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  Idioma ergue barreira de ódio entre belgas

Gilles Lapouge*

A Bélgica, país de 10 milhões de habitantes, já tem um governo. Fazia 283 dias que ela esperava por isso. O feliz novo primeiro-ministro é Yves Leterme, um flamengo. Quanto durará a sua felicidade? Nada poderia ser menos definido. A Bélgica é um dos países mais complicados do mundo. Reinar sobre esse quebra-cabeça político é um exercício de alta voltagem.

Esse Estado de criação recente (1830) é formado por duas regiões. No norte, Flandres, que fala flamengo; no sul, perto da fronteira com a França, a Valônia, que fala francês. Duas metades que se detestam.

Em teoria, as duas línguas,flamengo e francês, são oficiais e ensinadas nas escolas de todo o reino. Mas a verdade é que o idioma ergue entre essas duas populações uma barreira mais estanque do que o Muro de Berlim.

Ocorreu-me, em cidades flamengas (o grande porto de Anvers, as belas cidades históricas de Gand ou Brugés), pedir uma informação em francês. Não obtive nenhuma resposta. E ainda tive o direito a um olhar que me pôs num nível abaixo do limite inferior da humanidade.

Esse ódio lingüístico não diminui. Os flamengos são “homens do norte”, não muito imaginativos, mas eficientes.

Os valões têm reputação inversa. São acusados de preferir o ofício de “desempregado” a todos os outros e viver à custa da riqueza dos enérgicos flamengos.

Como governar um país desses? Às complicações políticas habituais entre direita e esquerda, soma-se uma outra complicação transversal: entre flamengos e francófonos.

Encontrar uma maioria no Parlamento é, pois, uma façanha - uma solução do tipo “quadratura do círculo”.

Hoje a Bélgica finalmente sai de sua longa crise. O homem designado pelo rei para formar o novo governo será capaz de traçar seu caminho em meio a tantos ventos contrários? É duvidoso.

POUCO CARISMA

Falta carisma a Yves Leterme. Mesmo em flamengo, ele fala muito mal. Além disso, ele é tão dotado quanto George W. Bush da capacidade de cometer gafes em seus discursos.

Os belgas fazem coleções dessas “pérolas”. Há dois anos, ele declarou: “Os francófonos não estão em condição intelectual de aprender o flamengo.” E, convidado a definir a Bélgica, respondeu: “Poucas coisas ainda unem os belgas: o rei, o futebol e a cerveja.”

Não espanta que os belgas tenham pouca esperança na longevidade de seu governo.

Para os jornais belgas, ele pode cair já em julho. Leterme se comprometeu a apresentar nesse mês uma proposta constitucional que deve agravar o “desmembramento” da Bélgica, país que passaria de “federação” a “confederação”.

O pensamento dominante é o de que Leterme é medíocre demais para impor uma nova arquitetura constitucional, sem a qual o país está condenado à explosão.

Nos dois campos, flamengos e valões, já há minorias defendendo o fim da Bélgica, com a cisão entre francófonos e flamengos. Ainda não chegamos a esse ponto.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

   


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