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A unidade estilística do Grupo Tapa
Companhia é brilhante na condução de O Ensaio, em que discursos e sentimentos são pautados por máscaras delicadas
Crítica Mariangela Alves de Lima
Depois de ter renunciado ao ilusionismo, o teatro moderno partiu a todo vapor para a exploração de vertentes ficcionais que dispensavam a referência ao universo da experiência comum. Sob essa bandeira libertária, em que o maravilhoso e todos os absurdos têm direito à vigência em cena, retornaram ao sono das estantes as imitações verazes da fala e do gesto cotidianos e, por extensão, marcharam na retaguarda os textos teatrais em que a palavra ocupava a função de signo predominante. Ainda hoje são raros os encenadores, grupos e companhias que se interessam por aquela dramaturgia, cujo valor de face é a palavra. Até mesmo os clássicos da dramaturgia ocidental, a exemplo de Shakespeare, tornam-se espetáculos em que o texto iguala (e algumas vezes secunda) a visualidade e as peripécias físicas e vocais dos intérpretes. Pois o grupo Tapa tem sido uma exceção nessa prática de esquecimento coletivo, porque vem enfrentando com maestria crescente não só os clássicos - outros grupos também os encenam com freqüência -, mas um tipo de literatura dramática em que o texto não pode tornar-se coadjuvante dos outros elementos de composição do espetáculo, sob pena de perder o sentido.
O Ensaio, peça de Jean Anouilh encenada agora pelo grupo, é uma espécie de máquina verbal com o mecanismo à mostra. Artificial, feita para encantar primeiro os ouvidos, e a inteligência em seguida, a peça ilustra de certo modo o aforismo do protagonista: 'O natural, o verdadeiro do teatro é a coisa menos natural do mundo. Em primeiro lugar, na vida, o texto é sempre tão ruim! (...) A vida é muito bonita, mas não tem forma. A arte tem exatamente a missão de dar-lhe uma forma e de fazer isso por meio de todos os artifícios à sua disposição - mais verdadeira que a verdade.'
Discursos galantes em que imperam as estruturas e os revestimentos ornamentais da retórica são direito de quase todas as personagens da peça. Mas há outra ocorrência de ordem prioritariamente dramática imiscuída aos argumentos: toda a ação da peça é impulsionada por diálogos em que subsiste, de modo integral, a função cognitiva dos embates verbais. A ação só progride por meio dessas conversas estilizadas: caracterizam-se funções e movimentos psíquicos, mudam as personagens e são, por fim, as conversas que determinam o percurso da narrativa. Falar e ser são uma só coisa. Por força das convenções da classe social a que pertencem os castelões e seu pequeno grupo de convidados, não se concedem exibições sentimentais ou gestos e movimentos fora da medida prescrita aos de sua estirpe. Mas são os herdeiros da língua e os guardiães da forma e, por essa razão, se esmeram nos raciocínios e na composição das frases. No entanto, é a personagem que fala menos, que ainda titubeia na prática da comunicação verbal e que ignora quase tudo da noção de beleza dos seus patrões, que é a única capaz de despertar sentimentos verdadeiros, sejam de amor ou ódio. A essa mocinha, Anouilh reserva o papel de vítima sacrificial de uma cerimônia de gente rica e ociosa. Será seduzida e esquecida, porque o 'verdadeiro' é privilégio de outra classe social e não deve contaminar o salão de um castelo.
Há aí uma moralidade simplista que a encenação de Eduardo Tolentino de Araújo descarta com um agudo sentido de oportunidade. O grupo aristocrático pode ser cínico na aparência e malvado na essência, mas seu poder de atração não pode ser ignorado e a esse fascínio sucumbiu o autor e deve sucumbir o diretor do teatro de hoje. São brilhantes excursionistas da mesmice, ou seja, refletem em diferentes espelhos os temas de prazer imediato, do desprezo ao mau gosto e da afinidade entre as pessoas da mesma classe, mas dominam uma gama extensa de tonalidades, evoluem em cena com a graça de animais bem treinados dentro de um repertório limitado de posições e não deixam de exibir o urdimento intelectual que sustenta as falas. Também a mocinha, 'mulher do povo' e trabalhadora, escapa ao clichê romântico da ingênua, embora seja esse o tratamento que lhe dá o autor, invocando a tradição do bulevar. Neste espetáculo, a mocinha Lucile, interpretada por Anna Cecília Junqueira, tem a serenidade física realçada pela atriz. É perfeitamente capaz de representar, tão bem quanto seus comparsas, a peça de Marivaux que o grupo de aristocratas ensaia no castelo. Fora 'de cena', seu silêncio tem, por contraste, uma força proporcional à tagarelice dos que desejam aniquilá-la. É um tratamento que põe em crise a matéria de que a peça é feita e compreende tanto a beleza da eloqüência quanto seu iminente desaparecimento do palco e da arte de um modo geral.
Clara Carvalho no papel da Condessa e Zé Carlos Machado representando o Conde formam uma dupla extraordinária, porque os sentimentos sob as palavras e os conflitos que não se reconhecem como tal são formalizados por nuances, máscaras delicadas revestindo composições pautadas pelo raciocínio. Todos os atores do elenco têm a mesma compreensão da peça e uma unidade estilística que os torna, na formalização visual, semelhantes aos grupos de porcelana, aos bonecos mecânicos e à iconografia das cortes absolutistas. À margem, talvez destacado do mecanismo e da imobilidade pela memória de uma perda verdadeira, está Herói, amigo de juventude do Conde. Walter Breda representa-o como fragmento, peça danificada do conjunto e faz dele uma espécie de ponto de fuga sinistro que sustenta a percepção de todo o quadro. Nós o notamos toda vez que está em cena, porque sua compostura ameaça deteriorar-se, a fala é permeada pela hesitação e pela emissão pastosa do alcoolismo e a ameaça que representa vai além do cinismo das outras figuras em cena. Os que sofrem de verdade, ou já sofreram, não sabem manter a pose e têm no olhar uma notícia terrível.
Serviço O Ensaio. 14 anos. 120 min. Teatro Imprensa (449 lug.). R. Jaceguai, 400, 3241-4203. 6.ª e sáb., às 21 h; dom., 19 h. R$ 40 e R$ 50 (sáb.)
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