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  SP vira a capital brasileira da fertilização in vitro

Mulheres vêm de todo o País, ficam oito dias e saem da cidade ‘mães’, após gastarem no mínimo R$ 15 mil

Sérgio Duran

São Paulo tornou-se uma espécie de santuário natural para o qual migram mulheres de todo o País e até do exterior com problemas para engravidar, na busca das mais modernas clínicas de fertilização in vitro. Elas chegam por aqui, ficam em média oito dias e saem “mães”.

O tempo é suficiente para receberem altas doses de hormônio e estimularem a ovulação, retirarem os óvulos, fecundá-los e, depois, introduzirem pelo menos três no útero. Para uma única tentativa, deixam cerca de R$ 15 mil na capital, entre despesas médicas e de hospedagem. Deixam também histórias de sacrifícios em nome da maternidade. Muitas desfrutam da sensação de ter um embrião no útero por poucos dias e não conseguem segurar a gravidez.

A cabeleireira Patrícia Alves, de 31 anos, de Florianópolis, investiu R$ 50 mil e fechou o que se chama de “pacote de tentativas” para engravidar em uma clínica de São Paulo. “Resolvemos apostar em um dos profissionais mais conceituados do setor”, conta.

A primeira tentativa não vingou. “Foi aquela frustração”, recorda-se. Em seguida, dois embriões vingaram. Duas meninas. A família ficou exultante. Sara e Julia eram os nomes escolhidos. “Mas, com seis meses de gravidez, a bolsa d’água de uma delas estourou. Tentei segurar por mais uns dias, mas não teve jeito: elas nasceram prematuras. A Sara pesava 755 gramas e a Julia, 820 gramas.”

Três meses se passaram e as duas meninas lutaram bravamente na UTI. Sara, a mais debilitada ao nascer, aquela que ficou dias na bolsa d’água já seca, conseguiu recuperar-se. Júlia, porém, não ganhava peso, pegou uma infecção e morreu. Hoje, Patrícia embala a filha de 9 meses.

Segundo o diretor do escritório brasileiro da Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida (Rede Lara), Assumpto Iaconelli, o Brasil tem cerca de cem clínicas de fertilização, quase a metade na Região Metropolitana de São Paulo, com algumas localizadas em cidades do interior do Estado. “Recebemos mulheres de outros países, principalmente africanas”, afirma Iaconelli.

São Paulo é atraente para estrangeiras por razões econômicas. Para um leigo, R$ 15 mil investidos em uma única tentativa pode parecer caro, mas em países como os Estados Unidos custa o triplo. “Tudo é feito de forma que a mulher fique o menor tempo possível na cidade”, explica o especialista.

Roger Abdelmassih é um desses profissionais da fertilização que mais atraem candidatas à maternidade. Segundo ele, entre 60% e 65% das pacientes que atende por mês são de fora da cidade de São Paulo. Abdelmassih faz 150 fertilizações (ou “ciclos”, como ele fala) por mês. “Não precisa ficar mais do que um dia após a fertilização. Pode pegar avião, tudo”, diz.

Maternidade é estatística para esses profissionais. Em pelo menos metade dos casos, a fertilização pode não dar certo, se feita em São Paulo ou no Chuí. A empresária brasiliense Milena Galdino Pitela, de 32 anos, tenta engravidar há sete anos. Fará, em setembro, numa clínica da cidade, a quarta fertilização. Apesar de seu problema ser considerado simples, Milena não engravida. “Histórias como a minha, ninguém conta.”

Ela começou a via-crúcis em Brasília, onde tentou um ciclo. Milena não tem dificuldades - e sim seu marido. Apesar de saudáveis, os espermatozóides dele têm pouca mobilidade, como se fossem preguiçosos. Na primeira tentativa, os hormônios causaram a chamada síndrome de hiperestimulação ovariana, fazendo seu ovário se encher de água.

Após o trauma, vieram as tentativas em São Paulo. Milena diz que já gastou R$ 110 mil em clínicas. Durante a estadia na capital paulista, conheceu mulheres que já tentaram 12 vezes, algumas até avós, outras que enxergam no filho a solução para os problemas conjugais. “Há casais que fazem disso a razão do relacionamento e, quando não conseguem, acabam se separando. Eu não quero isso”, diz.

   


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