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Os filhotinhos que salvaram a Disney
Os 101 Dálmatas sai restaurado em disco duplo e o especialista Andreas Deja analisa sua importância na história do estúdio
Luiz Carlos Merten
A madrasta de Branca de Neve? A de Cinderela? São principiantes na arte da maldade, se comparadas a Cruela Cruel, ou Cruella DeVil, a mais mesquinha e peçonhenta vilã da Disney, que após nascer como personagem de animação saltou do desenho para a live action, ganhando uma interpretação divertidíssima de Glenn Close. Cruela é vilã de Os 101 Dálmatas, de 1961, tão obcecada por ter um casaco de peles preto-e-branco, que é capaz de bolar 1.001 planos para sacrificar 101 filhotes da raça dálmata. Parece fácil, mas a empresa se revela muito mais complicada. O público agradece. A animação da Disney salvou o estúdio num momento difícil. O longa com Glenn Close, produção de 1996, fez tanto sucesso que ganhou uma seqüência em 2000. Mas, vamos por partes, falando com quem entende Os 101 Dálmatas.
Nascido na Polônia e criado na Alemanha, Andreas Deja tinha 10 anos quando assistiu a seu primeiro filme da Disney. Foi The Jungle Book, a adaptação do livro de Rudyard Kipling, que no Brasil ganhou o nome de seu personagem principal, Mogli. O garoto Andreas ficou tão animado com o que viu que decidiu que era o que queria fazer. O movimento, o desenho, tudo lhe parecia tão real que ele imediatamente quis fazer parte daquele universo. Escreveu para o estúdio, oferecendo seu talento. Não foi um tiro no vazio. O estúdio respondeu que ele era muito jovem e o quadro estava completo, mas a Disney sempre buscava novos talentos. Aos 20 anos, após completar os estudos, Andreas ofereceu-se de novo para trabalhar na Disney e foi aceito.
Com o tempo, tornou-se um dos mais respeitados animadores do estúdio, responsável em especial por vilões, como o pomposo e pobre de espírito Gaston, de A Bela e a Fera. Mas Andreas também é hoje um dos maiores conhecedores da história da Disney. Ele não chegou a conhecer o lendário Walt, que morreu em 1966, mas sabe tudo sobre o estúdio que ele criou. Andreas é a pessoa ideal para falar sobre Os 101 Dálmatas, que sai em edição restaurada, como a Disney fez recentemente com Mogli e Aristogatas. A diferença é que o disco dos Dálmatas é duplo, tem um só de extras, incluindo jogos e making of, e o pacote inclui um livro. A partir de hoje, você já encontra seu exemplar nas lojas especializadas, por R$ 594,90.
No início dos anos anos 60, quando Clyde Geronimi e Wolfgang Reitherman fizeram Os 101 Dálmatas, o estúdio passava por dificuldades. A Disney estava investindo nos parques temáticos e, para complicar, nenhum filme do estúdio fazia tanto sucesso que ajudasse a zerar as contas. Foi quando surgiu Os 101 Dálmatas. 'O filme é fundamental na história da Disney', relata Andreas, numa entrevista por telefone, da Califórnia. 'Foi um grande, um memorável sucesso de público, mas sua importância vai além disso. Até então, as animações da Disney privilegiavam contos tradicionais ou narrativas românticas, como Branca de Neve e os Sete Anões, Cinderela, Peter Pan, Bambi, A Dama e o Vagabundo. Num momento difícil para o estúdio, Geronomi e Reitherman tiveram a intuição de que era preciso mudar, e Walt embarcou na viagem dos dois.'
E surgiu Os 101 Dálmatas, com sua trama engenhosa (narrada por um dos cãezinhos) e uma vilã que fez história. Há também o casal de donos dos cães e uma centena de dálmatas - animar todos os filhotes foi uma tarefa digna de Hércules, embora nem todos sejam 'individualizados'. 'Temos um equilíbrio entre a massa e os indivíduos que fazem avançar a história.' Mudanças, mudanças, mudanças - que não acabam aqui. Pois em os 101 Dálmatas, a Disney começou a mudar as técnicas de animação. Até então, as figuras eram desenhadas, com todos os seus movimentos (milhares de desenhos) e animadas num processo que consistia em passá-las para celulóide e filmar uma a uma. Mas o celulóide era facilmente inflamável e, com Os 101 Dálmatas, a Disney passou a utilizar 'cels' (bases transparentes de acetato, mais resistentes), num processo que Andreas explica nos extras de Os 101 Dálmatas. Só 30 anos depois, com A Bela e a Fera, os personagens passaram a existir no computador.
Há a história da animação, propriamente dita, e é fascinante. E há a história contada na animação, que tem de tudo. Ação, humor, suspense, romance, uma vilã de cortar o fôlego. Andreas participou da restauração de Os 101 Dálmatas, que consistiu basicamente em devolver ao filme (e aí foi utilizada digitalização) o brilho das cores originais. A pergunta que não quer calar: quem foi a modelo para Cruela? Marc Davis, animador de Cruela, baseou-se na figura física de Mary Wickes, que depois interpretou uma das freiras de Mudança de Hábito. Mas a contribuição de Betty Lou Gerson, que deu voz à personagem, também foi grande. Ao falar com um especialista sobre uma animação 'clássica', não há como resistir à tentação de comentar a recente vitória de Ratatouille no Oscar. O que você acha que Andreas poderia dizer? 'É muito criativo. Não me arrependo de ter optado pela animação, quando garoto. Continuamos contando histórias, belíssimas, e a técnica está sempre evoluindo, exigindo que a gente a revolucione ou se ajuste. É um estímulo permanente à criatividade.'
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