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Aventura pela luz, cor e movimento
Célebre galerista francesa, Denise René reúne em mostra em São Paulo obras significativas de artistas cinéticos de sua coleção
Maria Hirszman
Os movimentos artísticos são muito mais do que uma eclosão espontânea de criatividade. Para que uma série de trabalhos isolados passe a fazer um novo e mais potente sentido concorrem elementos variados, da criação à recepção do público. Tanto que não raro encontramos nos bastidores das escolas marchands e críticos que ajudam a viabilizar e estimular um determinado caminho. Um dos casos mais patentes desse encontro de interesses é a relação entre a célebre galerista francesa Denise René e o cinetismo, como ficou conhecida a criação visual que explora a potência transformadora do movimento e que marcou de forma significativa a arte a partir da segunda metade do século 20.
Em sua primeira visita ao Brasil, para inaugurar a mostra Luz, Cor e Movimento, no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, Denise definiu seu percurso ao lado dos cinéticos como 'uma grande aventura', trilhada ao lado de figuras essenciais do movimento. O primeiro desses parceiros foi Victor Vasarély (1906-1997), que a ajudou a fundar sua galeria nos últimos momentos da 2ª Guerra e lá realizou sua primeira individual. Essa história tem como ponto de partida a recusa da representação, a defesa da abstração e de uma arte que se transforma pela animação de seus elementos, explica a galerista, que gosta de se definir como uma 'descobridora de talentos', recusando o termo 'marchande'. 'Meu papel foi ter os olhos abertos e saber onde estava a qualidade.'
A mostra paulistana - espécie de homenagem do Gabinete de Arte, que segue uma linha de pensamento semelhante à congênere francesa -, traz poucos e significativos trabalhos de alguns dos mais destacados artistas cinéticos que ela representou num amplo período de tempo e que pertencem à sua coleção. Dentre eles se destacam relevo dos anos 60 do venezuelano Soto e um trabalho interativo do israelense Yaacov Agam de 1953/54, o mais antigo da mostra.
O único brasileiro na exposição é Waltercio Caldas, que Denise passou a representar recentemente. No passado, outros brasileiros trabalharam com a célebre galeria da Rive Gauche, como Cícero Dias, Sergio Camargo e Lygia Clark. Afinal, o País tem tradição importante no campo da arte construtiva. Pensando em termos de América Latina, é inquestionável o papel preponderante do continente para a definição e continuidade desse projeto. Como diz Denise, 'os latinos fizeram uma escolha forte na direção da abstração antilírica'.
Atualmente com dois espaços expositivos (Boulevard Saint Germain e Marais), Denise considera difícil garimpar novos trabalhos. 'Vivemos um momento muito rico, há sempre artistas a descobrir, mas parece que há menos obras insólitas', pondera ela, sem abrir mão dos objetivos que norteiam seu trabalho iniciado há quase 60 anos e celebrando o fato de que o cinetismo conta hoje com grande interesse do público. Ao ser informada de que no Brasil parece estar havendo uma redescoberta da arte cinética - como foi possível constatar, por exemplo, na mostra realizada recentemente no Instituto Tomie Ohtake que contou com obras históricas do acervo de Denise René -, ela conclui que a melhor maneira de atrair o público é mostrar a obra.
Serviço
Luz, Cor e Movimento. Gabinete de Arte Raquel Arnaud. Rua Artur Azevedo, 401, telefone 3083-6322. 2.ª a 6.ª, das 10 h às 19 h; sáb., das 12 h às 16 h. Grátis. Até 10/5
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