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'Ele tem nitroglicerina na palavra, ideal para a atual época de crise'
É o que diz Antunes Filho sobre o autor de Senhora dos Afogados, que estréia hoje no Sesc Anchieta
Ubiratan Brasil
Chopin, Bosch, Pollock - Antunes Filho inspirou-se em diversos artistas para compor sua encenação de Senhora dos Afogados, espetáculo que dedica ao crítico teatral Sábato Magaldi. Mas são apenas ferramentas em sua incessante valorização da palavra. Durante o processo de ensaios, ele buscou conscientizar o elenco do valor mais profundo do texto de Nelson Rodrigues. 'Por cima, há o aspecto cotidiano, prosaico, frasístico, que é mais anedótico', disse. 'Mas isso é aparência, por debaixo há outras camadas - em cada palavra do texto está contido o sentimento, toda a alma da peça e, por conseqüência, a alma do próprio ser humano.'
Ele toma como exemplo a obra do pintor americano Pollock - visto isoladamente, um centímetro quadrado de qualquer uma de suas imensas telas traz detalhes que estão presentes no restante da pintura. No fragmento, está espelhado e contido o quadro inteiro. 'E, do mesmo jeito, o quadro todo é espelho de cada fragmento.'
Assim, os atores utilizam corpo e voz em busca de uma coerência espiritual e estética, que é expressa por meio de uma interpretação nada realista. 'Nossa missão é salvaguardar a força e o sentimento que está em cada fala sem contaminar com preciosismos, psicologismos ou explicações', comenta a atriz Valentina Lattuada, uma das autoras de um diário de bordo mantido pelo elenco durante o processo de ensaios (leia trechos na página seguinte).
Em sua sétima montagem de um texto de Nelson Rodrigues, Antunes Filho mantém ainda sua pregação de que o teatro só começa quando baixa o pano, quando as pessoas vão para a casa e refletem. 'O teatro tem de ser transformador, corrosivo', disse ele ao Estado. A seguir, os principais tópicos.
ATUAÇÃO
'O ator estereotipado está em movimento, mas parece um desenho animado. Já o ator dramático está vivo porque está em processo. É preciso ter verdade no sentimento. Esse é meu combate maior, por isso pago um preço muito caro na cidade de São Paulo - no Rio e no resto do Brasil, sou mais bem compreendido. Por quê? Aqui estou próximo dos vizinhos e incomodo demais.'
PALAVRA
'Entre cada palavra de Nelson Rodrigues, existem abismos insondáveis. O público, quando assiste a algum espetáculo, aparentemente não sabe decodificar o assunto. Mas sabe que algo mexe com seu código interior. Não entende nada, mas entendeu tudo. Nelson aparentemente é irracional, mas é o mais lógico dos poetas. Com ele, não tem 'mas, contudo, entretanto': é só manchete, a frase seca, direta. É objetivamente poético. Acredito que, se ele não tivesse trabalhado como repórter policial, não teria tido tanto talento. Aliás, a tragédia já estava em sua família, marcada pela morte do pai, assassinato do irmão. Certa vez, fui à casa dele e encontrei uma porção de velhas sentadas no sofá - eram suas irmãs. A típica peça rodriguiana já começava ali. Compreendi muito do Nelson Rodrigues conhecendo aquelas mulheres.'
MUSICALIDADE DA PALAVRA
'Como encenar essa peça do Nelson, tão lírica, se os atores não souberem falar muito bem? A complexidade, a sonoridade do texto é única, pois não se trata de uma simples comédia de costumes. Em primeiro lugar, está a palavra. Entre uma palavra e outra, existem trilhas de espanto, abismos de poesia. O espetáculo não pode se resumir no palco, mas tem de existir na cabeça do espectador. Mas há um problema: nós, diretores, queremos impor nosso imaginário, mas a fluidez só existe quando é estimulado o imaginário do espectador. Por isso que, quando vou ao teatro, não quero ver cenas de pugilato ou show de samba: quero poesia. Daí a necessidade de uma preparação técnica dos atores para falar esse texto. Não podia ser uma carnavalização.'
