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Tributos ao rei neoconcretista
Celebrado este ano em três exposições, artista mineiro, morto em 2002, vai ser destaque em museu
Camila Molina
No início da década de 1990, quando acabava de retornar dos EUA, o economista mineiro Márcio Teixeira, nascido no município de Dom Silvério, conheceu em Belo Horizonte o escultor Amilcar de Castro (1920 -2002), nascido em Paraisópolis, também em Minas. Ficaram amigos e hoje Teixeira é um dos maiores colecionadores de obras do artista.
'Tenho mais de 650 obras dele, entre elas, mais de 400 esculturas. Não fiz outra coisa, desde 1992, a não ser colecionar seus trabalhos', afirma. Seu acervo fica recolhido em suas propriedades em Brasília (onde vive), Dom Silvério, Belo Horizonte, Nova Lima e Contagem.
Em breve, essa coleção será reunida em um museu que Teixeira vai construir em sua cidade-natal, localizada a 180 km da capital mineira. A classe artística já comemora a iniciativa. 'É de um altruísmo louvável tornar pública uma coleção que preza a obra de, senão o melhor, um dos melhores da escultura brasileira do século passado', diz o crítico e professor da USP Tadeu Chiarelli, autor do livro Amilcar de Castro - Corte e Dobra (Cosac Naify, 2003).
'O público só vai entender a potência dos artistas se tiver contato com suas obras', completa Chiarelli - em um País em que setor museológico está em crise, as instituições pouco conseguem dedicar o devido espaço a criadores fundamentais da arte brasileira, muitas são as lacunas. 'Dentro do pensamento moderno, Amilcar é a nossa resposta mais contundente no campo tridimensional. Ele é o responsável pela sofisticação da escultura no Brasil. Mas sem perder a doçura, a afetividade de fazer uma obra que, no espaço público, não coloca obstáculo entre o ir e vir.'
O escultor José Resende completa: 'A grande determinação de Amilcar de Castro em seu trabalho foi a lição que nos deixou.' E ainda: 'Suas esculturas de corte e dobra com o ferro são feitas de dois gestos simples que ele dominava com maestria', diz Rodrigo de Castro, pintor e filho de Amilcar.
Teixeira lembra como foi apresentado a Amilcar. 'Você sabe como é um encontro de mineiro? A gente fica ali falando por três horas sobre tudo, menos sobre o que seria a coisa principal. No caso, eu tinha o sonho de fazer uma coleção de arte e de criar um museu em minha cidade e ele era simplesmente o artista brasileiro mais importante da época.'
Conversa vai, conversa vem, o próprio Amilcar se empolgou com a idéia. 'Ele achou fantástico. E, mais importante, me propôs que me ajudaria a construir a minha coleção. Foi uma iniciativa dele.' Teixeira conta também que o escultor o aconselhou a colecionar obras de outros três artistas. As recomendações foram aceitas e o trio terá salas no museu (leia ao lado).
Amilcar esteve por duas vezes com Márcio Teixeira na pequena Dom Silvério (tem cerca de 6 mil habitantes) olhando o terreno de 31 hectares onde será construído o museu. 'Vai ter um prédio para mostrar as obras que não podem ficar ao ar livre, mas também terraços e praças para as esculturas grandes', conta o colecionador. Teixeira fica emocionado quando fala do amigo. 'Amilcar de Castro era pessoa aparentemente muito dura, mas é porque nunca fez concessões. Sua dureza com as pessoas era por sua honestidade. Ele não tinha vaidade nenhuma.'
Três Recomendações do Mestre
ARTUR PEREIRA: Além das obras de Amilcar, adquiridas a partir do gosto de Teixeira, de sugestões do próprio escultor (que, inevitavelmente, escolheu peças fundamentais de sua carreira e preciosidades - 'tenho até, em aço, a primeira obra que ele criou, a estrela, feita em 1952 em cobre', conta o colecionador); e de presentes do próprio artista, o economista também recebeu como conselho comprar obras de Artur Pereira (1920-2003). 'Comprei mais de cem esculturas dele', diz Teixeira. O escultor primitivo, nascido em Cachoeira do Brumado, MG, foi lavrador, carvoeiro, pedreiro e carpinteiro 'antes de descobrir o talento para a escultura', como afirma Lélia Coelho Frota no Pequeno Dicionário da Arte do Povo Brasileiro - Século 20 (Aeroplano Editora). Pereira fez figuras de barro e peças de madeira (algumas pintadas) até chegar às obras esculpidas em monoblocos de cedro, sua grande marca. 'Animais, homens e aves nunca são tratados à parte, para encaixe posterior na peça, e sim levantados um a um da matéria indivisa', escreve a crítica. 'Levei o Amilcar para conhecê-lo em Cachoeiro do Brumado', conta o colecionador.
LORENZATO: O pintor e escultor, Amadeu Luciano Lorenzato (1900-1995) nasceu em Belo Horizonte. 'Tenho cerca de 300 obras dele', diz Teixeira. Mineiro, teve parte de sua formação na Itália, mas voltou para Minas na década de 1940 - na capital mineira realizou sua primeira exposição individual em 1967. 'Por muito tempo a obra de Lorenzato esteve associada à tradição popular. Contribuiu para isso a freqüência com que a paisagem cotidiana, as favelas e os casarios aparecem em seus trabalhos. Porém (...) se o artista elege temas populares é para deles retirar as formas, cores e luzes que sintetizam a própria essência do trabalho', define a crítica Janaina Alves Melo.
POTEIRO: Antônio Poteiro (1925) é escultor, pintor e ceramista mais conhecido por seus trabalhos nesse último gênero, especialmente, na arte do barro. Nascido em Portugal, chegou ao Brasil quando criança. 'Ele é o grande colorista', diz Teixeira. 'Tenho 30 de suas obras', completa o colecionador. Cada um desses artistas também terá espaços especiais no museu de Márcio Teixeira.
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