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Toda ilusão do cinema em cinco figurinos
Uma análise dos finalistas à estatueta deste ano na categoria mais elegante
Fausto Viana e Rosane Muniz
Quando a atriz Theda Bara interpretou a personagem-título de Salomé, em 1918, o figurino já começava a mostrar sua importância na linguagem do cinema com a Dança dos Sete Véus, uma rica metáfora visual para a psicologia feminina do filme. Trajes esplendorosos do famoso designer francês Paul Poiret para Sarah Bernhardt, nos anos 10, ou ainda, na década seguinte, as criações surrealistas de Erté e o luxo fetichista de Rudolph Valentino elevaram o crescente prestígio do figurino cinematográfico.
E quando ...E O Vento Levou nos marcou com seu famoso vestido 'improvisado' a partir de uma cortina, a arte de vestir os atores já estava totalmente consagrada. Para se ter uma idéia de sua dimensão, para a versão de Maria Antonieta, de 1938, foram confeccionados 4 mil trajes e cada peruca de época pesava mais de nove quilos, sendo que a da rainha francesa era cravejada de diamantes.
Mas os tempos mudaram e a arte de se elaborar um traje passou a ser mais criativa e mais simbólica, com o uso de novos materiais, texturas provocadoras de variadas sensações epidérmicas, cores analisadas de acordo com o perfil da cena e da personagem e o estudo minucioso de cada detalhe recriado.
Edith Head, figurinista indicada para o Oscar 32 vezes e vencedora de oito prêmios em mais de 500 filmes, dizia que o que uma figurinista faz é uma mistura de mágica e camuflagem. 'Criamos a ilusão de transformar os atores no que eles não são e pedimos ao público que acredite que a cada vez que eles vêem um intérprete na tela, ele se tornou uma pessoa diferente.'
Vamos aqui analisar em qual das ilusões acreditamos mais e acompanhar a escolha do melhor figurino de 2008, para o 80º Oscar.
Fausto Viana é figurinista, cenógrafo e prof. livre-docente de Cenografia e Indumentária da ECA-USP. Rosane Muniz é jornalista, atriz, autora do livro Vestindo os Nus - O Figurino em Cena e mestranda em Artes Cênicas (ECA-USP). Ambos assinam coluna sobre figurino na revista dObras e escrevem no blog www.vestindoacena.com
Dica
Visite a 16.ª Exposição Anual de Figurinos para Cinema na Galeria do Fashion Institute of Design & Merchandising, em Los Angeles. Você poderá conferir mais de 150 trajes em 25 filmes, que incluem todos os indicados para o Oscar deste ano, além de Maria Antonieta, vencedor de 2007, entre outros. Aproveite para ver o traje de Rodrigo Santoro em 300. A visita também agradará às crianças, pois estão lá os figurinos de Harry Potter e a Ordem da Fênix e de Encantada. A entrada é grátis. Se você não puder viajar, faça uma visita virtual em fashionmuseum.org.
Desejo e Reparação
Está ali tudo o que já se viu em filmes sobre as Guerras Mundiais: os trajes, a morte, as dores da perda... Não há novidade. Mas o mais interessante em Desejo e Reparação é o erro de esperar que tudo se conduza dentro dos padrões do já conhecido.
O figurino é um sutil jogo de tecidos melífluos, que compõem ao mesmo tempo as tramas da sensualidade e das mentiras causadas por uma protagonista que, ironicamente, veste o branco da pureza encoberto por suas artimanhas, no avental de enfermeira, confeccionado a partir de antigos lençóis poloneses e checos. Como o filme não retrata uma realidade, mas a memória de uma criança, o diretor não optou por uma recriação exata da moda da época, o que levou a figurinista a escolher tecidos modernos nas formas dos anos 30.
