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Do amor, ou melhor, da sua impossibilidade
La Traviata, em DVD, reafirma genialidade da obra de Verdi, com novos intérpretes
João Luiz Sampaio
Ópera e amor sempre combinaram. Épocas e estilos diferentes cantaram suas virtudes - e sua impossibilidade. E, vez ou outra, esse canto se mistura à própria definição que damos ao amor e a tudo que ele carrega. É assim com La Traviata, ópera de Giuseppe Verdi baseada no romance de Alexandre Dumas Filho sobre a cortesã que encontra o amor no jovem Alfredo, mas precisa renunciar a ele em nome das convenções da época. Sua música continua, mais de século depois de escrita, uma das partituras mais belas - e bem construídas - do repertório. E não por acaso segue no topo da lista de obras montadas mundo afora. Em DVD, a mais recente dessas produções vem de Los Angeles, filmada em 2006 pelo selo Decca e lançada agora no mercado mundial.
O elenco da produção é fenomenal. Como Alfredo, o tenor mexicano Rolando Villazón; como Violeta, a soprano norte-americana Renée Fleming; e como Germont, o pai de Alfredo, o lendário barítono italiano Roberto Bruson - em outras palavras, o que há de melhor no canto lírico da atualidade ao lado da experiência de quem dedicou uma carreira ao estudo e interpretação dos grandes personagens de Verdi. A regência é de James Conlon e a produção é assinada por Marta Domingo - seus cenários e figurinos são tradicionais, mas leves: a riqueza de detalhes em nenhum momento atravanca o palco, disputando a atenção com os cantores. É neles, e no trabalho que desenvolvem, que está a aposta (e a força) dessa produção.
O enredo de La Traviata é conhecido, mas não custa lembrar - o jovem Alfredo se apaixona pela cortesã Violeta, que cede à intensidade da paixão do rapaz e se envolve com ele, apostando no sonho, que a essa altura lhe parecia impossível, de viver um grande amor. O pai de Alfredo, no entanto, faz a ela um apelo - sua filha vai se casar mas, ao saber da relação de Alfredo com Violeta, os pais do noivo ficaram meio receosos. Ela se voluntaria a se afastar do amante por uns tempos, mas ele quer mais: os dois precisam se separar. Ela eventualmente aceita a 'sugestão', é ofendida de várias maneiras por Alfredo, que não sabe de nada e acredita que ela não o ama mais por conta das dificuldades financeiras que ele enfrenta. Até que Germont abre o jogo com a cortesã - e a iminência de sua morte a reaproxima do amante... tarde demais, claro.
Estão lançadas as bases de uma grande história de amor - na verdade, de sua impossibilidade. Seu amor é grande porque improvável - e, ao mesmo tempo, se torna impossível por ser forte demais para sobreviver à rotina cotidiana. Sugere o texto que é por ser tão genuíno o amor de Violeta que ela compreende o amor da irmã de Alfredo - e por isso abre mão de sua própria história. Mais do que isso, é a força desse sentimento que faz com que Violeta não acredite na possibilidade de sua concretização. Em outras palavras, por tudo o que viveu, ela não merece experimentar essa paixão - e, nesse sentido, a história contada pelo pai de Germont é apenas a concretização do que ela sente.
Na história da arte do século 19, do Romantismo, é possível equacionar esses elementos e fazê-los dialogar com outros autores e obras. No palco, porém, a racionalização serve de pouca coisa. Se o primeiro ato da Traviata narra o encontro dos amantes e a descoberta do amor, seja na juventude de Alfredo, seja no crepúsculo da vida de Violeta, o restante da ópera fala do desencontro. No último ato da Traviata, a morte de Violeta não abre caminhos - e o canto dos amantes, que almejam pelo dia em que retornarão a Paris, para viverem enfim juntos, é apenas a lembrança ainda em vida do que não vai se realizar por conta da morte. Enfim, seria possível ir mais além ainda na interpretação do texto que, entre outras coisas, carrega um forte caráter de crítica social, da mesma forma que apresenta uma figura paterna que, nas óperas de Verdi, vai ganhar contornos sempre interessantes. Basta dizer, porém, que esse desencontro leva a uma construção de cenas que, à medida que a ópera se desenrola, tira o foco do amor e o coloca em tudo aquilo que o cerca, levando os amantes a uma confusão, uma urgência própria de quem ama mas não tem idéia de como fazê-lo.
E essa sensação transparece durante toda a montagem na bela atuação do elenco. A Violeta de Fleming é vulnerável - a integridade de quem abre mão do amor por um 'bem maior', digamos assim, vai para segundo plano, e o momento em que ela se despede de Alfredo nada tem de resignação ou certeza - é desespero, medo, que culmina na maneira cortante com que ela pede a Deus, pouco antes de morrer, que 'sorria a uma mulher que errou' e a receba em seus domínios. O Alfredo de Villazón parece não ter idéia do que está acontecendo no palco: e o fato é que ele não tem mesmo, responde ao momento, ora ao amor, ora ao ódio, ora ao arrependimento - e a voz do tenor se transforma a cada instante. O Germont de Bruson é uma aula. A incoerência de um homem que pede a Violeta que abra mão de seu amor e, ao mesmo tempo, defende sua honra perante o filho, desaparece diante da autoridade em cena que dá uma dimensão enorme ao papel. La Traviata, enfim, continua encantando - as melodias, o tempo dramático, a construção dos personagens, tudo que fez de Verdi o mestre da ópera italiana, articulando no campo da emoção aquilo que sua época pensava e discutia, permanecerão vivas enquanto houver intérpretes capazes de recriar todos os significados de sua obra. Já estamos garantidos por pelo menos mais uma geração.
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