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Maquiagem no trânsito
O tão esperado pacote de medidas urgentes destinadas a melhorar o trânsito da cidade, prometido pela Prefeitura de São Paulo, acabou sendo apenas a consolidação de uma pauta de providências que deveriam fazer parte da rotina diária da Secretaria Municipal de Transportes e da CET. As medidas anunciadas na quarta-feira não poderão produzir mais que resultados insignificantes diante da magnitude dos congestionamentos. Foram usados grandes números - 19 pontos de obras em corredores, restrição de estacionamento em 17 grandes corredores de tráfego, 11 adequações viárias, contratação de 320 marronzinhos, retirada de 167 lombadas e divulgação de 175 rotas alternativas - para dar aos paulistanos a impressão de que os principais problemas que contribuem para o congestionamento crônico do trânsito serão resolvidos. Num ano eleitoral, era de esperar medidas mais abrangentes e efetivas.
Afinal, a reforma de corredores de ônibus, a destruição de lombadas, a construção de pontes e viadutos, além de centenas de marronzinhos multando, certamente movimentarão partes da cidade. Mas os motoristas continuarão vendo essa atividade através dos pára-brisas dos seus carros, parados em congestionamentos.
Um pacote de medidas que realmente pudessem resultar em melhora efetiva do trânsito de São Paulo deveria ser uma extensão do Plano Diretor Estratégico e de uma política integrada de transporte e circulação. Reuniria medidas radicais e amplas que vão muito além da proibição de estacionamento em algumas poucas vias e alguma redução do movimento de carga e descarga. Aliás, se essa medida fosse para valer, essa atividade só poderia ser permitida de madrugada, liberando-se as ruas durante o dia e a maior parte da noite para o tráfego de ônibus e veículos leves. Haveria um aumento de custos para as transportadoras e para o comércio, mas esse seria o preço a pagar para aumentar alguma coisa a fluidez do trânsito.
Fluidez e segurança nas ruas exigem frota organizada, regularizada e bem mantida. E disso o pacote não trata. Em São Paulo é incalculável o número de ônibus velhos, de caminhões sem manutenção e de carros e motos caindo aos pedaços que circulam em pleno horário de pico. Há estimativas de que 30% da frota paulistana (1,8 milhão de veículos) está em situação irregular. Há anos seus proprietários não pagam licenciamento, impostos e multas. E continuam entupindo as ruas da cidade.
Segundo o professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da USP, Jorge Waisman, além de maior fluidez no trânsito, a apreensão desses veículos irregulares produziria receita estimada de R$ 200 milhões com a recuperação de impostos e multas. Esses recursos poderiam ser investidos em obras de melhoria da malha viária e em engenharia de tráfego.
Numa cidade onde, na última década, a frota cresceu duas vezes e meia mais do que a própria população e a velocidade média dos veículos caiu de 29 para 27 quilômetros por hora, só entre 2006 e 2007, meias medidas não resolvem nada.
De pouco adianta proibir carga e descarga no horário de grande movimento se, por falta de fiscalização, as regras não são cumpridas. De nada adianta o faz-de-conta das rotas alternativas se a solução que se oferece para o congestionamento de uma grande via é a maior saturação de outra. Tudo isso soa como uma tentativa de engabelação de quem está diariamente perdendo tempo, saúde e dinheiro no trânsito engarrafado.
Medidas como a retirada das vagas de estacionamento de 17 corredores seriam eficientes se fossem coordenadas com programas de construção de garagens subterrâneas e melhoria do transporte público, para evitar o uso do automóvel em regiões sobrecarregadas.
Essa cadeia de ações é o que deveria constituir um pacote de medidas para melhoria do trânsito. Como bem disse Luiz Célio Bottura, ex-presidente da Dersa, “daqui a pouco, o governo vai trocar lâmpada de semáforo e chamar a imprensa para anunciar”. O que São Paulo precisa é de planejamento efetivo, não de maquiagem.
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