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Identidade nada secreta
O livro Um Nome a Zelar reúne diversas assinaturas criadas por Millôr Fernandes, auto-retratos em forma de nome que servem tanto de espelho como de disfarce
Ubiratan Brasil
Algumas são coloridas, outras em preto-e-branco, há também em 3-D; não faltam também as inspiradas em Miró e até mesmo em linguagens de sinais para surdo-mudo - ao longo de sua carreira, Millôr Fernandes transformou em hábito algo que segue na contramão das artes visuais: jamais repetir a mesma forma de assinar seus trabalhos. 'Nos seus auto-retratos em forma de nome, Millôr não se espelha nem se disfarça nem se amputa. Ele se propaga e se reitera. Seus nomes não têm rosto definido. Eles escancaram um nome e reinventam um homem', escreve Mario Sergio Conti no prefácio de Um Nome a Zelar, livro que sai pela Desiderata, em seu primeiro lançamento como um selo da Editora Agir (112 páginas, R$ 50), e que reúne diversas assinaturas criadas por Millôr, exibindo não apenas seu ecletismo como também um estilo único nas artes gráficas.
No caso de Millôr, a importância e a preocupação com o nome trazem particularidades. Afinal, foi aos 16 anos que o rapaz que até então acreditava se chamar Milton observou sua certidão de nascimento e descobriu que um escrivão de má caligrafia havia transformado o 'T' em um 'L' e que o o traço do corte do 'T' mais parecia um acento circunflexo. Ou seja, 'ele abandonou o nome comum, um prosaico Milton, e se tornou Millôr, primeiro e único', ainda segundo Conti, que não acredita que sua obra não seria única se tivesse mantido o nome original. 'Um Milton encontra, no máximo, um paraíso perdido', sustenta. 'Já Millôr fez uma obra paradisíaca num país perdido, inventou sua felicidade numa Ipanema cuja identidade ele ajudou a definir, na longínqua metade do século passado.'
Ao longo de mais de 60 anos de carreira, Millôr não apenas se tornou um dos mais finos pensadores brasileiros com sua prosa, como também demarcou um espaço próprio na história das artes gráficas. Foram talentos desenvolvidos em paralelo - já em 1956 dividiu a primeira colocação na Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires com o desenhista norte-americano Saul Steinberg, e em 1957 ganhou uma exposição individual de suas obras no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
Steinberg, aliás, consagrado por suas ilustrações para a The New Yorker, é apontado por Millôr como sua principal influência. 'O maior artista do século 20', afirma ele na conversa que manteve, por e-mail, com o Estado (veja ao lado). Inicialmente encantado por pintores renascentistas, depois passando por Degas, Van Gogh e Paul Klee, e até chegar aos humoristas modernos, Millôr desenvolveu uma técnica que busca essencialmente a comunicação visual.
Foi assim desde o início, quando, aos 16 anos, utilizava a informação cotidiana como munição para seção Post-Scriptum-Poste Escrito, que mantinha na revista carioca A Cigarra e, em seguida, em O Cruzeiro, na qual utilizou pseudônimos (Emmanuel Vão Gôgo é o mais conhecido deles). Passando por Pif-Paf, O Pasquim e até chegar às atuais revistas semanais, Millôr aprimorou um estilo, reescrevendo, redesenhando e remontando seu nome milhares de vezes, como comprova Um Nome a Zelar. 'Todos são Millôr: no traço propositalmente imperfeito ou ingênuo, na delicada mescla de cores, na justaposição de elementos, nas alusões líricas e, sobretudo, na graça', conclui Conti.
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