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Biografia de ex-presidentes sindicais, incluindo a de Lula, não esconde o desejo de ascensão social

Marco Antonio Villa*

Os depoimentos de sete presidentes do sindicato dos metalúrgicos do ABC (que reúne os sindicatos de São Bernardo do Campo e Santo André) transcritos no site são importantes para entendermos o governo Lula. Com patrocínio cultural da Brasil Telecom, Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Meneghelli, Vicente Paulo da Silva, Luiz Marinho, Heiguiberto Navarro, José Lopez Feijó e João Avamileno, relatam suas memórias. Curiosamente, a história sindical regional, segundo o site, começou com eles (“os sindicalistas autênticos”) que fundaram o PT (isto em uma região que teve greves heróicas desde 1934 e que em 1947 elegeu um prefeito comunista).

Claro que o primeiro depoimento tinha de ser de Lula. Além dos fatos já bem conhecidos, relata um linchamento que presenciou, em 1960: “Era uma fábrica de meias, e tinha lá meia dúzia de pessoas trabalhando, o piquete passou e mandou parar e o dono da fábrica não quis parar. Aí, o pessoal invadiu a fábrica. O dono da fábrica atirou. Atirou num piqueteiro e os outros subiram e jogaram ele da janela para baixo. Ele morreu. O pessoal matou o dono da fábrica.” Ponto final. Nenhuma censura, crítica, nada.

Em 1966, começou a trabalhar na Villares e três anos depois fez parte da diretoria do sindicato como suplente, por indicação do irmão, frei Chico, vinculado ao PCB: “Nessa época, eu só lia A Gazeta Esportiva”. Em 1972 foi eleito primeiro-secretário. Logo se afastou do irmão e não aceitou apoiar uma chapa de oposição sob influência do partidão. Posteriormente, isolou Paulo Vidal, ex-presidente do sindicato e que o apoiou na eleição de 1975.

Sua liderança se consolidou em 1977, quando da campanha de reposição salarial referente à manipulação da inflação de 1973: “O Delfim Netto”, diz ele, “tinha falsificado os índices de inflação.” No ano seguinte começaram as grandes greves, sem que a iniciativa fosse do sindicato. Em 1979, nova greve. A diretoria preparou a categoria para uma longa paralisação, construiu um ambiente de guerra, como explica Lula. Porém, os empresários cederam e atenderam às reivindicações. Na assembléia realizada no estádio da Vila Euclides, os operários desejavam continuar a greve. Cada orador que falava em terminar o movimento era vaiado: “Já tinha visto dois falarem na minha frente e sabia que os trabalhadores não queriam voltar ao trabalho.” Continua Lula: “ao invés de propor a aceitação do acordo, pedi um voto de confiança. Aí, a categoria me deu o voto de confiança.” Pouco depois, se reuniu com os empresários e acabou com a greve. Relata nebulosamente como desapareceu das assembléias, durante a intervenção no sindicato, na greve de 1979. Só voltou após ser intimado por uma comissão de sindicalistas liderados pela atriz Lélia Abramo.

A longa (e derrotada) greve de 1980, para Lula, foi uma vitória: “Não ganhamos nenhum vintém, não ganhamos nenhum centavo. Perdemos muito, entretanto, do ponto de vista político, nós nunca ganhamos tanto, porque, depois da greve, veio a consolidação do PT enquanto partido político.” Conta alegremente os 31 dias de prisão, em 1980, e que lhe renderam uma aposentadoria. O delegado Romeu Tuma, do DOPS, atendeu todas as suas solicitações: desde um dentista, para tratar de uma dor de dente, até uma televisão para ver os jogos do Corinthians. Mesmo assim, houve uma greve de fome, contra a vontade de Lula: “Eu até tentei guardar umas balinhas embaixo do travesseiro. O Djalma descobriu e jogou fora as minhas balinhas.”

Em 1981 Lula foi substituído por Jair Meneghelli, que começou a trabalhar na Willys, em 1963. Filiou-se ao sindicato 14 anos depois. Mas o fez sem qualquer vinculação com a luta travada à época pela reposição salarial. Queria cursar madureza (o supletivo de então): “Quem era sócio pagava metade, quem não era sócio pagava integral. Então eu fiquei sócio para pagar metade.” Tinha como leituras prediletas o gibi infantil Tio Patinhas e A Gazeta Esportiva. Conta que ouviu a notícia da morte de Carlos Marighella pelo rádio, quando estava trabalhando: “Para nós, aquilo foi uma festa, mataram um bandido, nós até comemoramos.”

Em 1978 recebeu de Wagner Lino, militante comunista, o livro Dez dias que abalaram o mundo, do célebre jornalista americano John Reed, que trata da Revolução Russa de 1917. Diz que não entendeu nada: “Lia duas páginas e me esquecia o que eu tinha lido. Tinha lá exército vermelho, verde, cor-de-rosa, sei lá, um monte de coisa, cheguei para o Wagner, devolvi o livro e falei: ‘Wagner esse negócio é muito confuso rapaz, é um monte de partido naquela desgraça, o bom é aqui no Brasil, só tem Arena e MDB.’” Em 1981, foi surpreendido pela indicação de Lula para que assumisse a cabeça da chapa para o sindicato: “Qualquer dificuldade que eu tiver, pego o carro e corro aqui na sua casa.”

Vicente Paulo da Silva sucedeu Meneguelli. Aos 20 anos, em 1976, migrou para São Bernardo. Conseguiu emprego 11 dias depois. E isto “porque eu fiquei escolhendo onde trabalhar.” No ano seguinte se filiou ao sindicato. Achava que era um clube: “imaginava que tinha clube mesmo, para poder se encontrar, ir para alguma festinha.” Participou pela primeira vez de uma greve em 1979. Dois anos depois entrou para a diretoria. Em 1987 é eleito presidente do sindicato e sete anos depois assumiu a presidência da CUT.

Luiz Marinho sucedeu Vicentinho, após breve interinato de Heiguiberto Navarro. Chegou a São Bernardo em 1978, quando foi trabalhar na Volkswagen. Tinha 29 anos. Dois anos depois foi ao sindicato para se associar. Como esqueceu a carteira profissional não foi possível a filiação. Desistiu. Só voltou meses depois. Mesmo assim, em 1984 foi eleito tesoureiro. Permaneceu 12 anos em cargos burocráticos. Em 1996 chegou à presidência do sindicato e seis anos depois foi eleito presidente da CUT.

São biografias de êxito, para ficar somente nestes quatro depoimentos: presidente da República, deputado federal, ministro de Estado e presidente do Sesi. O que chama a atenção nos relatos é o arrivismo, o baixo nível de consciência política, o economicismo, a breve militância e a rapidez na ascensão burocrática, além do desejo de se afastar do universo cotidiano da fábrica. Os princípios políticos são abandonados segundo as conveniências de momento, assim como os aliados são descartados quando não são mais necessários. O universo da formação cultural das lideranças operárias é paupérrimo. Não se fala em livros, jornais, panfletos, como na tradição do movimento operário. O mundo se resume ao sindicato, ao bar. São mais pequenos burgueses que operários. Almejam a ascensão social e vão encontrá-la no caminho de São Bernardo para Brasília.

* Marco Antonio Villa é historiador, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos e autor, entre outros livros, de Jango, um perfil

   


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