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Julio Mesquita
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Sábado, 3 maio de 2008   edições anteriores
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  Brasil e seus vizinhos - ¿parcero o gatón?

Alexandre Barros

Eventos menores andam causando excitação na América do Sul: escaramuças entre Colômbia e Equador, votação de autonomias departamentais na Bolívia, oposição vencendo eleições no Paraguai depois de 61 anos e os preços do petróleo sustentando as bravatas do presidente da Venezuela.

O Brasil não está envolvido em nenhum desses eventos por vontade própria, mas, por estar na mesma região, participa deles. É preciso olhá-los e tratá-los de maneira serena.

Nestas horas, os primeiros que aparecem, mais loquazes, são os que têm “sede de sangue”. Demandam medidas radicais, com freqüência querem um endurecimento por parte do Brasil ou que o Brasil “ensine a eles uma lição”. A retórica varia, mas a essência é a mesma: a honra do Brasil.

Preferências pessoais à parte, vamos falar um pouco sobre como relações internacionais devem ocorrer de forma adequada e, sobretudo, mais barata, a médio e longo prazos, que são os que contam nas relações entre países.

No caso da América do Sul, em primeiro lugar, o Brasil é vizinho de todos e só não tem fronteira com o Chile e com o Equador.

Em segundo, não há a possibilidade de ninguém mudar de endereço, ou seja, nenhum país vai mudar de lugar, tampouco o gás vai astuta e misteriosamente migrar do subsolo da Bolívia para outro país, nem Itaipu é uma usina desmontável e transportável para outro rio.

Em terceiro, mesmo que não sejam os maiores mercados para produtos brasileiros, todos os países da América do Sul são grandes, naturais e importantes parceiros. Teremos de continuar a comerciar com eles e isso é bom para todos. Sem boas relações não conseguiremos fazer isso.

Quarto, quem compra e vende não deve brigar, porque se brigar perde negócios. Como gostava de dizer o embaixador Maurício Nabuco, os bons negócios são aqueles em que todos saem ganhando. E nem sempre alguns dólares a mais hoje são o maior ganho.

Quinto, estudamos na escola que o Tratado de Tordesilhas era numa linha imaginária que ia de Belém do Pará a Curitiba, no Paraná. Essa linha delimitava a área que pertenceria a Portugal de terras que viessem a ser descobertas. O Brasil de hoje tem, em termos redondos, 200% mais território do que o que foi concedido a Portugal pelo papa Alexandre VI, nascido espanhol (e para quem gosta de detalhes históricos picantes, pai de Lucrécia Bórgia). Desta parte da História preferimos que nossos vizinhos não se lembrem, pelo menos não com muita freqüência ou intensidade.

Sexto, o Brasil é o país mais interessado na manutenção do status quo territorial e de relacionamento com seus vizinhos. Qualquer mudança, seja para mais ou para menos, seria politicamente desvantajosa. Old sins have long shadows. Qualquer desequilíbrio que ocorra colocará o Brasil numa situação complicada. Envolver o Brasil em brincadeiras de gato e rato com seus vizinhos está descontado. E nem sempre é bom ficar lembrando aos vizinhos quién es el gato, porque todos saben quién es el gato. Lembrar-lhes isso só causa desconforto.

Sétimo, qualquer desequilíbrio ou instabilidade internacional na América do Sul convidará maior interferência de fora da região (leia-se: EUA), o que absolutamente não interessa ao Brasil.

E, oitavo, a pior coisa que países (ou pessoas) que compartilham interesses podem fazer é colocar o vizinho ou parceiro contra a parede ou sem alternativa. Fazer isso, em geral, degenera em conflito e quem sempre despenca são os lucros, de todos.

Essa lista de fatores deixa claro que a “sede de sangue” que acomete alguns de nossos compatriotas, aí incluídos diplomatas aposentados, não tem nenhum sentido. Parece que a aposentadoria os transformou de pombos burocráticos em falcões da TV, fazendo-os esquecer que a tarefa dos diplomatas é conseguir bons acordos, e não estimular conflitos.

As pessoas ficam confusas com declarações aparentemente contraditórias de autoridades, mas não nos devemos preocupar com isso. As cacofonias são apenas aparentes, para ouvidos pouco treinados. E são feitas com suficiente cuidado, para que todos possam sempre retroceder ou avançar um pouco, sin perder la cara.

A regra básica é: ninguém deixa o outro sem alternativa. E aqui aparecem dois conceitos muitos importantes: política de governo e política de Estado. Os adeptos da política de governo são os que, em geral, “querem sangue”. Os da política de Estado sabem que, como ninguém vai mudar de endereço e vamos continuar a ser vizinhos, quer queiramos, quer não, melhor é que tenhamos uma boa relação.

Estes últimos cuidam, portanto, de uma retórica elaborada e cuidadosa, que pode parecer contraditória ou ambígua - e é - deliberadamente, exatamente para não criar uma situação em que o parceiro ou querelante fique sem saída.

Há alguns anos, um brigadeiro da Força Aérea Brasileira que foi depor no Senado, pouco acostumado a que o contestassem, saiu do depoimento e, mesmo ele, disse que era uma pena que estivesse naquele ambiente e não pudesse aplicar um corretivo físico naquele cidadão (o cidadão era o senador Antonio Carlos Magalhães).

Ainda bem. O Brasil está-se comportando bem. Felizmente, os que, como o brigadeiro, gostariam de sempre falar em dar uma lição em fulano, puxar as orelhas de beltrano ou aplicar um corretivo físico em mengano são minoria.

Os das políticas de Estado partem do princípio de que Chávez passa, Evo passa, Lula passa, Correa passa, Lugo passa, Cristina passa. Pessoas passam. Países ficam.

O Brasil não pode evitar o fato de ser o maior país da América do Sul. Isso tem custos e benefícios. Parece que já nos acostumamos com os benefícios. Falta agora nos acostumarmos com os custos.

O resto são trocados.

Alexandre Barros, cientista político, é pró-reitor do Centro Universitário Unieuro (Brasília) E-mail: alex@eaw.com.br

   


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