| |
Crédito favorece inflação crescente
Não se pode negar a divergência entre a condução da política econômica pelo Ministério da Fazenda e a atuação do Banco Central (BC): enquanto este se empenha numa política monetária restritiva para conter o consumo, a equipe econômica se regozija com a expansão de crédito que favorece o consumo.
Isso fica claro quando se examina o relatório do BC relativo às operações de crédito nos quatro primeiros meses do ano. Em abril, num só mês, o volume de crédito teve crescimento médio de 2,8% - 2,7% para as pessoas físicas e 2,9% para as jurídicas -, no que se refere aos recursos livres, enquanto os recursos direcionados apresentaram crescimento médio de 1,7%, com destaque para o setor rural (2,1%), o habitacional destinado às pessoas físicas (1,9%) e o BNDES (1,4%). Com isso, o volume de crédito, em relação ao PIB, passou de 35,8% em março para 36,1%.
O volume das concessões do mês é certamente mais indicado para ver o rumo do crédito livre: acusou redução de 0,4% no caso das pessoas jurídicas, enquanto cresceu 3,3% para as pessoas físicas. A taxa anual média de juros foi de 26,3% no caso das empresas, com queda de 0,2%, e foi de 47,7% para as famílias, com redução de 0,2%.
Os juros para aquisição de veículos, cuja demanda está crescendo fortemente, ficaram em 29,8% ao ano, enquanto as empresas pagaram juros de 30,1% ao ano para capital de giro, o que representa uma anomalia, num país em que se pretende conter a demanda e favorecer o crescimento econômico.
Essa situação não deve mudar. Segundo o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, o volume de crédito até 13 de maio havia já acusado aumento de 2,6%, com juro médio de 37,9% e elevação de 0,5 ponto porcentual.
Não há dúvida que a expansão da demanda - que deve continuar, pelo que se depreende do levantamento da Fundação Getúlio Vargas sobre a intenção dos consumidores - tem originem no aumento de crédito destinado às pessoas físicas. A alta de preços não refreia a demanda, pois as famílias contam com as facilidades do crédito e prazo confortável para reembolsar suas dívidas.
O BC tinha de elevar sua taxa de juros para bloquear uma generalizada alta dos preços, mas a medida não tem grande efeito para conter os aumentos atuais. É de se perguntar se não seriam necessárias outras medidas para conter a expansão do crédito, que, numa retomada da inflação, pode se traduzir em maior inadimplência.
|