninguém bebe, fuma nem se mete em confusão. São todos da paz. Reúnem-se para assistir a apresentações gratuitas de bandas que querem mostrar a cara, curtir o som pesado e falar do Senhor. Entre elas, três garotas subiam ao palco pela primeira vez: Denise Guimarães, baixista e vocal, de 18 anos; Natália Vitorino, de 16, na bateria; e Ester Dias, de 21, na guitarra.

Juntas, formaram a banda há seis meses e a batizaram de Mors (em latin, significa morte) Selfmoord (palavra holandesa, que quer dizer suicídio). “Assim como o povo underground cristão que freqüenta aqui, a nossa motivação é passar mensagem de vida”, diz Denise, que trabalha em uma imobiliária e faz faculdade de Rádio e TV.

Como elas, muitos outros jovens descobriram a religiosidade e perceberam que era possível, sim, curtir um visual alternativo/roqueiro, mas de maneira certinha. “Bebia e fumava, buscava uma felicidade que não existia, até que descobri a fé”, revela Natália, estudante do ensino médio. Para Ester, que trabalha como atendente, esse foi o seu momento de libertação.

Góticos ressuscitam
Eles nunca deixaram de existir, mas andavam meio desaparecidos da night paulistana. Após longos e tenebrosos anos, eis que surgem em profusão os góticos, com suas roupas pretas, maquiagem carregada... Sim, eles ainda continuam tendo um certo fascínio por cemitérios. A repórter foi atrás de alguns deles no da Consolação. Mas os que se encontravam por lá, negaram-se a dar entrevista.

O jeito foi tomar o rumo de uma balada gótica, que acontece uma vez por mês - chamada Teatro dos Vampiros, na madrugada da zona leste. Os participantes, cheios de melindres - e cada um falando uma coisa diferente -, indicaram o site www.themaozoleum.com, o único “confiável”, segundo eles, para passar informações sobre o movimento gótico.

Resumindo bem, porque os preceitos são complexos, os góticos não são deprimidos. Pelo contrário, gostam de se divertir (e muito), ouvindo o som de bandas da década de 80, quando surgiu o movimento na Inglaterra. Curtem a noite, não são todos que freqüentam cemitério, embora haja atração pelo local e pela arte “tumular” (esculturas, pinturas e arquitetura). E apreciam o visual de efeito dramático, geralmente, adotando roupas escuras.

A promoter Agatha Daee (pseudônimo), de 17 anos, conhecida também por Lady, é gótica e tem como ícones nada menos do que poetas do porte de Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Lord Byron... Todos com certa fixação pela morte. “Aprecio a boemia, a literatura e tudo o que traz referências góticas”, conta. Já sua amiga, Susane Strauzzer, de 17 anos, é apaixonada pela música. “Dançar ao ritmo de bandas (inglesas) como Depeche Mode, Bauhaus, Joy Division, é fascinante”, fala ela.

Para o designer gráfico Kanneda, de 20 anos, ser gótico é apreciar a arte obscura e ter um pé na melancolia - o que não significa ser triste. Pelo contrário, ele é alegre e confessa que gosta de filmes de terror, mas também de comédias românticas. “Sou eclético e adoro também MPB e não me visto apenas no estilo gótico”, avisa.

   


    Links Patrocinados
  Estadao.com.br | O Estado de S.Paulo | Jornal da Tarde | Agência Estado | Radio Eldorado | Listas OESP
  Copyright © Grupo Estado. Todos os direitos reservados.