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Julio Mesquita
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  Por onde Obama começa

Deus, diz o povo, escreve certo por linhas tortas. Semanas atrás, com a divulgação maciça de trechos de um sermão de derrubar as colunas do templo, proferido pelo pastor Jeremiah Wright, conselheiro espiritual e amigo próximo do senador Barack Obama, parecia que finalmente surgira o improvável acontecimento capaz de implodir o seu favoritismo na escolha do candidato democrata à Casa Branca este ano. O carismático reverendo - que transformara um até então irreligioso Obama em devoto de sua igreja, onde celebraria o casamento e batizaria as duas filhas do discípulo - disparou horrores contra os Estados Unidos, pedindo a maldição divina para o país.

O senador levou algum tempo para se manifestar sobre a prédica incendiária. Quando o fez, porém, numa alocução de meia hora, na terça-feira da semana passada, foi um triunfo. Nos dias seguintes, comentaristas americanos e estrangeiros como que se puseram a competir pela autoria do melhor adjetivo para qualificar o discurso. “Histórico” foi o mais freqüente. “Sinfônico”, o mais transbordante. Observou-se com razão que talvez nunca uma figura pública americana tenha feito a portas abertas uma análise tão franca, articulada e contundente da questão racial nos Estados Unidos. E decerto nunca se viu um político americano desafiar a inteligência do eleitorado, em vez de desrespeitá-la.

Obama confrontou o país com os inumeráveis efeitos do seu pecado original - a escravidão. Nessa que deve ser a mais racista das sociedades desenvolvidas (o que o senador se guardou de dizer), “o passado não está morto e enterrado; a rigor, nem mesmo passou” (o que ele disse, citando um aforismo famoso do escritor William Faulkner). Desses efeitos, um dos mais entranhados é a raiva, poderosa e contraproducente, que subsiste na comunidade negra e é compartilhada, de ponta-cabeça, por setores da população branca. Na “mais segregada hora da vida americana, as manhãs de domingo” - as dos cultos cristãos -, a raiva pode subir aos púlpitos negros, sob a forma de palavras virulentas como as do reverendo Wright.

O senador condenou-as em termos inequívocos, mas, com uma coragem assombrosa, se recusou a renegar quem as pronunciou, como não poderia, comparou, renegar a comunidade negra, nem a sua avó materna branca, cujas eventuais tiradas racistas o faziam se encolher. (Esta é a singularidade de Barack Obama. Dela, o que se já falou e escreveu, e as teses que deve estar rendendo, excederia o espaço de um jornal. Mas foi o governador do Novo México, Bill Richardson, quem singelamente resumiu: “O cara tem algo de especial. Estou tentando descobrir o que é. Mas é muito bom.”) A figura de Obama, somada à força de suas idéias sobre uma dimensão essencial da experiência americana, explica por que poucos cobriram o percurso inteiro de sua argumentação.

Já se falará disso. Registre-se antes que tamanha é a persistente centralidade do racismo nos Estados Unidos que Obama - filho de um negro do Quênia e de uma branca do Kansas, casado com uma negra que, diz ele, “tem em si sangue de escravos e de donos de escravos”, com uma meia-irmã indonésio-caucasiana e um cunhado chinês-canadense - é visto por admiradores e adversários como o primeiro negro capaz de se eleger presidente, e não o primeiro mulato, ou o primeiro candidato “birracial”, como faz questão de chamá-lo a escritora Peggy Orenstein. A propósito, quando Obama nasceu, em 1961, lembra ela, casamentos inter-raciais ainda eram proibidos em 16 Estados americanos.

O ponto insuficientemente destacado do discurso é a visão da ruptura do círculo vicioso do velho racismo branco e da sua recíproca mais recente entre os negros. Indo além do movimento dos direitos civis que abalou a América quando ele era criança e que se concentrava na luta pelo fim das múltiplas formas de discriminação legal da população negra e pela igualdade no plano jurídico, Obama integra a questão racial a uma agenda de reformas progressistas, para beneficiar todos quantos - negros, brancos, latinos e asiáticos - pagam a conta da iniqüidade do modelo americano e da brutal deterioração dos serviços públicos no país. É uma agenda tipicamente social-democrata.

Parte da constatação de que os culpados pelos padecimentos da minoria negra e da maioria branca empobrecida são os mesmos: “Uma cultura empresarial permeada por negócios escusos com o governo, práticas questionáveis de prestação de contas, ganância de curto prazo; uma Washington dominada por lobistas e interesses especiais, políticas econômicas que favorecem os poucos em detrimento dos muitos.” A estratégia de Obama é a da convergência de reivindicações dos setores mais vulneráveis da sociedade americana - e cujos ressentimentos raciais recíprocos turvam a sua visão da verdadeira origem dos problemas que os afligem. E que não é, ou não só, o racismo (contra os negros), nem são as políticas de ação afirmativa (em detrimento dos brancos pobres).

Saúde, educação e emprego encabeçam a lista de Obama. Não que ele tenha descoberto a América. Um estudo oficial recém-divulgado registra, como seria de esperar, uma “disparidade grande e crescente” entre as expectativas de vida de ricos e pobres, refletindo o aprofundamento das disparidades de renda e riqueza nos Estados Unidos ao longo das duas últimas décadas. Numa das passagens memoráveis do seu discurso, dirigida aos trabalhadores brancos em situação de risco - a parcela do eleitorado mais refratária à sua candidatura -, o senador diz que o problema real “não é que alguém que não se pareça consigo possa tirar o seu emprego; é que a empresa para a qual você trabalha irá exportar a sua vaga para o outro lado do mundo”.

Ele quer, em suma, criar uma nova maioria política, a partir da superação das divisões raciais, para dar ao Estado americano novas prioridades. “É por onde começamos”, define.

Luiz Weis é jornalista

   


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