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A reviravolta de Chávez
Apenas cinco meses depois de afirmar em alto e bom som que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) não podem ser consideradas uma organização terrorista - como as classifica, por exemplo, a União Européia -, mas uma força beligerante cujo “projeto político bolivariano” ele respeita, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, trocou a treva pela luz. Com ar de quem acaba de descobrir a pólvora, anunciou que “a esta altura, na América Latina, um movimento guerrilheiro está fora de lugar”. Dirigindo-se diretamente ao novo chefe das Farc, Alfonso Cano, que substituiu o seu fundador Manuel Marulanda, o Tirofijo, morto em março último, Chávez disse ter chegado a hora da libertação de todos os reféns mantidos pelos farquistas - 40 políticos e 730 seqüestrados para a cobrança de resgate.
“Seria um gesto humanitário, sem nada em troca”, exortou, mais uma vez se oferecendo, naturalmente, para intermediar a sua libertação. Por fim, propôs a criação de um grupo de países, entre os quais Brasil e Argentina, que trabalharia com a Organização dos Estados Americanos (OEA) para negociar um acordo de paz entre a narcoguerrilha e o governo colombiano do presidente Álvaro Uribe. Mesmo levando em conta a propensão do caudilho de Caracas para o ziguezague - o pronunciamento de impacto de hoje invalidando o da véspera -, não houve quem não se surpreendesse com a sua súbita decisão de decretar a falência do empreendimento criminoso que já teria se decomposto de vez não fossem os petrodólares, as armas e o apoio logístico recebidos de seu benfeitor venezuelano.
Decerto, a pergunta que correu o Continente - “que foi que deu em Chávez?” - tem mais de uma resposta. Todas, de qualquer forma, sugerem que ele enfim teria se convencido de que o custo de ser patrono de uma organização repudiada pela esmagadora maioria dos colombianos e duramente golpeada pela política de confronto aberto do governo de Bogotá passou a superar enormemente os benefícios esperados da solidariedade bolivariana para as ambições chavistas. Com a desmoralização e a seqüência de baixas sofridas pelas Farc, os custos dispararam na mesma medida em que os benefícios se tornaram praticamente nulos. A esta altura, pode-se dizer, parafraseando o coronel, o respaldo ao movimento está fora de lugar - e não apenas porque os bandoleiros perderam as garras, dado o seu isolamento político e geográfico.
Chávez disse que “os guerrilheiros das Farc devem saber uma coisa: se converteram numa desculpa do império para ameaçar a todos nós; no dia em que se fizer a paz na Colômbia, acabará a desculpa do império”. Significa que ele deve saber da repercussão em diversos governos da descoberta de provas de seu envolvimento com as Farc - os documentos dos computadores do dirigente Raúl Reyes, morto no ataque a um acampamento guerrilheiro no Equador, em 1º de março. Chávez deve saber também que os Estados Unidos pós-Bush voltarão a ter autoridade para obter da comunidade internacional a sua condenação enquanto não se “fizer a paz na Colômbia”.
O desmoronamento das Farc, por outro lado, coincide com a reação das forças democráticas venezuelanas aos projetos totalitários do chavismo, sem falar que 70% da população - o que inclui, portanto, parcela de seus adeptos - repudia os terroristas. O ponto de inflexão, como se sabe, foi o referendo de 2 de dezembro passado, quando a maioria dos eleitores ergueu uma barreira ao que seria a transformação do país numa ditadura escancarada. Desde então, a popularidade de Chávez caiu mais de 20 pontos - está na casa de 40%. E são menos favoráveis do que gostaria os prognósticos sobre as eleições regionais de novembro. A oposição espera fazer entre 7 e 11 governadores, em 23. Hoje, tem 2. Atribuem-se a esse cenário alguns recuos táticos de Chávez. Em janeiro, anunciou anistia para os participantes do fracassado golpe de 2002 contra o seu governo. Em maio, adiou a reforma educacional que imporia a ideologia chavista nas salas de aula. E, na última sexta-feira, informou que mandou “reestudar” os artigos mais brutais da chamada Lei de Inteligência, que obrigaria os venezuelanos a espionar para o governo. Nisso se encaixa a sua reviravolta em relação às Farc.
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