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O primeiro herói rebelde da europa
Ao tentar deter o cristianismo e reviver o helenismo, o imperador Juliano possibilitou que a Igreja Católica se organizasse
Ubiratan Brasil
Foram apenas 20 meses no poder, período em que o imperador Juliano incomodou a principal instituição da época, a Igreja Católica. 'Ele baixou uma série de medidas que irritaram os cristãos, como a determinação de todos os membros clericais pagarem impostos, além de obrigá-los a reconstruir os templos destinados aos cultos gregos que foram destruídos quando o cristianismo se tornou a crença oficial do Império Romano', comenta Caco Ciocler, dissecando o papel que interpreta em Imperador e Galileu, título que une os principais personagens da trama: o que vive no tempo da ação (Juliano) e aquele que inspirou o conflito (Jesus).
Especial na carreira do norueguês Henrik Ibsen, Imperador e Galileu foi a peça que exigiu o mais longo processo criativo do dramaturgo, que nela se debruçou durante nove anos, entre 1864 e 1873. O texto, traduzido por Fernando Paz e adaptado por Sérgio Ferrara, cobre um período de 12 anos, de 351 a 363 d.C., época marcada pelo conflito entre o cristianismo e o helenismo.
A trama começa quando Juliano, então com 19 anos, vive sob o período de terror instaurado pelo imperador cristão Constantino, o tio que ele haveria de suceder. Apesar de educado sob o cristianismo, o futuro mandante é perseguido pela dúvida, que o leva a Atenas, onde aprende sobre a religião dos pagãos. Lá, porém, também não consegue alívio na adoração dos antigos deuses, desejando uma revelação que mostre o caminho a seguir. Até que Máximo, o místico de Éfeso, apresenta-lhe a visão do 'terceiro reino', baseado na ética cristã, na sabedoria pagã e na alegria pela vida. Juliano assume o poder e determina a liberdade religiosa para todos cidadãos.
O imperador, no entanto, restabelece um paganismo marcado pela magia e ocultismo, muito distanciado do praticado pela velha Roma. 'Juliano recebeu uma educação excepcional, mas não para se tornar líder de um império', observa Ciocler. 'Por isso que ele logo começou a ser atormentado por dúvidas, a questionar a si mesmo sobre sua capacidade de governar, o que acredito ainda ser um dilema atual - sempre somos atormentados sobre a extensão da nossa capacidade.'
É por conta dessa qualidade que Imperador e Galileu é, segundo o diretor Sérgio Ferrara, a mais shakespeariana peça de Ibsen. 'Aqui, ele apresenta um texto épico marcado por grandes temas, como a escolha entre o idealismo e a própria vida', comenta o encenador que, quando leu o texto pela primeira vez, confessa ter ficado assustado. 'Trata-se principalmente de uma peça de idéias, portanto, à primeira vista, mais interessante como leitura que como encenação', afirma ele, repetindo a mesma preocupação que, inicialmente, quase afastou Caco Ciocler da montagem.
'Como é baseada na palavra, a obra é recheada de armadilhas para a direção e o elenco', reconhece Ferrara que, para não cair em nenhuma habilidosa arapuca arquitetada por Ibsen, escolheu com critério os atores. Ciocler, por exemplo, era figura fundamental. 'Se ele não aceitasse o papel, provavelmente não haveria montagem', reconhece o diretor. 'Ele trabalha com a idéia filosófica em relação à palavra, ou seja, Caco encontra sentido para todas as suas falas.'
Detalhe fundamental para a compreensão das crescentes e fatais dúvidas de Juliano. Uma aparente loucura alimentada pelos personagens que o rodeiam, interpretados por Sylvio Zilber, Abrahão Farc, Nelson Peres, Julio Machado, Joaz Campos, Ronaldo Oliva, Igor Kovalewski, Liza Scavone e Dan Rosseto. Todos mergulhados em um texto que filosofa sobre a origem da fé humana. 'Afinal, ao perseguir os cristãos, Juliano curiosamente os obrigou a se organizarem e a estabelecerem o cristianismo que hoje conhecemos', observa Ferrara.
JULIANO - Ninguém será jamais ferido por mim por causa de sua crença. Mas não posso permitir que prejudiquem os outros, como vêm fazendo há muitos anos. Não vou citar os crimes que cometeram, ou que permitiram que fossem cometidos. Os assassinatos, os roubos, a crueldade, mais própria dos animais selvagens do que de sacerdotes.
Cena
GREGÓRIO - Aclamado como mais do que um mortal, e com a fama de suas vitórias voando à sua frente, ascendeu ao trono de Constantino sem precisar desferir um golpe. O mundo está a seus pés. Então, ondas maiores nos alcançaram. O senhor da terra estava investindo-se em batalha contra o Senhor dos Céus...
JULIANO - Gregório, você está insinuando que...
GREGÓRIO - O senhor de nossos corpos estava se preparando para travar uma guerra contra o Senhor de nossas almas. Meu corpo diante do senhor treme de medo. Mas não ouso mentir. Quer ouvir a verdade ou devo manter-me em silêncio?
JULIANO - Fale, Gregório.
GREGÓRIO - O que meus fiéis colegas ainda não sofreram nestes poucos meses? Quantas sentenças de morte não foram pronunciadas e executadas com crueldade medonha?
JULIANO -Aqui estão seus últimos crimes. Assassinatos encomendados e propriedades confiscadas.... Oh, como vocês, bispos, amam as riquezas deste mundo! Contudo, sua religião ensina que não devem resistir ao insulto nem recorrer à lei, nem ter propriedades, muito menos roubadas! Foram ensinados a não considerar coisa alguma como sua propriedade, exceto seu lugar no outro mundo, um mundo melhor. Porém, usam jóias, roupas caras, constroem basílicas imensas, tudo neste mundo, não no outro. Foram ensinados a desprezar o dinheiro, mas acumulam-no. Colocam em risco não só a verdadeira religião, mas também a segurança do Estado, no qual sou o magistrado-chefe, quando interferem em assuntos políticos. Não são dignos nem do Nazareno. Não sou contra o Nazareno, mas o que vocês fizeram com os ensinamentos que ele deixou. Se não podem viver de acordo com os preceitos que estão dispostos a defender, o que são vocês então senão hipócritas?
Serviço Imperador e Galileu. 95 min. 14 anos. Sesc Santana (349 lug.). Av. Luiz Dumont Villares, 579, 2971-8700.6.ª e sáb., 21 h; dom., 19h30. R$ 5 a R$ 20. Até 24/8
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