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'Quis falar de ética, honra, dignidade'
David Mamet conta que em Cinturão Vermelho usou as artes marciais para discutir valores que andam meio obsoletos hoje
Luiz Carlos Merten, Los Angeles
É primavera, mas o dia está frio e David Mamet chega de jaqueta, com a boina enterrada na cabeça.“Jiu-jítsu é uma arte marcial, como o boxe também é”, resume o diretor e roteirista de Cinturão Vermelho, numa conversa com um pequeno grupo de jornalistas, incluindo o repórter do Estado, em Los Angeles. “A essência do jiu-jítsu é que o conhecimento pode derrotar a força. É uma atitude filosófica diante da vida, mas o mais interessante é que se trata de uma coisa extraordinariamente prática, e física. Não use mais força do que necessita; a sabedoria e o conhecimento vão aumentar sua força. Se você contrapõe dois adversários, um forte e outro fraco, o fraco poderá vencer seu oponente se souber trazê-lo para seu campo e cansá-lo, exaurindo sua força. Cansado, será ele o adversário mais fraco, e essa é uma coisa que a gente aprende no jiu-jítsu brasileiro, que também nos ensina a respirar para controlar a agressividade e a raiva.”
Na época, o repórter ainda não havia assistido a O Incrível Hulk, que terminou estreando antes que Cinturão Vermelho no Brasil, mas o que Mamet dizia bate perfeitamente com as cenas iniciais do filme de Louis Leterrier, quando o personagem de Edward Norton aprende com seu instrutor de capoeira técnicas de respirar que vão esvaziar sua raiva (e você sabe como a raiva do Dr. Banner pode ser mortal). Como o próprio Mamet esclarece, o que o levou ao jiu-jítsu brasileiro foi a busca da técnica, cuja origem é japonesa, mas o que o mantém no esporte é a sua filosofia, que ele resolveu converter em filme. E surgiu a história de Mike Terry, um veterano da Guerra do Golfo, interpretado por Chiwetel Ejiofor, que possui essa academia e é envolvido pela mulher e pelo cunhado brasileiros - personagens de Alice Braga e Rodrigo Santoro - numa trapaça tão complicada quanto aquela em que Steve Martin enredou Martin Campbell em The Spanish Prisoner, que se chamou justamente A Trapaça, no Brasil.
Por meio desse personagem, Mamet vai introduzir o público na cultura e no ambiente das lutas. Os personagens brasileiros não são exatamente modelos de comportamentos, ambos mais preocupados com a sobrevivência pessoal do que com os códigos de ética que atraem Mike Terry, como samurai moderno. O repórter observa que Cinturão Vermelho com toda certeza será criticado no Brasil, por essa maneira de focalizar os brasileiros. “Nonsense”, diz o diretor. “Estou trabalhando com dramaturgia, e isso não tem nada a ver com o politicamente correto. Além do mais, se os brasileiros da trama não agem corretamente, eles são impulsionados a isso pelos (norte)americanos, que são os que verdadeiramente trapaceiam e querem transformar o ambiente das lutas em algo sórdido e programado.”
Tudo, lá pelas tantas, gira em torno do dinheiro, mas Mamet sentia que não estava conseguindo juntar as peças do seu quebra-cabeça para levar ao tipo de desfecho que queria. Faltava-lhe um gancho (the hook). Ele veio quando teve a idéia das três bolas, no combate decisivo. Em sua academia, Terry ouve de seu mestre (Dan Inosanto) sobre as três bolas colocadas num vaso, uma preta e duas brancas. Elas vão determinar se o lutador participará de uma luta limpa (a branca) ou se ele terá de enfrentar o adversário com algum tipo de limitação, com um braço preso, por exemplo (as pretas). As três bolas prestam-se à manipulação, e é isso o que ocorre, convergindo para a luta decisiva, que é entre a dignidade do lutador, qual um samurai de Akira Kurosawa, e um mundo no qual o dinheiro substituiu a ética.
Cinturão Vermelho é o primeiro filme norte-americano classe A - mesmo que sua produção seja independente e ele não pertença exatamente ao mainstream hollywoodiano - a tratar do jiu-jítsu brasileiro e das artes marciais mistas. Filmes de lutas em geral destinam-se a platéias que buscam ação, e nada mais. David Mamet oferece belas cenas de lutas (coreografadas por Renato Magno). Uma das melhores cenas é quando Chiwetel estimula a personagem de Emily Mortimer, que sofreu abuso sexual, a extravasar sua agressividade. Nada é dito, a cena é puramente física, e a própria atriz confessou como foi perturbador para ele responder ao estímulo físico. Mais tarde, na hora da luta, Alice Braga também terá um momento revelador em que nada é dito. Tudo se resolve por meio do movimento físico da atriz, e do seu olhar. Cinturão Vermelho não é sobre artes marciais, insiste Mamet. É sobre dignidade, ética, honra, valores que andam meio obsoletos no cinema - e no próprio mundo - atuais. O drama explode por meio de conflitos vigorosos, que contrapõem personagens densos. Nenhuma novidade - “Boa dramaturgia, ou bom cinema, precisam sempre desses ingredientes”, filosofa Mamet.
O repórter viajou a convite da distribuidora Sony
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