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Julio Mesquita
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  Uma besta. Um gênio. Um ator incomum

Aos 24 anos, Lee Thalor brilha nos palcos da cidade, pelas mãos do exigente Antunes Filho

Renato Machado

“Eu preciso que alguém tenha um ataque epilético”, disse em voz alta o conceituado diretor de teatro Antunes Filho. Os ensaios para a peça A Pedra do Reino entravam no quinto mês e, por causa da falta do protagonista, tudo tinha parado. Dias antes, o ator que interpretava Quaderna foi mandado para casa, para terminar de decorar o texto, mas, naquele momento, ele era essencial. “Vai lá, Lee, faz você”, disse Antunes. “Não, eu não”, respondeu o jovem ator. “Faz lá logo, caramba.”

Após ver Lee Thalor se contorcer no palco, Antunes Filho ficou calado, olhando fixo para os atores. Todos no Centro de Pesquisa Teatral (CPT) sabem o que significa o seu silêncio. No dia seguinte, Lee foi chamado para uma conversa e saiu dela como o novo Quaderna, o primeiro passo até se tornar um dos principais artistas dos palcos paulistanos.

Por seu trabalho em A Pedra do Reino, Lee foi indicado a prêmios de melhor ator, recebeu elogios dos críticos e ganhou a confiança de Antunes Filho, que o jogou em novos desafios. Mesmo tendo só 24 anos, foi escalado para interpretar Misael, na obra de Nelson Rodrigues Senhora dos Afogados. “O Antunes só me coloca em roubada”, brinca Lee. “O pai em uma obra de Nelson Rodrigues não é um pai qualquer, é um grande pai. É um personagem profundo e que exige bastante do ator.”

Lee chegou a pedir três vezes para deixar o papel. Antunes disse não. Quando abraçou de vez a tarefa, foi a fundo na obra de Nelson Rodrigues e também assistiu a várias sessões da TV Senado, já que Misael era um político. Mas ele ainda achava que faltava alguma coisa. “Eu já tinha entendido o caráter do Misael e sabia como chegar lá. Mas foi quando raspei a cabeça, deixei a barba crescer e usei uma barriga de pano que me senti como ele.”

Quem não o conhece se espanta com sua pouca idade, quando ele retira o figurino, ao final do espetáculo. Fora dos palcos, Lee é um típico jovem, que anda de calça jeans, tênis e camiseta. A grande diferença em relação aos seus personagens é uma das razões pelas quais ele passa despercebido pela cidade. Todos os dias, ele caminha de Campos Elísios, onde divide um apartamento com o amigo de CPT Eric Lenate, atravessa a Avenida São João e o Largo Santa Cecília e passa pela Santa Casa, até chegar no CPT. Um trajeto de 15 minutos. É quando ele aproveita para buscar nas pessoas a inspiração para personagens.

A forma como Lee vai para o teatro só muda em dias de espetáculo, quando usa a sua Honda Biz. Todas as sextas, sábados e domingos, ele está em cartaz no Teatro Anchieta para atuar em Senhora dos Afogados. Nas noites de terça, ele troca o aspecto ranzinza do velho Misael pelo andar largado e o jeito espertalhão do Malandro, em Foi Carmen, também de Antunes Filho.

“Ele é uma besta”, brinca o diretor. “Não, ele é um gênio. Era um perna-de-pau do coro (figuração) de A Pedra do Reino e hoje é maravilhoso. Só precisa envelhecer para ser completo.”

Lee deixou uma casa de classe média em Goiânia para estudar Artes Cênicas na Universidade de São Paulo (USP), em 2002. Os pais, que são separados, foram contra a idéia. O pai queria que ele seguisse carreira na área médica, e a mãe queria que ele cursasse Engenharia da Computação. Foram os dois, no entanto, que deram o primeiro traço artístico para o filho. O nome Lee Thalor é a junção de Lee Majors, ator da série O Homem de Seis Milhões de Dólares, com George Taylor, personagem de Charlton Heston em O Planeta dos Macacos.

A primeira vez de Lee nos palcos, há dez anos, não foi exatamente um sucesso. O teatro de Goiânia estava lotado para a estréia de Carmen, a Gitana dos Bálcãs. Amigos e familiares estavam presentes. Após um sinal de distração de um companheiro de cena, Lee também se desconcentrou. Veio um branco. Por alguns segundos, ele engasgou e, depois, ficou em silêncio. Deu tudo errado e, ao final do espetáculo, ele desabafou: “Não quero mais fazer isso”.

No entanto, ele seguiu no teatro e passou a gostar ainda mais de arte quando veio para São Paulo. A variedade de espetáculos e de filmes em cartaz e de exposições fazia ele sair do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), sua primeira casa na capital paulista, e enfrentar até uma hora e meia de ônibus para ficar mais perto do cenário cultural. Quando não conseguia companhia, ia sozinho e saía correndo depois do espetáculo, para não perder a última condução.

Tímido fora dos palcos, Lee prefere programas mais reservados. Gosta de ir ao cinema, teatro e sair para jantar com um ou dois amigos. Um de seus locais favoritos é a cantina D’Amico Piolim, na Rua Augusta, onde quase sempre pede a “pizza do ator”, com picadinhos de carne, batata palha, alface, mussarela e tomate seco. “Um prato recheado e que sustenta, perfeito para um ator de teatro que não tem muito dinheiro.”

Outro lugar onde gosta de levar conversas mais intimistas é no Terraço Itália, tomando cerveja e vendo São Paulo do alto. Em parques menos movimentados, como o da Previdência, ele prefere ir sozinho, para ficar caminhando lentamente e observando as pessoas. “Me encanta ver a reação das pessoas, analisar as contradições.”

Lee também não vê problemas em reconhecer que gosta da solidão. Aproveita esses momentos para ficar em casa, lendo os preferidos Gabriel García Márquez e Machado de Assis, vendo filmes e decorando textos. Sua mais recente distração é estudar tupi, para melhor interpretar seu próximo personagem, Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.

Embora tenha alcançado o reconhecimento na comédia, Lee pretende fazer tragédia, principalmente Shakespeare. Sabe também que quer atuar no cinema e que não quer televisão. Ele é constantemente chamado para comerciais, mas acha que não combina com o seu perfil. “Às vezes, balanço, por causa da grana. Mas, quando vejo depois na televisão, tenho certeza que minha escolha foi a certa. Prefiro os palcos.”

   


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