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Sábado, 29 abril de 2006   edições anteriores
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  É assim que se brinca lá na Amazônia

Dois pesquisadores encabeçaram o projeto Brincadeiras Infantis na Região Amazônica para desvendar do que brincam e o que fazem as crianças lá

Julia Contier

Do que será que brincam as crianças na Amazônia? A educadora Renata Meirelles e o câmera David Reeks colocaram na mala algumas roupas, uns brinquedos de outras regiões do Brasil e começaram uma longa viagem pela Região Norte.

De barco, ônibus ou avião, estiveram entre crianças de 16 comunidades: 3 indígenas, 11 ribeirinhas e 2 municípios, nos Estados do Amapá, Pará, Amazonas, Roraima e Acre. Eles queriam trocar brincadeiras com essas crianças para conhecer tudo e mostrar o que aprenderam.

Foi daí que Renata e David construíram o Projeto Bira - Brincadeiras Infantis da Região Amazônica. E viram que muitas brincadeiras são parecidas: cinco-marias, mãe-da-rua, pular elástico, queimada, cama-de-gato, pular corda, brincadeira de mão, esconde-esconde, bolinha de gude... Às vezes o nome é outro: as cinco marias é conhecida como bole-bole, por exemplo, e pular amarelinha é pular-macaca.

Lá na Amazônia as crianças constroem seus brinquedos de acordo com a vontade de brincar. A madeira da árvore vira peão, aviãozinho, perna-de-pau (fotos 2 e 4). Com a seringueira, fazem bolinhas que pulam super-alto, um espinho vira uma espingarda, e assim vai.

Brinca-se até cansar. Depois, acabou. Ninguém fica com os brinquedos. Ninguém "tem" um brinquedo, porque eles duram pouco e muitos apodrecem. É porque lá o tempo e o espaço são outros. O limite do espaço para brincar é a floresta. E a medida do tempo é: quanto o corpo agüentar.

AS BRINCADEIRAS

Bole-bole - O jogo é feito com 12 pedrinhas, em vez de 5 das cinco marias. O desafio é encontrar tijolos ou telhas para fazermos as pedrinhas.

Espingardinha de taboca - Pega-se um bambu pequeno, corta-se um feixe na parte de cima e dobra-se a tira do bambu, armando um gatilho; lá dentro põe-se um espinho duro de tucumã e é só sair à caça. Em poucos minutos, os meninos voltavam com mutuca (inseto) na mão. A graça é que o inseto fica vivo e pode levar um bilhete com ele ou um fio de cabelo por aí. (foto 1)

O pião de Tucumã - Este pião faz um barulho muito bonito quando roda. Mas a graça também está na sua fabricação. Eles só precisam de um bom facão, um prego e uma língua de pirarucu (o maior peixe da Amazônia, que pode chegar até a 2 metros de comprimento). Esse peixe tem uma língua bem áspera, ideal para lixar madeira. E a brincadeira é achar a madeira, fazer o pião e deixá-lo rodando. (fotos 5 e 6)

Barbante - Figuras e mágicas feitas com barbante vão traçando o dedo e as figuras vão surgindo: o peixe atrás do pau, estrela do pescoço (foto 3), pé de galinha, borboleta e assim vão, usando as mãos, pés e até a boca.

Brincadeira do pau - Faz uma roda com um pessoa no centro. Ela encosta no braço de alguém e pergunta: "que madeira é essa?" E a pessoa responde. É nessa hora que se vê como eles conhecem bem a natureza, são capazes de citar munguba, macaúba, molengá ou abiorana.

Linha de seringueira - Demora 2 dias para fazer. No primeiro, as crianças encontram as árvores de seringueira pela floresta, batem com seus facões para fazer as árvores sangrarem e aguardam até o dia seguinte, quando o leite escorrido já ganhou consistência para ser moldado em forma de bolinhas que pulam super-alto.

Jogo da onça - Jogo de tabuleiro típico da Amazônia. Eles aproveitam o assoalho de madeira para riscar o tabuleiro e assim o jogo fica disponível a qualquer hora para brincar: 14 "cachorros" precisam correr atrás de 1 "onça", sendo que esta terá de comer todos os "cachorros".

Bichinhos de palha - Eles usam a palha do tucumã para trançar e fazer bichinhos de diferentes formatos. Gafanhoto é a figura mais imitada e fica bem parecido com o de verdade.

(SERVIÇO)

Para agendar apresentações em escolas, workshops e palestras com Renata e David sobre esse trabalho de pesquisa: site: www.projetobira.com /e-mail: projetobira@hotmail.com / Tel.: (11) 3836-7733

   


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