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A busca da leveza que beira o lirismo
Aos 82 anos, Antonio Lizárraga avança em surpreendentes direções, mas mantém-se permanentemente testando fronteiras
Maria Hirszman
Quando um artista consagrado realiza uma exposição aos 82 anos, tudo leva a crer que o que será mostrado é um resumo de uma produção já madura, um conjunto de trabalhos nos quais se repete um grupo bem-sucedido de fórmulas compositivas. As regras, no entanto, existem para serem quebradas, como mostra Antonio Lizárraga nas obras que exibe a partir de hoje no Estúdio Buck. Não que o artista, considerado um dos maiores expoentes da arte construtiva no País, tenha abandonado as ousadias geométricas que pautam suas telas há décadas. No entanto, nesses trabalhos recentes - sobretudo nas pinturas, pertencentes à nova série das 'janelas' -, ele avança em novas e surpreendentes direções.
Em primeiro lugar, parece ter ampliado a gama de cores, criando contrastes mais dissonantes entre tonalidades vibrantes e outras mais tranqüilas. Ele também parte para um novo tipo de composição, abrindo mão do formato quadrado e da estruturação especular das formas geométricas e passando a explorar a tela retangular e de maiores dimensões. Essa pequena mudança acaba por levar a uma reestruturação da ordenação do quadro e da forma como o espectador apreende a imagem, destaca Lorenzo Mamm, que assina a curadoria da exposição. Segundo ele, o fato de o retângulo deitado pedir uma leitura sucessiva, da esquerda para a direita, altera o ponto focal do quadro (do centro para a direita) e imprime quase uma lógica narrativa, temporal, de apreensão dos elementos pictóricos. 'A geometria foi atravessada por algo, e este algo se tornou uma história', diz ele, alertando que 'nenhuma visada é igual à outra, e elas são virtualmente infinitas'.
E no entanto, as questões centrais da obra de Lizárraga permanecem intactas: seu caráter projetivo e o fato de suas composições estarem permanentemente testando fronteiras, forçando ao máximo os limites da ordenação compositiva. Como escreve Mamm, ele está sempre 'à caça de equilíbrios esdrúxulos, problemas formais que ainda não foram solucionados, raridades já avistadas, mas ainda não capturadas', escreve Mamm. O fato de o artista estar impossibilitado de executar sua própria obra - em 1983, Lizárraga ficou tetraplégico por causa de um acidente vascular cerebral - o leva a conceber mentalmente e em todos os detalhes as pinturas e desenhos, para que posteriormente sejam confeccionados com a ajuda de seus assistentes. Tabelas de cores, papéis milimetrados e o discurso auxiliam no processo de transposição entre a concepção mental e a concretização da obra plástica. 'Só entra na imagem aquilo que pode ser nomeado, medido ou numerado', diz o curador, que estabelece interessantes nexos entre o trabalho plástico e a linguagem poética, já trabalhada por Lizárraga no passado.
Alguns aspectos sutis parecem confirmar que, apesar do rigor indispensável ao processo de feitura, as produções de Lizárraga buscam uma leveza que beira o lirismo. Os pequenos desvios e contradições elaborados em seus desenhos (como os pontos que parecem querer escapar das malhas da lógica ou as linhas que se recusam a obedecer os limites de um determinado campo) têm eco no jogo de cores que se desvirtuam e mudam de personalidade em função dos outros tons utilizados na tela (um quadrado dourado, por exemplo, torna-se ocre diante de um vermelho tão intenso que ofusca o entorno). E também vai de par com as ironias e jogos de palavras explorados nos títulos das obras.
A iniciar pelo nome da série principal. Janelas é uma referência clara, direta, ao recorte retangular horizontal usado nesses trabalhos e que aludem diretamente à idéia de uma moldura por meio da qual apreendemos o mundo e o reelaboramos a nossa maneira. Mundo esse em que fantasia e representação se cruzam, em que faixas largas e sucessivas de azul são apresentadas como 'Páginas', as ferrovias e metroviários têm lugar garantido, e uma clássica composição construtiva adquire nova dimensão poética e compositiva ao ser chamada de O Som da Chuva Intermitente.
Serviço Antonio Lizárraga. Estúdio Buck. Rua Lopes Amaral, 123, Vila Olímpia,telefone 3846-4028. 2.ª a 6.ª, 11 h às 19 h (sábados até 14 h). Até 30/4
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