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'Ele revela sabedoria espontânea'
CINEASTA
Nelson Pereira dos Santos
Nelson Pereira dos Santos é daqueles apaixonados que encontraram em Machado de Assis uma leitura para toda a vida. Não arrisca dizer qual é seu Machado preferido; são vários os Machados com lugar cativo em sua cabeceira.
Dos romances, destaca Helena, por muitos considerado um livro menor, e as obras-primas Dom Casmurro e Quincas Borba. Entre os contos, o cineasta, desde 2006 membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), a casa de Machado, é fã de O Alienista (tido por alguns como uma novela) e de Missa do Galo.
Publicada em 1882, a história de Simão Bacamarte - conceituado médico que se fixa na cidade de Itaguaí e nela instala um hospício, a fim de estudar a loucura, usando a população como cobaia - foi transformada em filme pelo “pai do Cinema Novo” em 1970. Azyllo Muito Louco é uma adaptação livre de O Alienista. No longa, o protagonista não é um médico, e sim um padre; a cidade chama-se Serafim; os internados são os paroquianos. Em 70, o filme, que não teve grande circulação nacional, recebeu, em Cannes, o Prêmio Luis Buñuel; no ano seguinte, participaria do Festival Internacional de Londres.
Missa do Galo (1893) também foi adaptado por Santos, mas o resultado jamais foi conhecido pelo público. O média-metragem, de 1978, integraria um projeto do próprio cineasta que tinha como objetivo levar contos machadianos ao cinema. Acabou não indo adiante. Ele fez o piloto; agora, o resultado será finalmente mostrado, numa série de exibições de filmes baseados na obra de Machado - são 16 no total.
A retrospectiva fará parte dos eventos programados pela ABL por ocasião do centenário de morte de seu fundador. Único imortal cineasta, Santos ficou incumbido da organização da mostra, prevista para começar em abril. As sessões serão semanais.
Também foram selecionados por ele: Memórias Póstumas, de André Klotzel, A Cartomante, de Wagner de Assis, Dom, de Moacyr Góes,e Quanto Vale ou É por Quilo?, de Sérgio Bianchi, entre outros.
De Santos, outro filme que integrará a série é O Rio de Machado de Assis (1965). Trata-se de uma compilação de textos escritos por Machado sobre o Rio, com dez minutos de duração. A narração é de Paulo Mendes Campos. O curta, que estava nos arquivos da Atlântida, foi restaurado recentemente, com recursos da ABL. Depois de passar na academia, será lançado em DVD, junto com Azyllo Muito Louco e Missa do Galo - os dois últimos foram tratados com patrocínio da Petrobrás, assim como outros 16 filmes do cineasta-acadêmico.
Você continua relendo Machado?
Releio sempre que possível. A cada leitura você descobre novidades. Machado é o grande escritor brasileiro do século 19, assim como Guimarães Rosa é o do século 20. Estou concordando com uma opinião generalizada. A maior qualidade dele é a sabedoria presente no texto. O pensamento dele revela uma sabedoria espontânea, própria, verdadeira, um domínio completo do texto, da linguagem. Ele evitava palavras difíceis. É um grande exemplo de concisão. Coelho Neto, por exemplo, é seu contemporâneo, mas você tem que ler com o dicionário do lado. Machado ficou como um grande mestre da língua, um exemplo de simplicidade.
Fale um pouco sobre seus Machados preferidos.
Missa do Galo me interessa muito. É um conto que, como disse o crítico literário Hélio Pólvora, “dá valor ao não-dito”. As coisas mais importantes são as que não são faladas. Há uma densidade erótica grande, sem que haja referência ao erotismo. É tudo sugerido entre o jovenzinho e a senhora, a mulher feita, e o leitor sente. É a grande habilidade de Machado. Helena é um livro que me deu prazer de ler.
E O Alienista, que você adaptou para o cinema?
Fiz Azyllo Muito Louco durante a ditadura. Achei que podia juntar o poder do padre e o do psiquiatra. Machado fala da idéia de que existe uma só explicação para o comportamento social indesejado, para os males. No fim, o único maluco é o padre/psiquiatra. O filme fala das relações entre as classes e o poder. Pode-se fazer uma relação entre a ditadura montada no Brasil para tratar do comunismo, da corrupção. O hospício é uma metáfora da sociedade.
Que outros Machados você relê?
Eu me dediquei muito à leitura das crônicas. A crônica machadiana mostra como ele era um homem atento ao que acontecia na cidade. Era um observador ferino. Dá para contar a vida e a história da cidade através de suas crônicas. Em O Rio de Machado, coloquei trechos extraídos de romances, começando com seu testamento. Ele acaba sendo o autor-defunto.
Como será a mostra com filmes baseados em obras de Machado na ABL?
Levantamos 16 filmes, desde Humberto Mauro a um chamado Viagem ao Fim do Ano, inédito, feito em 2007. De Haroldo Marinho Barbosa (diretor de ‘Engraçadinha’, de 1981), tem Demônios dos Olhos Pretos. Estamos fazendo um levantamento das cópias disponíveis, vendo autorizações. A mostra deve começar em abril e será aberta ao público. DEPOIMENTO A ROBERTA PENNAFORT
“Ele tinha o completo domínio do texto, da linguagem e evitava palavras difíceis. Ficou como o grande mestre da língua, um exemplo de simplicidade.”
“Um conto que me interessa muito é Missa do Galo, no qual as coisas mais importantes são as que não são faladas. Há uma densidade erótica grande, sem que haja referência ao erotismo. É a grande habilidade de Machado.”
“A crônica machadiana mostra como ele era um homem atento ao que acontecia na cidade. Era um observador ferino. Dá para contar a vida e a história da cidade com suas crônicas.”
No centenário da morte do escritor, o Cultura publicará no último domingo de cada mês depoimentos de artistas sobre sua relação com a obra do mestre da literatura nacional
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