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Sexta-feira, 21 março de 2008   edições anteriores
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Shows com ingressos a R$ 900, R$ 1.500? Levantamento do 'Estado' mostra que inflação do show biz nos últimos dez anos é fenômeno mundial e veio para ficar

Jotabê Medeiros e Livia Deodato

Levantamento feito pela reportagem do Estado, comparando preços de 1998 e 2008, mostra que não é apenas uma má impressão: os preços dos ingressos para shows internacionais de rock e pop no Brasil explodiram nos últimos 10 anos. Chegam, em média, a ter hoje um valor quatro vezes superior ao que era praticado em 1998.

link Ingresso barato é coisa do passado


Alguns casos recentes chamaram a atenção pelo inusitado do preço máximo cobrado. Os shows de Bob Dylan, no Via Funchal, nos dias 5 e 6, tiveram ingressos de até R$ 900. O concerto do maestro Ennio Morricone, previsto para esta segunda, dia 24, tem entradas sendo vendidas a até R$ 1,5 mil. 'Que saudade do tempo em que o ingresso mais caro custava R$ 80', dizia um desolado fã na fila do Via Funchal, na noite do dia 5.

O problema não é cambial, como acontecia nos anos 90. O dólar, em 1998, estava em torno de R$ 1,20; em 2008, gira em torno de R$ 1,70. Também não é uma conjuntura circunstancial: os preços altos dos tickets, no Brasil, vieram para ficar, segundo avaliação de empresários e produtores do ramo ouvidos pela reportagem.

'Acredito que isso já seja um reflexo da conjuntura mundial', diz Monique Gardenberg, dona da Dueto Produções, que realiza o TIM Festival, o maior do gênero na América Latina. 'O excesso de liquidez dos países ricos gera a busca por novos investimentos, e o entretenimento surge como uma nova possibilidade de negócio. Neste sentido, grande grupos, outrora ligados a atividades distintas, passam a investir no negócio 'ao vivo'. O mesmo movimento você pode observar ainda por parte das gravadoras, ou dos artistas. Gravadoras hoje promovem shows de seus próprios artistas. The Police se reúne exatamente quando o modelo da indústria fonográfica entra em falência a partir do nascimento da tecnologia digital e da dominação da internet. O negócio Ao Vivo passa a ser a mais forte, quase a única fonte de receita, invertendo drasticamente o modelo anterior', pondera a empresária.

Há outros fatores internos também que colaboram para o encarecimento dos ingressos, justificam os empresários. No Brasil, a proliferação das produtoras e a chegada de grupos multinacionais estrangeiros (criando uma globalização do setor), além do surgimento de novos eventos musicais associados a empresas, inflacionaram o mercado. 'Hoje, a demanda brasileira é maior do que a oferta internacional de shows. Ocorre, portanto, um leilão que acaba por inflacionar o mercado, criando sérias conseqüências para as platéias, se não for observado o aspecto do poder aquisitivo do público, e para os mercados vizinhos, como Argentina e Chile', considera Monique.

Para o produtor Toy Lima, da LPC Projetos Culturais, que criou os antigos Chivas Jazz Festival e Heineken Concerts e é diretor artístico do recém-criado Bridgestone Music Festival, para se contrapor a essa realidade é importante buscar novos caminhos no show biz. Após alguns anos afastado do mercado, por questões pessoais, ele retorna com um projeto que é inspirado em experiências do passado, como o Fillmore East de Nova York nos 70. Algo parecido com 'as famosas double bill (noites com atrações duplas) em que o empresário Norman Granz apresentava o Led Zepellin, mas antes tinha um show com o Cecil Taylor, e assim ele ampliava muito o número de ouvintes do jazz', ponderou Lima.

'Uma outra coisa é que teremos os ingressos subsidiados pelo patrocinador e com isso vamos praticar preços bastante baixos para este tipo de evento. Acho que quando um evento é patrocinado ele deve ter preços mais baixos', considera o produtor. Monique, da Dueto, concorda. 'A maneira como se financia esta vinda de artistas é que é uma característica e deve ser uma preocupação de cada produtora. A Dueto procura subsidiar ao máximo os ingressos, via patrocínio de empresas que apóiam essas iniciativas. Hoje em dia, quase 90% dos ingressos vendidos para os shows pop do Tim Festival é composto por meia entrada', ela afirma.

De fato, é uma logística que, se não for bem equacionada, pode cair pesadamente no bolso do espectador. O show de Bob Dylan foi considerado fora da realidade pelos fãs de longa data que, por conta dos preços, ficaram alijados do concerto. O empresário William Crunfli, da Mondo Entretenimento, realizadora do espetáculo, não falou à reportagem. Na época do show, ele divulgou nota explicando os valores cobrados.

O 'formato especial intimista' dos shows de Dylan na cidade, realizados para um público reduzido de apenas 2,5 mil pessoas, era uma das raízes do preço. 'É natural que parte dos custos referentes à produção sejam distribuídos proporcionalmente pelo número de ingressos colocados à venda', informou Crunfli. Segundo ele, o 'conforto e a proximidade' que a casa permitia justificavam a majoração dos ingressos.

A SMArt, agência organizadora e produtora do concerto do compositor e regente italiano Ennio Morricone em São Paulo, justifica dessa forma o alto preço dos ingressos para o concerto: são mais de 200 músicos, o que exige grande infra-estrutura e mais de 50 profissionais de apoio. Além disso, o equipamento também entra na conta. A empresa menciona o que chama de 'o que há de mais moderno em mecânica cênica, iluminação e sonorização'. Apesar do preço salgado, até o momento já foram vendidos 75% dos ingressos.

Em suma, o diagnóstico geral é o seguinte: hoje, os cachês pagos lá fora são exorbitantes. Aqui no Brasil, isso está sendo agravado pelo dinheiro de fora que está vindo para o País a bordo das multinacionais do entretenimento. A situação falimentar da indústria fonográfica gerou uma necessidade de diversificação no mundo da música e liquidez numa Europa rica. Empresários migram para o entretenimento ao vivo, que se constituiu num novo mercado. As gravadoras usam recursos maciços para promover turnês. E o show começa a ser a única fonte de renda para o artista, que não vende mais discos. Ele precisa ganhar mais e cobra mais. Para o público, no entanto, o que se vê é um cenário de abuso no mercado.


Túnel Do Tempo

No início de abril, chega às livrarias o livro Sexo, Drogas e Rolling Stones, de José Emílio Rondeau e Nélio Rodrigues. Entre as histórias, os bastidores da negociação que trouxe o grupo pela primeira vez ao Brasil, em janeiro de 1995. Já naquela época, houve um leilão. 'Com a desistência da DC-Set, ficaram no páreo a Dueto, das irmãs Monique e Silvia Gardenberg, e a Promoter, do empresário Paulo Rosa Júnior. A dueto trazia no currículo a série Free Jazz. Já a promoter trouxe o ex-Beatle Paul McCartney. Michael Cohl, encarregado de contratar as excursões dos Rolling Stones, escolheu a Promoter', dizem os autores, que não revelam os motivos da escolha.

   


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