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Enigmas do manuscrito encontrado na Bósnia
É o que narra As Memórias do Livro, fascinante suspense de Geraldine Brooks
Ubiratan Brasil
O autor da carta se apresentava como professor - daí sua letra caprichada. Dizia que era instrutor da língua hebraica no maldar de Sarajevo. O tradutor acrescentara uma nota explicando que a palavra era o nome das escolas elementares dirigidas por judeus sefardins (...) Recostei-me na cadeira. Itália. A inscrição de Vistorini situava a Hagadá em Veneza em 1609. Será que o avô Kohen estivera em Veneza? A comunidade judaica lá seria muito maior e mais próspera que na Bósnia, e a herança musical da cidade era rica. Teria ele, talvez, adquirido o livro lá?
Os limites entre ficção e realidade são tênues, na literatura da australiana Geraldine Brooks. Repórter do The Wall Street Journal, ela cobriu conflitos no Oriente Médio, África e Bálcãs, regiões que lhe forneceram combustível suficiente para estrear na literatura em 1994, com Parts of Desire, inspirado em suas experiências entre mulheres muçulmanas.
Sucesso imediato, o livro logo foi traduzido para 17 línguas. Aquele, porém, era essencialmente um relato bem embasado, admiravelmente escrito e que constrói um surpreendente mosaico sobre as iraquianas. Geraldine confiou mais em suas habilidades jornalísticas que de romancista. A fronteira entre realidade e ficção, porém, logo foi ultrapassada e, depois de alguns romances (entre eles, March, publicado em 2005, que lhe reservou o Prêmio Pulitzer de ficção), ela finalmente chegou a As Memórias do Livro, lançado em janeiro e rapidamente alçado à lista dos mais vendidos nos Estados Unidos. Com tradução de Marcos Malvezzi Leal, o livro chega agora ao Brasil sob a chancela da Ediouro (384 páginas, R$ 39,90) com a mesma promessa de se tornar um best-seller.
Trata-se da história de uma conservadora de livros, Hanna Heath, que é escolhida pelas Nações Unidas para estudar e reparar um documento raro: a Hagadá de Sarajevo, manuscrito judeu medieval que desapareceu em 1992, durante a guerra civil da Bósnia, e que finalmente fora reencontrado.
A Hagadá (que significa 'narrativa') é uma obra única em sua essência, pois reconta a história do êxodo e relata a seqüência de rituais que devem ser feitos na noite do Pessach, a Páscoa dos judeus. O que diferencia o exemplar encontrado em Sarajevo são várias ilustrações, que correspondem a uma séria violação das leis religiosas, que não permitem nenhum tipo de desenho sobre esse assunto. Bastava esse detalhe para tornar a Hagadá um documento raro e também para alimentar um enigma: por que e por quem fora feita?
Tal mistério foi um dos incentivos encontrados por Geraldine Brooks. 'É tentador recriar o passado quando não se dispõe de muitos dados', disse ela ao Estado, em entrevista realizada por e-mail. 'Meu interesse foi contar a história de como surgiu esse manuscrito e, principalmente, de como ele foi protegido por povos diversos ao longo de 600 anos, um período turbulento que inclui tanto a Inquisição espanhola como a ascensão do nazismo, ou seja, séculos de anti-semitismo na Europa.'
É esse motivo que justifica a presença da conservadora de livros Hanna Heath - movida pela paixão científica mas, ao mesmo tempo, se controlando para não se exceder, ela desponta como o ponto comum a todas as passagens históricas da trama, uma vez que detém, nas mãos, o famoso documento.
Embora trabalhando com ficção, Geraldine conta que arregaçou as mangas e trabalhou como repórter para descobrir detalhes saborosos de épocas passadas, como o sabor do vinho, o cheiro do sal e a cor dos cabelos das mulheres. A pesquisa de campo incluiu ainda traçar o perfil da sociedade bósnia atual, uma vez que Sarajevo é o centro da história. 'Descobri neles um certo sarcasmo que convive perfeitamente com um toque de tristeza. Isso confere aos bósnios uma forma particular de encarar a vida.'
As mesmas perguntas que atormentavam Geraldine foram transferidas para Hanna que, ao desembarcar em Sarajevo, traz a bagagem abarrotada de questões: o que significavam as anotações do século 17 em suas páginas? Como conseguira escapar da perseguição nazista? À medida que se aproxima o momento de encontrar a relíquia, Hanna é tomada por preocupações profissionais: qual seria o estado do livro? Teria condições necessárias para executar algum tipo de recuperação se fosse necessário? Como, afinal, fora salvo?
Como não poderia ser diferente, As Memórias do Livro conta histórias paralelas, ou seja, da mesma forma que apresenta pistas para explicar os motivos que teriam feito um bibliotecário muçulmano a se arriscar para manter a Hagadá em segurança, revela também a luta de Hanna para solucionar seus próprios problemas, especialmente os atritos que mantém com a mãe, uma neurocirurgiã respeitada que não admite a decisão da filha em trocar uma respeitada carreira médica como a dela por uma paixão pelos livros.
Aliás, o ponto fraco do livro está justamente nesse desvio de rota, especialmente quando Hanna se envolve emocionalmente com o bibliotecário muçulmano a fim de estabilizar sua vida. Ao leitor interessa mais o mistério a ser desvendado pela conservadora de livros, que busca pistas em minúsculas descobertas como uma mancha de vinho ou uma asa de inseto.
Geraldine conta que também conversou com cientistas e especialistas em manipulação de documentos raros para reproduzir corretamente os passos de Hanna. 'Mas, é evidente que tomei algumas pequenas liberdades, que não comprometem a veracidade da metodologia mas acrescentam um molho à narrativa.'
De fato, a viagem pelo tempo que o livro propõe ao leitor é seu maior trunfo, combinando suspense e erudição. A disposição em recuperar o passado, aliás, é um dos incentivos que Geraldine encontra para escrever ficção. 'Esse sentimento cresceu quando comecei a fazer pesquisas sobre a 2º Guerra Mundial para uma série de artigos', comenta. 'Percebi, ali, uma quantidade imensa de histórias pessoais que tiveram pouco destaque e que certamente se perderiam se não fossem recuperadas em tempo.'
Fatos reais, aliás, sempre fascinaram a escritora que, em March, ambienta sua trama durante a Guerra Civil americana. O hábito prossegue no próximo projeto, no qual Geraldine pretende explorar os habitantes das ilhas de Martha's Vineyard, que lá moraram em 1666. 'Como sempre, há pouca informação, o que me atrai.'
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