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Julio Mesquita
(1891-1927)
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Sábado, 5 abril de 2008   edições anteriores
CADERNO 2
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  Um dedo de prosa com Bandeira

Aclamado como poeta, ele comprova, em Crônicas Inéditas I, que sabia discorrer sobre o mundo das artes sem parecer professoral

Ubiratan Brasil

Em uma carta a Mário de Andrade, seu principal interlocutor, o poeta Manuel Bandeira dizia desconfiar da própria prosa. Era 1930 e Bandeira temia cometer 'bestidades, bobagens, lugares-comuns' em seus artigos, satisfazendo-se mais com a poesia. O tempo tratou de reverter a expectativa negativa do poeta, como comprova o volume Crônicas Inéditas I, que a Cosac Naify lança nesta semana (440 páginas, R$ 65).

São 113 textos inéditos em livro, que pertencem ao mesmo filão criativo de Crônicas da Província do Brasil, lançado pela mesma editora em 2006, também com organização de Júlio Castañon Guimarães, e que traz um conjunto de artigos que compõem um retrato muito agudo da modernização da sociedade brasileira da primeira metade do século 20. Se este foi editado originalmente em 1937, Crônicas Inéditas reúne as observações de Bandeira publicadas entre abril de 1920 e agosto de 1931, em 13 diferentes publicações.

Trata-se de um vasto painel em que o poeta versa sobre assuntos diversos, como teatro, cinema, pintura, música erudita, arquitetura, poesia e o mundo das artes. 'Em todos esses textos há sempre uma parte de ironia, ou mesmo de auto-ironia, sendo importante detectar isso para perceber seu processo de acompanhamento da produção cultural da época', observa Guimarães, no posfácio, contrariando os temores do Bandeira-cronista. 'Seu trabalho na imprensa transita entre a crítica e a crônica, o que lhe permite e o leva a referir-se às especificidades e generalidades dessas atividades em diversas ocasiões.'

Apesar do conhecimento que insiste em negar (ou esconder, por modéstia), Bandeira trata tanto de assuntos espinhosos como banais com a mesma ironia, sem resvalar no tom professoral. Com isso, ele se impõe como um dos poucos que não exerceram a crônica como é vista hoje, ou seja, no entender de Antonio Candido, quando ela 'deixa de ser comentário mais ou menos argumentativo e expositivo para virar conversa aparentemente fiada'.

Ao contrário: Bandeira trata com firmeza de fatos curiosos, como o primeiro arranha-céu do Rio, o sucesso do cinema falado e a febre do primeiro concurso de miss Brasil. Um fino retrato da sociedade carioca e seus personagens pitorescos.

   


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