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  O campeão do mundo anônimo

Panamenho Saladino, astro no salto, vive em São Paulo sem ser notado

Heleni Felippe

O panamenho Irving Saladino é um campeão mundial que vive como um anônimo em São Paulo. Primeiro do mundo no salto em distância, ele é o favorito à medalha de ouro na Olimpíada de Pequim, em agosto. Morador do bairro Paraíso, treina na pista de atletismo do Ibirapuera, com um técnico brasileiro e anda incógnito pelas ruas da cidade paulistana.

A metrópole o esconde e dá a tranqüilidade que precisa para treinar. Em novembro de 2004, o atleta escolheu São Paulo por ser um centro de excelência em saltos. Logo depois, conquistou uma bolsa da Federação de Atletismo (Iaaf), que cobre seus gastos com moradia, alimentação e orientação técnica. Até arrumou uma namorada tupiniquim - Keila Costa, do salto triplo, com quem não está mais.

Não ser reconhecido por quase ninguém lhe dá mais tranqüilidade. Se é hora do rush, e o trânsito está caótico, vai para a pista a pé sem ser incomodado. “Sou mais um pretinho da cidade. Mas prefiro assim”, diz Irving, de 25 anos, 1,82 m e 74 kg. No Panamá, sua realidade é diferente. Tem passaporte diplomático e reconhecimento do governo pela conquista do Mundial do Japão, em 2007. Nos aeroportos, tem espaço garantido em salas vips.

O dia-a-dia também é diferente de sua rotina em São Paulo. A todo momento posa para fotos e dá autógrafos, especialmente para crianças. É conhecido entre as autoridades e tem conversas com o ministro dos esportes, Raúl Cortizo, e com o presidente, Martín Torrijos.

Quando conquista uma vitória, exibe suas medalhas em um desfile em carro aberto, como aconteceu nas temporadas de 2006 e 2007, quando foi recebido por multidões na Cidade do Panamá, a capital, e em Cólon (província de 200 mil habitantes, onde nasceu e vivem seus pais, David e Cristina).

VITÓRIAS

Saladino está invicto na sua prova desde julho de 2006, quando foi o segundo no Grand Prix de Paris (perdeu por dois centímetros). Em 2006, pôs o Panamá no mapa mundial do atletismo com uma impecável campanha. Venceu 15 das 16 finais que disputou, incluindo cinco das seis etapas da Liga de Ouro (dividiu o pote de ouro, de US$ 1 milhão, com mais cinco atletas). O atleta fez oito saltos acima dos 8,40 m e teve a melhor performance que valeu o recorde sul-americano (a federação internacional considera o Panamá como sendo da área sul-americana) e a liderança do ranking mundial (8,56 m). Fechou o ano vencendo a Final Mundial do Atletismo e a Copa do Mundo.

Na temporada passada, voltou a saltar com regularidade, acima dos 8,40 m. Ganhou o primeiro ouro para seu país em 36 anos no Pan-Americano do Rio. Na mesma temporada, foi campeão mundial, em Osaka (JAP), com um salto de 8,57 m, conquistando o novo recorde sul-americano numa prova decidida no último de seis saltos. Terminou o ano, mais uma vez, no topo do ranking, com 14 vitórias nas 14 competições em que saltou.

“Foram excelentes, para definir numa só palavra. São temporadas que podem ser comparadas, apesar de o ouro no Mundial ser a medalha mais importante da minha vida, ainda mais como foi ganha”, diz Saladino.

Ele ficou fora do Mundial Indoor de Valência, em março, por causa de uma torção no pé direito num meeting de Peanía (GRE), em 13 de fevereiro. “Queria ir à competição, mas estou tranqüilo. Meu foco é a Olimpíada.” Na Grécia, quando se machucou, saltou 8,42 m, melhor marca do ano até agora e recorde sul-americano indoor.

PREVISÃO

Saladino tem de pensar numa marca entre 8,60 m e 8,70 m para aniquilar todos seus concorrentes no salto em distância em Pequim. “É resultado que tem capacidade de fazer e isso definiria a prova”, afirma o técnico Nélio Moura, que passou a treinar o panamenho no fim de 2004 - juntos já fizeram três temporadas. O italiano Andrew Howe, o sul-africano Godfrey Khotso Mokoena e o americano Dwight Phillips estão entre os rivais. “Ele tem possibilidade concreta e é o favorito indiscutível. Mas não se pode colocar a medalha no peito antes de ganhar. Sabe que é favorito, mas tem de conservar a humildade”, acentua Nélio.

Saladino ainda competirá novamente, em 2008, na Liga de Ouro, como candidato a dividir US$ 1 milhão com outros atletas que ganharem pelo menos cinco das seis etapas.

O saltador poderia ter sido jogador de beisebol, esporte que treinou dos 12 aos 17 anos, bem mais popular no seu país. Pretende retomar um dia o curso de Engenharia Elétrica, que abandonou faltando um ano e meio para o fim - trabalhou como eletricista (tem formação de técnico), como o pai.

A velocidade sempre foi uma de suas características, o que facilitou a iniciativa do técnico Florencio Aguilar, que o transformou em um saltador quando jovem. Estreou no salto em 2002 (saltou 7,51 m no campeonato júnior da América Central). Em 2003, saltou 7,46 m no Sul-Americano de Barquisimeto (VEN) e, em 2004, fez o índice olímpico, com 8,12 m.

Nos Jogos de Atenas não passou da qualificação, com 7,42 m. Depois de pouco menos de um ano em São Paulo - o técnico Aguilar ficou seis meses na cidade e ajudou na transição para os treinos com Nélio Moura - saltou acima dos 8 m em oito das 12 competições que fez.

O QUE ELES DIZEM
Irving Saladino

atleta

“Sou mais um pretinho da cidade. Mas prefiro assim”

Nélio Moura
treinador
“É o favorito indiscutível (à medalha de ouro olímpica)”

   


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