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A moda agora é customizar imóveis
Arquitetos desenham plantas de apartamento para cada cliente
Laura Diniz
O designer e artista plástico Glauco Diógenes, de 28 anos, compra e vende comportamento - carimbado em roupas, acessórios, objetos de decoração, carro e, agora, até apartamento. Quer dizer, carimbado não, porque carimbo é padrão. Enfim, ele foi contratado para fazer design de parede numa unidade decorada do empreendimento imobiliário MaxHaus e se identificou tanto com o apartamento personalizável que virou comprador do imóvel.
'Tenha seu próprio RG em 70 metros quadrados' e 'a gente acredita na auto-expressão' são os bordões que o empresário José Paim de Andrade Júnior, da MaxHaus, repete para vender seu peixe.
Diógenes rejeita a idéia de consumir o que vem 'embalado' e filosofa: 'Com a tecnologia, você pode trazer para seu mundo sua impressão pessoal, para tudo que está à sua volta.' Tecnologia foi justamente a palavra-chave na criação da MaxHaus, já que o único pilar do imóvel é o banheiro, situado no meio do apartamento. É também a única coisa pronta que o 'maxhauser' ganha quando compra o espaço. Todo o resto é vazio para o dono montar como quiser - onde é a sala de um pode ser o quarto do vizinho; o closet de um é o ofurô de outro. 'Não há chance de um apartamento ser igual ao outro', garante Paim.
A mesma idéia de flexibilizar o espaço motivou a criação do Movimento Um - grupo de arquitetos que trabalha em empreendimentos imobiliários desenhando uma a uma as plantas dos imóveis, em função de cada morador. Ou seja, é mais personalizado ainda, já que não há pilar algum. Os apartamentos do Movimento Um, assim como os da MaxHaus, mudam de acordo com a vida das pessoas - é fácil reconfigurar o imóvel de um solteiro para abrigar um casal ou criar um quarto para um filho que acaba de nascer. 'A gente propõe um estilo de vida diferente, que é viver em pequenos edifícios, com escala humana', diz o arquiteto José Eduardo Cazarin, do Movimento Um.
No caso da MaxHaus, o preço das unidades de 70 metros quadrados fica em torno de R$ 200 mil, R$ 250 mil. Os apartamentos do Movimento Um são mais caros: custam de R$ 3.800 a R$ 5 mil o metro quadrado - os imóveis podem ter de 90 a 150 metros quadrados. A MaxHaus inaugura suas primeiras unidades em 2010 e o Movimento Um entrega seu primeiro prédio em setembro.
A decoração também é fundamental para criar a identidade do cliente. Na foto ao lado, por exemplo, a unidade da Max-Haus está decorada com uma pista de skate no meio da sala.
CONCEITO
A valorização dos interiores é uma tendência no mundo, afirma o professor Silvio Passarelli, diretor do MBA de Gestão do Luxo da FAAP. 'No modernismo, a valorização era mais exterior. No pós-modernismo, que vivemos hoje, as pessoas estão mais preocupadas com elas mesmas. Quem vê de fora são os outros, mas quem vive dentro são elas', analisou.
Na década de 70, disse ele, os imóveis tinham cômodos pequenos porque as pessoas queriam viver a vida na rua. 'Agora, até pela questão da segurança, todos querem casas grandes e aconchegantes para receber.'
O fenômeno da personalização que hoje chega ao mercado imobiliário enterra definitivamente, na opinião do professor, a era do consumo de massa. 'As pessoas começaram a se perceber novamente como indivíduos', explicou. 'Existe hoje um novo hedonismo, as pessoas perderam a vergonha de buscar o prazer.'
Para ele, vivemos a primeira fase desse processo, que é do início do fenômeno. Depois, ele ficará mais freqüente e entrará em declínio. O futuro, segundo Passarelli, aponta para um processo de repensar a materialidade do mundo na busca de soluções ambientalmente corretas. 'Hoje as televisões já são finas, colocadas na parede. Dentro de uns 10, 15 ou 20 anos, a maioria deve sair do teto e ser projetada numa tela ou na parede.'
Diógenes é o espírito dessa mudança. Usa camisetas que faz, customiza suas calças, já mexeu em tênis. Tem no estúdio uma parede, relógio e almofadas feitos por ele. Vende tudo isso, com a cara que o comprador quiser. Em fevereiro, fez dez adesivos de parede - coisa bem mais moderna que o papel. Se a pessoa der pronto o que quer ver estampado, custa R$ 200 o metro quadrado. Se ele fizer a arte, o preço sobe para R$ 600. 'O adesivo dura bastante. Tenho clientes que fizeram há uns dois anos. Mas, se a pessoa enjoar, dá pra tirar sem arranhar a pintura e fazer outro.' E a expansão do negócio dele é no sentido de personalizar tudo que o olho pode ver.
'Quer mais personalização do que escolher o sexo ou a cor do olho de um filho?', desafia Passarelli. 'O bom seria se, em vez dos meus 57 anos, eu tivesse 20 para ver aonde tudo isso vai chegar.'
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