Os amantes protagonizam a mais tenra cena de amor: completamente vestidos, mas como se estivessem nus. Não há um único instante em que o casal se entrega por inteiro. Dela, só vemos os contornos na transparência causada pelo mergulho na fonte. Dele, uma gentil imagem na banheira, em que seu torso nada mais é do que o figurino que prenuncia sua desgraça. A força do vestido verde de Cecília Tallis (Keira Knightley) - composto a partir da mistura de três amostras (seda verde-lima, organza preta e verde e chiffon verde) em 90 metros de tecido branco tingido por um especialista londrino - hipnotiza na cena fatal, mas parece difícil que permaneça na história do figurino, como o cetim preto de Gilda ou o rosa com diamantes de Lorelei Lee.
As tramas têxteis do filme estão tão ardilosamente trabalhadas que até mesmo um batom manchando o guardanapo de linho denuncia o desejo e a manobra sexual. Reflexo de uma análise cuidadosa da figurinista e filósofa por formação acadêmica, Jacqueline Durran, que já havia sido indicada para o Oscar por Orgulho e Preconceito.
Elizabeth - A Era De Ouro
O trunfo do figurino de Elizabeth - A Era de Ouro é Cate Blanchett. Como no caso do vencedor deste Oscar em 2007, Maria Antonieta (que chocou a França misturando elementos como tênis All Star com sapatos históricos recriados por Manolo Blahnik), esta é uma indumentária de protagonista: tudo gira ao redor do que ela veste, contrariando tendências contemporâneas de valorização do todo. A riqueza dos trajes é mostrada em detalhes que só a câmera consegue captar e que os americanos e ingleses são especialistas em recriar.
Não há nenhum erro, evidente, em Elizabeth. O figurino revela Blanchett mudando os estados emocionais de sua rainha. Seu vestido na cor púrpura da realeza vai do mais simples, quando fragilizada, cresce em proporção ao enfrentar a guerra e chega à sua maior versão para encarar a corte e causar distanciamento. Mas o ápice da rainha é com o vestido amarelo com que finalmente supera seus medos e declara guerra à Espanha. Sua relação com a dama de honra Bess também é sinalizada pela semelhança das cores, que se tornam díspares com o ciúme e retornam à harmonia após a batalha.
Os trajes dos representantes da Igreja Católica, promotores de barbáries, são os mesmos desde o ano 1200. Em tons fortes de vermelho, complementam-se com o traje com que a rainha Mary Stuart é decapitada: um vestido sensualmente vermelho para uma vítima sacrificial.
Firma-se a opção da Rainha Virgem como uma representante etérea entre o humano e o divino, separada de seus súditos por uma parede de vidro. Essa idéia já vinha firmada desde a diferente criação de trajes e cores de Elizabeth (1998), que recebeu uma indicação de melhor figurino para Alexandra Byrne, figurinista que pesquisou desde o período elisabetano até estilistas contemporâneos como Vivienne Westwood e Balenciaga para criar esta nova versão. Mas - presságio agourento? - perdeu para Shakespeare Apaixonado na ocasião, este, sim, um figurino elaborado para o coletivo, como, por exemplo, em... Sweeney Todd.
Piaf - Um Hino ao amor
Com roupas compradas em lojas populares, jóias reformadas e pouca confecção de trajes, a figurinista Marit Allen, que morreu em novembro de 2007, aos 66 anos, consegue nos direcionar com maestria dos anos 20 aos 60 e provocar saudades até mesmo em quem ainda nem havia nascido. O filme desenvolve o conceito de caracterização no seu sentido mais puro e os figurinos de Piaf dão embasamento para que a revelação Marion Cotillard brilhe com uma das melhores interpretações femininas dos últimos tempos.
Assim como a luz e a maquiagem ajudam a atriz a nos mostrar a cantora dos 20 aos 47 anos - aparentando bem mais com a doença -, a rusticidade ou a elegância dos trajes deixa transluzir cada momento da personagem. Da sobriedade das lãs da sofrida menina abandonada à adolescência rebelde da Piaf do Pigalle, com sua inseparável touca de crochê surrada. O clássico vestido francês preto, estrategicamente criado em mangas curtas, para sua primeira grande apresentação. A força das peles e rendas da já estrela e o emocionante elogio de Marlene Dietrich...
