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Julio Mesquita
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Sexta-feira, 23 maio de 2008   edições anteriores
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  O jeito todo feminino de bater lata, couro, vidro...

Em apresentação no Auditório Ibirapuera, no domingo, a percussionista Simone Sou mostra parte de projeto autoral que resultará em CD até o fim deste ano

Francisco Quinteiro Pires

Este é o ano em que a percussionista Simone Sou resolveu dar a cara a tapa. Depois de acompanhar uma série de cantores, ela mergulhou num projeto autoral que vai resultar em CD - ainda sem nome - até o fim deste ano. Parte desse trabalho será apresentada em show no Auditório Ibirapuera neste domingo, às 18 horas, com convidados.

Para começar a nova fase, Simone mudou o nome: tirou a letra l de Soul: afinal, ela já coloca a alma na execução de uma música que é ritualística, criadora de climas e atmosferas no toque não só do couro dos tambores. Ela aproveita outras superfícies percussivas, como o vidro e a lata. 'Eu fui convocada a fazer minha auto-afirmação, a buscar uma expressão única, é a hora do 'sim one sou'.' Ela, que já gostava de ver o batuque em destaque, coisa que ocorria naturalmente em suas performances, abriu de vez os caminhos.

Antes de tirar o l de soul, Simone acompanhou Itamar Assumpção, Chico César, Virgínia Rosa, Elza Soares, Ceumar, Alzira Espíndola, Zélia Duncan, Zeca Baleiro, Yusa, entre outros. Tocou no grupo Funk Como Le Gusta e atualmente está nos Mutantes.

Simone explora uma senda que se tornou receptiva ao trabalho da percussionista mulher. 'Ainda existe o preconceito, mas hoje há um número maior de mulheres percussionistas.' A diferença é no jeito de tocar: aparecem a sutileza e a delicadeza. Simone diz ter aprendido esse detalhe com a violonista Badi Assad - uma das convidadas de domingo, além da cantora Rita Ribeiro -, cujo estilo explora também a percussão vocal. Agora será possível ouvir uma novidade: 'Você toca que nem mulher no lugar de você toca que nem homem', segundo ela. Embora goste da 'porrada' na percussão, Simone vai mostrar com mais nitidez a alma feminina.

Para o show, ela montou uma banda só de mulheres: Camila Lordy (teclado, acordeão e voz), Lelena Anhaia (baixo, cavaco, bandolim e voz), Jadna Zimmermann (percussão, flauta e voz) e Marina Uehara (percussão). Com Jadna, Alfredo Bello e Robertinho Silva, Simone fez o CD de percussão experimental Batucajé, de 2006. Isso foi logo depois do Projeto Cru, título homônimo do grupo formado por Simone, Alfredo e Marcelo Monteiro que também estará no Auditório Ibirapuera. É possível ouvir os dois trabalhos em www.myspace.com/projetocru e www.myspace.com/batucaje.

Um dos grandes percussionistas brasileiros, tendo atuado com Moacir Santos, Wayne Shorter, entre outros, Robertinho Silva está entre os convidados. Tocando campânulas, ele vai dialogar com o ritmo produzido por Simone Sou a partir de um fogão. 'Eu gosto da maluquice do Robertinho, com quem aprendi também a tocar frigideira, bossa nova e todo tipo de samba', ela diz.

Simone é daquelas que querem sempre fazer algo diferente. Mas sem esquecer a tradição, com a qual mantém um contato criativo intenso. Ela acordou para as cadências africanas em viagem para a Inglaterra, em 1990, onde conheceu o djembê, um instrumento africano. Até então era uma baterista envolvida com o hard rock, quando aprendeu o bê-á-bá. 'E aí minha cabeça se abriu para todo tipo de ritmo.' Ela diz que o percussionista brasileiro precisa da mistura, regra inscrita no DNA percussivo dela: é inevitável flertar com as linguagens de outros países. No show, a África será representada pela cantora e dançarina Fanta Konatê, de Guiné.

Depois do show no domingo, Simone viaja com Yusa, uma baixista e cantora cubana, para a Inglaterra, onde as duas farão cinco shows. Elas se haviam apresentado juntas em novembro do ano passado no Centro Cultural São Paulo. No começo do mês que vem, ela vai para a Holanda, onde toca com ETHEL, um quarteto de cordas.

Na volta ao Brasil, vai se desdobrar entre a gravação do novo CD dos Mutantes, onde cria uma 'percussão psicodélica', e o seu projeto autoral. Ela diz aproveitar o bom momento da percussão: 'Na composição se dá maior atenção à célula rítmica e ao timbre.' Com Simone Sou, a percussão deixa de ser simples marcação para se tornar o tempero da música.


Serviço
Simone Sou. Auditório Ibirapuera (800 lugs.). Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 2 do Parque do Ibirapuera, 3629-1075. Domingo, 18 h. R$ 30

Arquivo Sonoro

VOU TIRAR VOCÊ DO DICIONÁRIO (Alice Ruiz/Itamar Assumpção) -
álbum Bicho de Sete Cabeças, vol. 1, de Itamar Assumpção e As Orquídeas (1993)

BENAZIR (Chico César) - álbum Cuscuz Clã, de Chico César (1996)

A PONTE (Lenine/Lula Queiroga) - álbum Batuque, de Virginia Rosa (1997)

GALOPE RASANTE (Zé Ramalho) - álbum Dindinha, de Ceumar (1999)

FILHOS DA PRECISÃO (Erasmo Dibel) - álbum Pérolas aos Povos, de Rita Ribeiro (1999)

EU QUERIA SER CÁSSIA ELLER (Péricles Cavalcanti) - álbum Baião Metafísico, de Péricles Cavalcanti (1999)

FLORES (Fred Martins/Marcelo Diniz) - álbum Sortimento, de Zélia Duncan (2001)

O HACKER (Zeca Baleiro) - álbum Pet Shop Mundo Cão, de Zeca Baleiro (2002)

COMPUTADORES FAZEM ARTE (Fred 04) - álbum Vivo Feliz, de Elza Soares (2003)

O OURO E A MADEIRA (Ederaldo Gentil) - álbum Terra em Trânsito, de Moisés Santana (2005)

   


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