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CADERNO 2
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  Mergulho na obra de Gertrude Stein

Em Duas Vidas, Janet Malcolm desvenda esse mito modernista a partir de sua relação com a escritora Alice B. Toklas

Ubiratan Brasil

A americana Janet Malcolm, jornalista da revista The New Yorker, desconfia da realidade. Em Lendo Chekhov (Ediouro), por exemplo, no qual é autora de um consistente prefácio que antecede 37 contos do escritor russo traduzidos por Tatiana Belinky, ela conta que visitou cidades e casas onde Chekhov viveu, além de analisar criteriosamente sua correspondência. A partir de pesquisas, Janet descobriu a sombra da mortalidade que paira sobre os textos de Chekhov e, por extensão, o aguçado sentido daquilo que é realmente importante na vida.

O mesmo aconteceu com Duas Vidas, sobre a tumultuada vida da dupla Gertrude Stein e Alice B. Toklas, que a editora Paz e Terra acaba de lançar, em eficiente tradução de Patrícia de Queiroz Carvalho Zimbres (218 páginas, R$ 47). A partir da relação íntima entre as duas autoras, Janet aproveita para questionar o papel da biografia e da verdade biográfica com a franqueza e a clareza habituais.

Gertrude Stein (1874-1946) é considerada a matriarca do modernismo, deixando obras viscerais como livro The Making of Americans, sua obra-prima, apesar de não oferecer uma experiência muito palatável: são 925 páginas, compostas em corpo bem pequeno, com 40 linhas por página. Janet observa que poucos se aventuraram a lê-lo, até mesmo críticos do primeiro time como Edmund Wilson - em O Castelo de Axel, ele confessa não tê-lo lido inteiro e nem sabe se isso é possível.

E justifica: 'Diante de sentenças tão regularmente rítmicas, tão desnecessariamente prolixas, tantas vezes repetidas e que tantas vezes terminam em particípios, não tarda para que o leitor se veja num estado não de acompanhar o lento vir-a-ser da vida, mas de simplesmente adormecer.'

Para enfrentar o desafio, Janet conta que literalmente partiu o livro em seis pedaços, destrinchados com a paciência de um monge. Com isso, conta, descobriu uma certa unidade em um texto tão nebuloso. 'Talvez nenhum outro livro torne mais claro para o leitor o fato de ter sido escrito ao longo do tempo, e que, como a vida, ele é inconsistente e mutável.

Mesmo com tão poucos leitores, Gertrude Stein permanece como precursora do modernismo e mesmo do pós-modernismo, além de ser um ícone feminista. Muito por conta de sua relação de 38 anos com Alice B. Toklas, que não foi apenas uma amante, mas também editora, secretária, governanta e cozinheira. Juntas, elas viveram uma relação ao mesmo tempo sensual e tempestuosa, especialmente no período em que viveram na Europa, onde sua casa era visitada por artistas como Picasso, Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Matisse, só para lembrar de alguns.

Para questionar o papel da biografia, Janet Malcolm parte de um curioso livro de Gertrude, A Autobiografia de Alice B. Toklas. Sim, colocando-se na voz da companheira, ela rememora fatos e traça opiniões sobre si mesma, em um interessante jogo sobre a importância do narrador. Basta acompanhar um dos primeiros trechos do livro, no qual Gertrude faz Alice comentar sobre a primeira vez em que as duas se encontraram: 'Devo dizer que apenas três vezes em minha vida conheci um gênio. E os três gênios sobre os quais desejo falar são Gertrude Stein, Pablo Picasso e Alfred Whitehead.'

Segundo Janet, com isso, tal livro dispensa por completo a falsa humildade que o auto-biógrafo convencional tem, a todo momento, de se esforçar para manter. Autora de livros essenciais como O Jornalista e o Assassino (Companhia das Letras) e Nos Arquivos de Freud (Record), Janet respondeu, por e-mail, às seguintes perguntas do Estado.

Por que este livro é um relato da sua própria gênese?

Em diversos de meus livros, costumo usar um personagem, chamado 'Eu', para narrar o texto. Em Duas Vidas e em outros livros, a história sobre como 'Eu' tornou-se interessado na narrativa torna-se parte da história.

Quão problemático foi analisar a obra de Gertrude a partir de The Making of Americans?


Como digo no livro, precisei tomar uma faca de cozinha e fatiar o livro em seis pedaços antes de começar a leitura. Mas, uma vez decidida a embarcar nessa jornada, tive condições de manter a rota. Eu carregava o pedaço que lia no momento para todos os lugares e, em cerca de um mês, terminei.

Por que você ficou obcecada com a atmosfera emocional, as intrincadas circunstâncias psicológicas, condições em que a biografia foi gerada?

Biografia é um gênero problemático, viciado. Escrevi em algum lugar - estou tentando me lembrar, mas não consigo - que nunca há dúvidas sobre os 'fatos' na ficção. Eles são o que os escritores dizem ser. Há apenas uma versão. Não há alternativa. Na não-ficção, que inclui biografia, há diversas versões possíveis sobre o que 'realmente' aconteceu.

Embora se alinhe aos estudiosos da obra de Gertrude Stein, você não se sente como uma, buscando manter uma distância estratégica do grupo. Por quê?

Sim, certamente não sou uma especialista em Stein. Meu livro não é um trabalho de estudioso. É uma combinação de jornalismo, biografia e crítica literária, ao mesmo tempo que reflete sobre o problema da biografia.

   


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