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Julio Mesquita
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Sábado, 17 maio de 2008   edições anteriores
CADERNO 2
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  Coração satânico na festa da Flip

A ira explosiva do escritor colombiano Fernando Vallejo será um dos destaques da feira, na qual vai revelar sua crítica raivosa contra a Igreja

Ubiratan Brasil

O escritor colombiano Fernando Vallejo é descrito como um homem inofensivo, olhar tranqüilo, voz musicada, gestos suaves. Basta abrir qualquer página de seus livros ou questioná-lo sobre determinados assuntos, porém, que se descobre uma prosa feroz, raivosa, corrosiva. Aos 65 anos, Vallejo arregala os olhos de quem o lê ou escuta ao comentar sobre a Igreja Católica ('Inquisidora, torturadora, falsificadora, homofóbica...' e outros adjetivos do gênero), o papa ('Besta vaticana'), a Colômbia ('Lá, até os mortos têm cédula de identidade e votam') e até de colegas famosos ('García Márquez é uma cortesã de Fidel Castro').

Um dos principais convidados da próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que ocorre em julho, Vallejo vai comentar O Despenhadeiro, que a editora Alfaguara já lança nesta segunda-feira, com competente tradução de Bernardo Ajzenberg (176 páginas, R$ 28,90). Como boa parte de sua obra, trata-se de um relato autobiográfico, sem disfarces ao retratar um ódio escancarado pela sociedade, especialmente a colombiana.

Nascido em Medellín, Vallejo conheceu a degradação da cidade pelo tráfico de drogas. É justamente essa cidade devastada pelos entorpecentes e pela juventude amoral que o escritor retratou em A Virgem dos Sicários, seu primeiro romance lançado no Brasil, povoado de pobres, drogados, mendigos impertinentes e grávidas que só pensam em parir e rezar.

Em O Despenhadeiro, a acidez e o sarcasmo continuam na história do homem que volta à casa onde viveu, na Colômbia, local marcado pelo adoecimento das pessoas que realmente lhe interessam, como o pai, um político, e o irmão Dario, com quem compartilhou intensas experiências na juventude. A ferocidade de Vallejo aparece na forma como o narrador descreve as outras pessoas da família, como a mãe ('A Louca') e o irmão caçula ('Aborto da Natureza'). Indiferente aos críticos que apontam sua iconoclastia como oportunista, Vallejo, que vive no México desde 1971, tal qual um pugilista, não abaixa a guarda.

   


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