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A plástica virou tragédia, e agora elas querem justiça
Cirurgião é acusado de negligência e imperícia; primeiro julgamento será no Conselho de Medicina de São Paulo
Fernanda Aranda
Maria Teresa, Amada e Silvia. Três mulheres que não se conheciam, mas partilhavam o mesmo sonho de um corpo mais bonito. Dinheiro economizado, resistência da família enfrentada e a cirurgia plástica das pacientes foi marcada para o mesmo dia: 21 de dezembro de 2004.
Elas recorreram aos serviços do mesmo médico, Ferrucio Dall’Aglio. E todas tiveram um final infeliz após deixar a mesa de operação. Silvia Pirillo, de 38 anos, não sobreviveu. Amada Pinochet, de 52 , está em estado vegetativo. Maria Teresa Cristina Mazak, de 43, carrega as muitas cicatrizes do bisturi.
As coincidências fatídicas não ficam restritas a essas histórias. No Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), o cirurgião Dall’Aglio coleciona 20 denúncias diferentes. No Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), o nome do médico aparece como réu em 17 processos cíveis. Em delegacias de polícia, são pelo menos 5 inquéritos abertos contra ele.
Nenhum dos casos foi a julgamento. Dessa forma, Ferrucio Dall’Aglio ainda tem licença para atuar e mantém sua clínica de estética aberta na Rua Frei Caneca, 1.212, área nobre de São Paulo.
Os relatos de lipoaspirações que falharam, próteses de silicone que renderam mamas mutiladas e cirurgias plásticas que terminaram em infecção generalizada fizeram o Cremesp abrir a primeira sindicância contra o médico há quase três anos. Em maio do ano passado, o conselho informa que “uma enxurrada de novas denúncias” sobre erros cometidos por Ferrucio engrossaram a já extensa ficha de negligência.
Depois da investigação instaurada, o primeiro julgamento do cirurgião foi marcado para o dia 29 de março. Sua conduta será julgada por 12 conselheiros da entidade.
OUTROS CASOS
Enquanto o Cremesp realizava os trâmites para julgar as denúncias de imperícia e negligência, outras mulheres que se dizem vítimas do médico foram surgindo. Kelly, Rose, Maria Aparecida, Ingrid, Celeste, Cláudia e Fabiana reuniram suas marcas deixadas pela operação feita por Dall’Aglio em um fórum na internet.
A maior parte delas também recorreu ao conselho, a delegacias e à Justiça em busca de explicações para suas cicatrizes ou para a morte de familiares dias após a plástica. Mas muitas, por vergonha, continuam caladas, transformadas em pacientes ocultas.
A reportagem conversou com oito pessoas que afirmam ter passado pelas mãos do cirurgião Ferrucio Dall’Aglio em busca de uma aparência melhor e hoje mal conseguem encarar o espelho. “Fui reduzir as mamas e as gorduras do abdome. Perdi a vontade de viver”, diz Maria Teresa Cristina, apontando a cicatriz de ponta a ponta na barriga, que ficou dois anos aberta.
Já Ingrid Galhardo, de 26 anos, não pode nem mesmo ouvir a mãe Amada reclamar das falhas no pós-operatório. “Ela era tudo para mim. Hoje está em uma cama, não fala, não anda. Era para ser só uma lipoaspiração”, diz Ingrid.
José Pirillo, de 69 anos, também só escuta a filha em sonhos. “A minha melhor amiga morreu. Eu falei para ela não fazer a plástica. Ela era linda”, lembra. “A Silvia não resistiu cinco dias após a lipoaspiração. Agora, só quero Justiça.”
O primeiro caso do cirurgião que será julgado é o da filha de José. Mas o Cremesp diz que todas as outras denúncias serão consideradas e vão pesar no julgamento. “A decisão do conselho vai corresponder à gravidade dos casos. O número de denúncias que temos é suficiente para uma punição severa”, afirma o presidente do conselho, Henrique Carlos Gonçalves, citando que Dall’Aglio pode perder a permissão de atuar como cirurgião plástico.
VERGONHA
O número de casos, no entanto, pode ser ainda maior. Além das pessoas que procuraram a Justiça, existem vítimas que, envergonhadas, não sabem a quem recorrer.
J. L., de 26 anos, e J.T.O., de 25, citam o mesmo nome quando falam da dor que carregam: Ferrucio Dall’Aglio. J.L. teve o umbigo queimado, ficou com marcas profundas na barriga e um machucado infeccionado que custou para cicatrizar. A seqüela de J.T.O. é irreversível. Sua mãe morreu dois dias após fazer redução de gordura no abdome com o cirurgião. As duas não procuraram a Justiça e não denunciaram o médico ao Cremesp. Em meio às lágrimas, tentam justificar. “Precisei de ajuda psicológica para tocar a vida. Me incomoda demais tocar no assunto. E só de pensar em encontrá-lo de novo, mesmo num tribunal, é assombroso”, afirma J.L.
A explicação de J.T.O. é diferente.“Eu ainda estou acalmando o coração do meu pai. Ele não entende a morte da minha mãe. Ninguém entende. Mas queremos, sim, acionar a Justiça. Só estamos reunindo forças”, diz.
José Tariki, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, informou que também tem conhecimento da situação do médico e que “a sociedade está reunindo documentos para avaliar se é cabível uma providência punitiva”.
Durante três dias, a reportagem procurou Dall’Aglio. Em todas as ligações, a secretária da clínica disse que “ele não poderia falar porque estava em cirurgia”.
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