Nesta primeira indicação para o Oscar, a figurinista de Brokeback Mountain e de O Amor nos Tempos do Cólera, em vez de impor um estilo, sugere e impulsiona a platéia a enxergar com os olhos da alma. Prova de que não é porque foi o vencedor do prêmio Bafta de melhor figurino que Piaf é o mais cotado para vencer esta mesma categoria no Oscar. Mas por causa do talento de Allen.
Across The Universe
O filme começa e você acha que ele é o azarão da noite. O que vemos é só uma moda casual dos anos 60, com muitos jovens iniciando suas histórias de amor. Mas os figurinos realistas começam a entrar no clima psicodélico da época, com a influência da moda oriental e não convencional dos hippies e hare krishna. E, mais uma vez, está tudo lá: os ternos e vestidos das senior proms norte-americanas, feitas no gym da escola, no melhor estilo Grease ou West Side Story; toda a ideologia e trajes beads, flowers, freedom, happiness, de Hair; todos os uniformes ingleses e americanos de tudo o que já se falou sobre Vietnã; referências a Cole Porter (Too Darn Hot), Chicago, Bring In 'Da noise, Bring In 'Da Funk; e até o grupo Stomp é referenciado. Não faltam ainda Jimi Hendrix e Janis Joplin personificados. O grupo Bread and Puppet nas passeatas e Yellow Submarine também. Muitos sonhadores gostariam de ter uma visão alucinógena de Salma Hayek como enfermeira em um bem cortado e sensual uniforme preto-e-branco.
Podia dar certo? Podia. E deu. Porque são justamente os Beatles que costuram a história toda. Todas as referências de figurino são muito claras em cada um dos musicais que serviram de inspiração para essa colcha de retalhos. Talvez seja essa familiaridade do espectador com tudo que foi previamente visto que vá dificultar a vida dos outros concorrentes na busca pela estatueta de melhor figurino.
Interessante saber que o francês Albert Wolsky trabalhava com turismo até decidir, exatamente em 1960, aos 30 anos, que queria criar figurinos. Sua primeira função foi como um 'faz-tudo' da impaciente, explosiva e respeitada figurinista Helene Pons, na versão original da montagem de Camelot, na Broadway. Esta é sua sexta indicação à estatueta, que já ganhou com os melhores figurinos de Bugsy (1991) e de All That Jazz (1979).
Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco Da Rua Fleet
É o contraste entre luz e sombra, o jogo entre claro e escuro que guiam o figurino de Colleen Atwood, parceira do diretor desde Edward Mãos de Tesoura. No universo de Tim Burton, que já deu mostras de que prefere o mundo dos mortos ao dos vivos em A Noiva Cadáver, a cor só entra para marcar a distância entre o passado perdido e o presente, mais irremediavelmente perdido ainda.
O vermelho, tom mais forte do filme, só vale para o sangue que escorre. E na roupa do Juiz Turpin, o que transforma a leitura de seu traje em um desafio: ele usa o vermelho dos apaixonados ou o vermelho de quem quer ver derramamento de sangue? Olhe suas calças amarelo-mostarda que a resposta virá: é a cor da loucura.
A leitura do universo de Burton é clara em todos os signos que emite. O barbeiro sanguinário usa uma casaca de couro envelhecida a cortes de laser, o que garante ranhuras como se afiadas por uma lâmina de barbear. Depp/Todd cria graça com seu coldre de navalha e o detalhe do metal do solado militar transposto para o alto da bota quando inicia sua guerra particular - o brilho pode ser visto quando aperta o pedal da cadeira. O toureiro/barbeiro Pirelli vem vestido em peles de raposa - sem saber que o sacrificado na arena será ele mesmo.
É do preto e do branco e das variações de listrados e texturas que sai o mundo interno das personagens, sem trajes que se sobressaiam, em uma unidade e nível técnico brutais. Inspirada livremente no médio período vitoriano, os trajes são sempre muito bem finalizados, deixando aparentes pouco mais que os dedos. Com a navalha em punho, Todd revela: 'Meu braço está completo novamente'!
E Atwood, indicada pela sétima vez para o Oscar - dona de duas estatuetas por Memórias de Uma Gueixa e Chicago -, ainda ensina como vestir moças e senhoras como pássaros, com a delicadeza de um rouxinol ou de um melro.
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