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Julio Mesquita
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  Ecos do azul

A ceramista Stella Ferraz se deixou cativar pelo azul-turquesa do mar da Grécia, que tenta reproduzir nas suas peças

Jennifer Gonzales

Pratos e travessas azul-cobalto, vermelho e turquesa cobrem as prateleiras do ateliê de certo ar toscano. A fachada da construção - situada numa das poucas ruas da Vila Olímpia que abriga casas - tem paredes rústicas em terracota e, no piso próximo ao portão de entrada, reluz uma faixa de azulejos estampados como se fosse nova. “Instalei os ladrilhos há oito anos, quando mudei para cá”, diz a ceramista Stella Ferraz, referindo-se a uma de suas 500 criações. A combinação de linhas clássicas e modernas, marca de seu trabalho, ganhou o reconhecimento de instituições como o Museu da Casa Brasileira (MCB), que lhe deu o primeiro prêmio na categoria Design, em 1995. “Na exposição Caminhos da Cerâmica, que fiz em 2000 no MCB, fiquei surpresa ao ver as pessoas admirando as cores e as formas das minhas criações. Senti que era a validação do meu trabalho”, lembra a artista.

O amor pela cerâmica a levou a trilhar um caminho que já completou mais de 25 anos. Recém-casada na década de 70, ela foi à Ilha de Marajó e a Santarém, no Pará, conhecer a produção local e, em seguida, visitou o Japão e a Escandinávia. Em Londres, onde seu marido trabalhou por um ano, em 1976, fez cursos especializados. “Gosto de mexer com o barro desde menina; as aulas na escola eram um prazer”, diz Stella, que se formou em Desenho Industrial pelo Mackenzie. Em julho passado, após uma viagem à Grécia, ficou cativada pelo azul-turquesa do mar. “Levei meses até conseguir reproduzir esse tom na cerâmica”, recorda. Segundo ela, as cores são resultado da alta temperatura com que as peças são queimadas. “Cada uma queima de um jeito; eu as ponho no forno com até 1.380°C. Gasto muito gás no processo, mas assim chego aos tons fortes e objetos mais resistentes, que podem ser colocados no microondas ou na lava-louças”, diz. Não por acaso, Stella define suas tigelas, xícaras, vasos e bandejas como “superutilitários” (os preços variam de R$ 20 a R$ 400 a unidade; peça assinada custa, em média, R$ 800).

O requinte de sua produção acabou conquistando clientes como os chefs Alex Atala, Charlô Whately e Carla Pernambuco. “Fiz as travessas de sushi do primeiro restaurante de Alex, há mais de 20 anos, quando funcionava embaixo da ‘casa-bola’ do arquiteto Eduardo Longo”, conta. Dona de uma biblioteca especializada com centenas de títulos, Stella mostra volumes em que figuram algumas de suas criações - entre eles, Adoro!, do arquiteto e decorador Sig Bergamin. Enquanto examina os livros, ela encontra um sobre a obra de George E. Ohr. “Olha essa jarra!”, entusiasma-se diante de uma peça do ceramista americano, nascido em 1857. “O que ele criou com o barro teoricamente não dá para fazer... parece um objeto de prata, é outra história.”

Mesmo não sendo uma atividade lucrativa (“no máximo, o negócio se paga”), Stella garante que nunca abandonará sua atividade. “Minha vida foi para frente por causa dela. Recentemente, criei chapéus de cerâmica para a peça Brasileira de Paris, da psicanalista Betty Milan, e comecei a dar aulas - a procura está sendo grande”, orgulha-se. E o que a atrai tanto na cerâmica? “As cores do esmalte, a maleabilidade do material... O fato de a massa mole se transformar em algo belo me deixa louca. Essa auto-suficiência encanta!”, diz.

   


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