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Kogan, o arquiteto das provocações
Ele é conhecido pelos projetos de alto padrão, mas não se cansa de alfinetar a elite com idéias polêmicas
Sérgio Duran
Houve quem se irritou com a piada da Pont Gucci - projeto que se destacou no concurso promovido pelo site de arquitetura Vetruvius para idéias de uma ponte entre a Daslu e o novo Shopping Cidade Jardim, na zona sul. Quem se indignou não conhece a verve do autor, o arquiteto Marcio Kogan, idade não revelada. Melhor que o desenho da obra viária é o texto que explica o projeto, com propostas como pulverização de Chanel nº 5 pelo rio, pedágio de 20 para tornar o local “guccissíssimo” e a “gentileza urbana” de não cobrar taxa no Dia do Índio, com eficiente desinfecção local logo após, por causa da sabida “falta de educação do povo brasileiro”.
Por que a provocação? “Não faz sentido construir mais uma obra viária que privilegie transporte individual em São Paulo. Odeio esses projetos”, explica. “É uma provocação, sim, mas com intenção de ajudar a cidade. Se eu pudesse, viveria disso, mas preciso fazer projetos.”
A Pont Gucci não foi a primeira alfinetada. Volta e meia, Kogan surge com nova pérola conceitual. O Arco do Triunfo Viário, com viadutos cortando o monumento francês, é outro exemplo. E há ainda peças como a casa de joão-de-barro em forma de mansão clássica e a Igreja Universal do Reino de Deus no Tibete, com a placa da igreja no templo budista.
Quem vê pensa que Kogan rejeita a elite e pratica uma espécie de arquitetura franciscana de casas de taipa de pilão. Nada disso. O arquiteto faz projetos caros e sofisticados. É co-autor, ao lado do amigo Isay Weinfeld, do Hotel Fasano, nos Jardins, só para citar um exemplo. Suas mansões geométricas parecem cenários de filme. “Não tenho nada contra, mas quando me formei pensava em trabalhar em conjuntos residenciais para pobres. Cheguei a viajar pela Europa para conhecer alguns, mas o destino me levou às casas de alto padrão.”
O destino também o fez conhecer o parceiro Weinfeld na adolescência. Os dois se formaram no Mackenzie em meados da década de 70, em classes separadas. Aproximaram-se, segundo Kogan, por certa “afinidade cultural”. Tinham em comum paixão por cinema, especificamente Ingmar Bergman e Jacques Tati. “Com 16, 17 anos, após uma infância relativamente triste (ele perdeu o pai ainda criança), entrei no cinema desavisadamente para assistir a O Silêncio, do Bergman. Isso teve impacto imenso na minha vida. Acho que passei a entender o que era arte”, recorda-se Kogan, que nasceu e cresceu em Pinheiros e estudou na Escola Estadual Antônio Alves Cruz.
Os projetos-provocação nasceram no Mackenzie. “Muitos são trabalhos de faculdade que aproveitei.” Kogan e Weinfeld fizeram cinco exposições de arte conceitual na década de 90. “Sempre vivi o dilema de ser cineasta ou arquiteto. Saí da faculdade sem saber nada de arquitetura. Fiz trabalhos conceituais durante todo o curso e ninguém falou que no mundo real aquilo não servia para nada.”
Antes de se dedicarem à arquitetura, em escritórios separados, Kogan e Weinfeld foram cineastas. Fizeram vários curtas em Super-8, como Idos com o Vento, com o ator e figurinista Patrício Bisso no papel de uma Scarlet O’Hara esvoaçante. Em 1988, lançaram o longa Fogo e Paixão. A produção, estrelada por Mira Haar, espécie de atriz-fetiche da dupla, conta a história de um grupo em city tour por São Paulo. Orçado em US$ 700 mil, o filme trazia ainda os atores Carlos Moreno, o eterno garoto Bom Bril, e Iara Jamra. E foi produzido à custa da venda de cotas. “Saíamos os dois por aí, como que vendendo enciclopédias.” Na história, que foi sucesso no circuito alternativo, surge na tela uma São Paulo apaixonante, repleta de detalhes insólitos, a metrópole poética. “Se tivesse feito o filme hoje, teria mostrado outra coisa, um lugar feio, horrível. Mas a produção foi tão sem dinheiro que saí traumatizado e não quis mais fazer cinema.”
“Bergman foi quem realmente nos aproximou”, conta o amigo Weinfeld. “Tínhamos interesses insólitos para adolescentes. Acho que foi isso que manteve nossa vida ligada.”
Mas não são as cenas sufocantes de O Silêncio, filme que mostra a vida vazia e sem sentido de duas irmãs em um hotel deserto, que melhor traduzem o humor singular de Kogan, e sim a outra paixão cinematográfica do arquiteto: o francês Tati. Há inúmeras referências ao cineasta-mímico em Fogo e Paixão, e, para os mais atentos, é possível enxergar o nonsense de Tati até na Pont Gucci e no Arco do Triunfo.
A aparente contradição das provocações de Kogan, divididas entre a crítica ferina e o bom humor, está presente também na relação do arquiteto com São Paulo. Durante a hora e meia de entrevista ao Estado, em seu escritório nos Jardins, ele falou mal da cidade na metade do tempo. “São Paulo é uma cidade com vocação para ser feia”, repetiu. Porém, foi com ódio e amor que rezou seu rosário de reclamações, como um marido que reclama dos defeitos da mulher, mas ainda acredita que poderão ser corrigidos. “Precisamos pensar a cidade. O caos se aproxima”, prega, em tom profético.
70º ANDAR
Como urbanista, é ousado. Acha que Marta Suplicy (PT) foi a “menos pior” na Prefeitura porque “pensou mais a cidade”. “Mas terminou abduzida pelo sistema, fez um Plano Diretor ruim e acabou afundada no túnel, na maldição da obra viária.” Para ele, São Paulo precisa ser mais adensada nem que, para isso, se verticalizem ainda mais as construções. “Ficaria feliz em morar no 70º andar. Qualquer urbanista cujas idéias eu respeite defende o adensamento”, explica. “Precisamos disso para aproximar a população do centro da cidade e de investimento maciço em transporte coletivo. É uma vergonha a extensão do metrô.”
Para o arquiteto, nem mesmo a Lei Cidade Limpa, que proibiu placas e outdoors na capital, conseguiu transformar São Paulo numa cidade bonita. “Não me sinto vivendo numa cidade limpa. Ela é suja graficamente. Daqui a pouco, teremos o neoclássico como estilo oficial. Que diferença tem dos anúncios daqueles blocos de concreto horríveis que a Prefeitura instala nos canteiros?”
O arquiteto conta que já tentou trabalhar para o “mercadão imobiliário”, mas ouviu do dono de uma das maiores construtoras do País coisa do tipo: “A gente está aqui falando de dinheiro e você vem com poesia!” A feiúra cantada por Kogan, no entanto, não esconde a paixão que nutre por São Paulo. “É uma cidade com energia e vibração, onde nasci e pretendo morrer.”
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