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  Discurso de estilo

O arquiteto carioca Luiz Marinho aplica sua estética na reforma do apartamento onde mora, em Ipanema

Marion Frank

Para tudo há um lugar - e um modo de dispor, de combinar o desenho e a cor, ou melhor, a cor, o desenho e o material, do particular em relação ao todo, regras de uma estética aplicada à exaustão por Luiz Marinho em seu apartamento no Rio de Janeiro. Nada escapa ao rigor desse carioca, arquiteto formado em 1977 - do mobiliário aos utensílios de cozinha, luz, acabamentos e o que se entende por decoração.

Poderia a apresentação criar mal-entendido, fazendo supor o reino do previsível. Porque isso de ser exigente tem lá seus percalços, ora se não. Acontece que o imóvel de 220 m² (três suítes), no prédio dos anos 60 erguido em uma daquelas ruas arborizadas de Ipanema que fazem contemplar, esbanja estilo. E mesmo quem se reconhece adepto de outra escola tira o chapéu para o projeto disposto entre as paredes impecavelmente brancas.

“Mudei tudo, logo após a aquisição. Usei panos de vidro, integrei espaços, troquei o piso - réguas de peroba-mica em lugar de pedra São Tomé encerada, por exemplo.” Luiz fala da reforma, concluída há mais de três anos, como se ela ainda estivesse em andamento e ele, envolvido até a medula nos detalhes. “Gosto quando faço arquitetura e design de interiores”, acrescenta. Em relação ao dia-a-dia profissional, isso significa que a clientela deixa a seu critério não apenas a obra em si como também a escolha de sofás, cadeiras, luminárias… e quadros. Apaixonado por arte brasileira (em especial, a moderna), Luiz Marinho tem essa faceta - a de dar partida a uma coleção de arte, se o cliente assim desejar.

No caso da decoração de seu apartamento, “é minimalista, com peças diferenciadas de design”. A síntese do proprietário tem, na área social, exemplos notórios: o sofá anos 40, de pés-de-palito (adquirido em “família vende tudo”), a luminária com cúpula de pergaminho Tolomeu (da italiana Artemide), a mesa lateral (art déco, Antiquário Grafos Tradição), as cadeiras pele de vaca Le Corbusier (Hetty Goldberg, cerca de R$ 2.800 cada uma), a mesa Saarinen com tampo de mármore de Carrara (idem, cerca de R$ 2.700, a de 1,07 m de diâmetro) - essa última, a propósito, disposta na varanda integrada ao estar, o que faz com que as amendoeiras da rua “avancem” living adentro. E, expostas nas paredes ou apoiadas sobre mesas e aparadores, obras e mais obras de arte. São quadros de Ronaldo Rêgo Macedo, telas de Luiz Áquila (a partir de R$ 10 mil, na Galeria de Arte Marcia Barrozo do Amaral), objetos dos irmãos Campana, relevos e esculturas de João Carlos Galvão, outras mais de Weissman. Ar de exposição? Sim, mas o que impressiona é a qualidade de misturar arte sem ofender - ao contrário, acrescentar.

Na sala de jantar, também integrada ao living e hall de entrada, a mesa de refeições é de pau-ferro (2,45 m x 1,25 m, da Interni), as cadeiras são de couro envelhecido (modelo Brno, Hetty Golderg) e os desenhos de grafite sobre papel levam a assinatura de Galvão (o artista preferido do dono da casa; relevos a partir de R$ 13 mil, naquela galeria). Com desenho de Marinho (e produção da Marcenaria Morada), há móveis distribuídos por todo o apartamento, como as prateleiras que tiram proveito do alto ao piso da área de circulação entre os quartos. Ali, a iluminação, composta de esferas imantadas direcionáveis (execução Pinakotheke), aponta para outras telas, agora de Geraldo Dolino. Iluminação. É um dos pontos altos do apartamento - e, como tudo o que existe nele, a concepção ficou a cargo de um especialista, o escritório Peter Gasper Associados.

Na suíte do casal (as outras duas pertencem aos filhos de Marinho, que hoje atuam no escritório de arquitetura e design do pai), destacam-se, entre outros, um cabideiro de época, a cabeceira da cama (peça também desenhada pelo arquiteto e executada pelo estofador João Brás) e a aquarela de Antônio Benevento. Um dos banheiros da área íntima faz as vezes de lavabo, versatilidade bem-vinda em relação ao pequeno espaço. Na cozinha, a coleção de pingüins divide a atenção com as bandejas de design italiano (Alessi) e a lixeira em inox (da Brabantia, modelo de 45 l Touch Bin, cerca de R$ 1.500, na Spicy). “Gosto de cozinhar, mas prefiro fazê-lo em petit comité”, revela o protagonista. Criança, Luiz Marinho tinha o hábito de desenhar a planta de uma casa - era o jeito de ficar quieto, quando em visita. Isso posto, só poderia ser mesmo design dele os armários (e a bancada para refeições rápidas) no espaço de forno e fogão.

   


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