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A alma do Líbano
A arquiteta brasileira Candida Tabet ergue a casa dos sonhos de um amigo libanês perto de Beirute
Bete Hoppe
A primeira semana de 2000, Candida Tabet dormiu no chão de terra batida da única construção erguida no terreno de 120 mil m² - um abbu, abrigo de cabras, sem vedação contra o frio. “O que estou fazendo aqui, no meio do nada?”, ela se perguntava sozinha em Ghouma, a meia hora de Beirute (Líbano). Mas sempre aparecia um aldeão trazendo comida ou querendo saber se estava bem. “Generosidade é o traço desse povo”, lembra. De dia, memorizava detalhes do terreno, entre montanhas. “Andava e media, namorando como ia implantar a casa.”
Desse levantamento nasceram certezas. O abbu, com janelas em pontos estratégicos para tirar proveito do sol e do vento, seria preservado em lugar de destaque. “Foi erguido há cerca de 300 anos com pedras catadas no terreno, técnica primária de construção”, informa Candida. Materiais locais teriam prioridade, como o cedro roliço, comum na região (o de eucalipto, com diâmetro entre 15 e 18 cm, sai por R$ 18,50 o metro linear, na Artemad). E os jalls (muros de pedras em planos na montanha) deveriam se integrar à construção. “Quis agregar memória ao projeto e aproveitei ao máximo os recursos naturais, dentro e fora da casa.”
A história desse projeto nasceu no final de 1999, em Atibaia, quando Candida e o marido hospedaram um amigo libanês. “Ele voltou para o Líbano contaminado pela idéia de ter uma casa de campo no terreno de Ghouma”, conta. Em julho de 2001, ela retornou à montanha, rota que repetiria a cada dois meses durante um ano e meio, até o final da obra, tocada por uma equipe local e monitorada de longe graças aos avanços da tecnologia. “O cliente gostou tanto que produz azeite e vinho em pequena escala ali”, diz.
Influências francesa e italiana
A familiaridade com a cultura contou pontos para o sucesso do projeto. Casada há 23 anos com um libanês radicado no Brasil, Candida e o marido viajam ao menos uma vez por ano para Beirute, onde têm um apartamento. “Gosto de conhecer outras formas de viver. Por isso, estimulei essa convivência intercultural”, afirma. “Além disso, como arquiteta, interessa-me abrir novos universos.” Ela calcou o projeto na pesquisa arquitetônica daquele país. O telhado com estrutura aparente e as colunatas romanas na longa galeria externa, por exemplo, homenageiam as influências francesa e italiana no Líbano. As escadas externas, com degraus de mármore e corrimão de ferro, e o pergolado de cedro roliço, que sombreia e desenha o patamar do abbu, também são típicos do vale do Bekaa, onde fica a aldeia Ghouma. E a fonte, “que refresca as casas libanesas”, está presente em versão moderna, com estrutura de seixos rolados de rio (na cor branca, custa R$ 17,50 o saco com 40 kg, na Pedras Amazonas).
Hoje, o casal libanês e três filhos desfrutam de uma casa de 1.500 m², distribuídos em três andares escalonados no morro, cada qual definido pela altura de dois jalls (com 1,70 m cada um). Os pavimentos determinaram também o uso dos interiores, onde as linhas de pedras se vêem nas paredes irregulares. “Onde não tinha pedra, usei tijolo” (R$ 530 o milheiro, na Padroeira Tijolos), diz Candida. O rejunte é uma massa de pó calcário branco, capim e água “à moda dos beduínos, outra técnica rudimentar”, enfatiza. No térreo estão a entrada principal, a cozinha e a sala de jantar com pé-direito duplo. O primeiro andar abriga o living e as suítes da família.
No pavimento superior, três suítes de hóspedes e, no alto, o abbu, agora convertido em sala de bilhar. Cada andar tem seu pátio voltado para o vale, resultado do avanço da casa montanha acima, à semelhança dos degraus de uma escada. Ou seja: a cobertura do pavimento de baixo forma uma laje a céu aberto no andar de cima. “Os pátios são áreas de reunião ao ar livre”, ressalta Candida.
Fragmentos romanos
Todos os pisos externos são de costaneira de pedra calcária libanesa (semelhante à pedra São Tomé, de R$ 60 a R$ 85 o m², na Pedras Amazonas), que também revestem de alto a baixo os banheiros. Costaneira é a primeira lasca do bloco bruto, que, por ser rústica, em geral é desprezada. “Para juntar a quantidade necessária, a pedreira levou um ano, um dos motivos para a demora da obra.” Já a piscina, que se apóia num monólito com 30 m de comprimento, contracena com o deck linear, no lado aberto para o vale. No interior, a lareira se encaixa em outro bloco de pedra, descoberto durante as obras. Fragmentos de arcadas romanas, encontrados na aldeia, compõem o arco na entrada da adega, degraus abaixo da sala de jantar.
Luz funcional
A decoração mistura peças dos anos 50 e 60, luminárias art déco, porta turca, espelho da avó e móvel mineiro “sem preconceitos”. O mobiliário é vintage, como as poltronas Clubchair, garimpado em brechós locais e no mercado de pulgas de Paris.
Quanto à iluminação, Candida optou pelo funcional: lâmpadas com soquetes de porcelana expostos e muitos abajures e luminárias. Equipada com eletrodomésticos de inox, a cozinha de paredes azulejadas e piso de granilite (claro, com 40 cm x 40 cm, custa em média R$ 4 mil para área de até 30 m², na Casa Franceza) tem clima asséptico. “Os revestimentos são frios por necessidade. O movimento ali é intenso e o verão, muito quente”, explica a arquiteta.
Ao final da obra, em 2002, Candida enfim teve a recompensa pelas noites solitárias em que passou no abbu. “A dificuldade desse projeto foi a mesma dos que faço no Brasil, que é dar alma a cada um. Mas, na casa do Líbano, emociona-me ver que traduzi a memória do lugar em arquitetura”, diz Candida, que cobra R$ 150 o m² o projeto.
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