BUSCA DE CAMADAS
'As pessoas falam muito do carioquês do Nelson, de seu sotaque regional urbano. Até pode ser, mas, por baixo, existe o sangue do repórter que conviveu com assassinatos, com a morte. É por isso que ele mexe tão bem com os arquétipos - ninguém faz isso quando está chupando sorvete, mas quando está incomodado. O Nelson vivia em situações-limite, à beira do precipício, daí sua solicitação constante dos arquétipos.'
CORO
'Nelson aponta o uso das máscaras, mas não sigo seu roteiro: só uso no final do espetáculo porque o coro é formado por vizinhos pseudojulgadores. Não é um tradicional coro grego, apolíneo, mas um retrato do Brasil: meu coro é formado por penetras, pobres, subdesenvolvidos. Tem a manifestação de quem sempre foi sufocado. Aqui, Nelson oferece uma fotografia espiritual desse mundo patriarcal hipócrita. Não temos a dimensão de Olimpo, mas de beirada, de subúrbio. Decidi colocar as máscaras no final porque é o momento em que o coro participa do julgamento. É uma ironia, pois, depois, eles começam a rir, a cantar, a beber. A vida continua. É um coro sem-vergonha.'
ESTERILIDADE
'Nesses 50 anos em que a peça foi encenada e discutida, ninguém comentou que se trata da tragédia da esterilidade. Moema faz tudo para ser a filha única e, quando enfim conquista, morre. Eis o elemento trágico. Há ainda o tema do incesto: não é algo real, mas imaginário. Nelson coloca o incesto como proposta de discussão da alma humana. Ele usou essa imagem do adultério para falar do homem. Todos temos uma alma incestuosa, mas, como civilizados, sabemos como tratar disso. O incesto está no espelho, mas não no reflexo.'
IDADE
'Quando jovem, eu me envolvia demais e até escorregava para o melodramático. Agora, mantenho distância. E, em tempos desesperadores como o atual, penso sempre em trabalhar com um texto brasileiro e Nelson se destaca. Afinal, é o único que tem nitroglicerina nas palavras.'
Preste atenção...
...na forma como falam os atores. Antunes Filho dedica especial atenção à pronúncia das palavras de Nelson Rodrigues, pedindo, assim, ao elenco, que não projete a voz, o que provocaria uma descaracterização dos personagens.
...nas cadeiras espalhadas pelo cenário. Elas ora servem como cadeiras, ora como proa e popa de um navio. Trata-se de outro detalhe da concepção do diretor, que se opõe a um excesso de objetos em cena, o que desviaria a atenção do público da trama.
...nas máscaras utilizadas pelo coro. Ao contrário do que pede o texto original, agora elas são utilizadas apenas no final da peça, provocando uma dúvida no espectador: eles usavam a máscara antes e agora estão sem elas? Ou agora estão realmente de máscaras e antes não?
...nas canções escolhidas para a trilha da trama, especialmente as que lembram melodias medievais.
...nos estandartes carregados pelos atores, que lembram velas de navio.
Perfil do Encenador
José Alves Antunes Filho (São Paulo, 12/12/1929) abandonou o curso de Direito no Largo São Francisco para fazer Artes Dramáticas. Começou dirigindo grupos amadores, até ser convidado por Décio de Almeida Prado para trabalhar como assistente de direção no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Em 1953, estreou como diretor, com a peça Week-End, de Noel Coward. No final da década de 70, abandona o teatro comercial para dirigir uma revolucionária versão de Macunaíma. Trata-se do início da fase em que privilegia o ator nas encenações, processo que culmina com a criação do Centro de Pesquisas Teatrais, em 1982. Lá, já montou peças como A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1986) e Paraíso Zona Norte (1990).
Serviço Senhora dos Afogados. 90 min. Teatro Sesc Anchieta (320 lugares). Rua Dr. Vila Nova, 245, Consolação, 3234-3000. 6.ª e sáb., 21h; dom., 19h. R$ 5 a R$ 20. Até 27/7
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