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Domingo, 2 março de 2008   edições anteriores
CASA&
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  Um Picasso no banheiro

O apartamento do decorador Eduardo Stadnik leva um toque de humor: uma obra valiosa na menos visível das dependências

Jennifer Gonzales

A sala de jantar com paredes vermelho-rubi e cortinas brancas plissadas acolhe a mesa para 12 pessoas. O móvel, de estilo inglês Tudor, foi comprado em um antiquário de Buenos Aires e reflete a grandeza do décor deste apartamento de 400 m², na Praça da República. Louçaria alemã KPM, cristais Baccarat e talheres Christofle vestem a mesa a caráter - e o lustre Maria Tereza finaliza o clima de antigo glamour. “Minha casa é meio vitoriana”, confirma o decorador paulistano Eduardo Stadnik. E não dispensa, também, um toque de humor. Uma obra de Picasso foi colocada no banho em homenagem divertida à Elizabeth Taylor - o sonho dela era exatamente esse: ter um Picasso no banheiro.

O apartamento de Stadnik é de fato um mix clássico, no qual poltronas da era vitoriana (1830-1903) dialogam com mesas Luís XV no living também rubi. No estar, que se abre para a varanda com piso de mármore, convivem tapetes orientais, obras de Chagall e mesa desenhada pelo proprietário, que abriga orquídeas no balde de prata (banho de metal da Campos Elíseos, cerca de R$ 200).

Com mestrado em História da Arte pela FAAP e especialização em mobiliário pelo Museu Nacional de Arte Decorativa de Buenos Aires, o decorador de 37 anos revive de certa forma um mundo de beleza e requinte no qual Oscar Wilde se sentiria em casa. Não é mera coincidência que o escritor irlandês, que viveu no século 19, seja um de seus autores favoritos. “Adoro os contos dele. O Fantasma de Canterville é brilhantemente engraçado. Conta a história de uma família americana que comprou um castelo inglês onde um fantasma de 300 anos tenta, em vão, afugentar os novos moradores”, relata.

De ascendência russa e espanhola, Stadnik herdou dos avós o gosto pelo antigo, assim como boa parte dos móveis e peças do seu apartamento. “Meu avô materno era cuidadoso com as coisas dele; tinha paciência, por exemplo, de regular seu relógio de corda. Amigos queriam lhe dar um modelo moderno, mas ele era fiel ao original”, lembra. Essa peça está acomodada na cozinha, assim como o carrilhão que era do avô paterno e outro adquirido pelo dono da casa (na Galeria do Relógio Antigo, carrilhão de parede custa cerca de R$ 3.500). A atração de Stadnik por objetos com história também foi responsável pela compra do imóvel onde vive há sete anos, achado enquanto flanava pelo centro paulistano. O edifício foi erguido em 1949 com os melhores materiais e acabamentos da época: pias inglesas, fechaduras checas e lustre Baccarat no hall de entrada, entre outros.

Mas, se o decorador vive e trabalha exatamente como gosta, por um período seguiu um caminho bem diverso. “Fiz faculdade de Administração porque minha mãe queria que eu tocasse a empresa da família”, explica. Formado, viu que “não era nada daquilo” e foi estudar desenho e pintura no Liceu de Artes e Ofícios. Dessa escola, que tem oficina de marcenaria desde o final do século 19, veio a cama do dormitório principal, pinçada em antiquário. “O Liceu teve papel importante nos projetos de interiores de prédios históricos da cidade, como o Teatro Municipal, para o qual forneceu mobiliário”, lembra.

Stadnik tem prazer de compartilhar o quesabe. “Para identificar móvel Luís XV, olhe o formato das pernas. Se for curvo é XV, se for reto é XVI”, ensina. Aos 26 anos, após concluir o mestrado, deu aulas de história do mobiliário na FAAP. “No primeiro dia, os alunos mais velhos foram à secretaria acreditando que era trote...”, ri ele, que parou de lecionar para se dedicar à decoração e consultoria de arte.

Seu senso de humor também transparece pelo apartamento. Na sala de TV, por exemplo, a marquesa Luís XV (da Pérola Negra, cerca de R$ 8.260) ganhou ar irreverente com almofadas de estampa de pele de zebra (executadas por Tereza Barbosa, R$ 120 cada uma).

Já o baú de couro preto, comprado em Buenos Aires, é motivo de boas lembranças. “Costumava viajar com um desses, pois era a melhor forma de transportar louças, copos e outros objetos”, diz. Certa vez, em Nova York, Stadnik comprou um espelho e, na hora de ir ao aeroporto, a peça não coube no táxi. “Pedi então uma limusine, mas não para mim, e sim para o espelho”, diverte-se.

   


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