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Sábado, 2 fevereiro de 2008   edições anteriores
CADERNO 2
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  Penteado foi o caminho para Bardem

Luiz Carlos Merten

É bem próprio dos irmãos Coen que, em Onde os Fracos Não Têm Vez, o psicopata mais assustador do cinema recente use um penteado simplesmente ridículo. Mas este penteado não é uma simples excentricidade dos irmãos Joel e Ethan para definir um personagem como raros o cinema apresentou ultimamente. Para o ator Javier Bardem, que interpreta o papel, era praticamente o único dado concreto de que ele dispunha para criar Chigurh. Numa suíte do Hotel Carlton, no Festival de Cannes do ano passado, Bardem explicou ao repórter do Estado que a primeira tarefa de um ator é descobrir a psicologia do personagem, suas motivações. No caso de Chigurh, isto era impossível.

'Era inútil tentar procurar a lógica de Chigurh porque ele não possui nenhuma. Conversei muito com Joel e Ethan sobre isto e chegamos à conclusão de que Chigurh não é um ser humano. É um símbolo. Representa a violência que vem de lugar nenhum e vai para lugar nenhum. Os Coen só me pediam que não transformasse Chigurh num desequilibrado mental, num louco. E eu, que gosto de me apoiar na linguagem do corpo, não tinha elementos para a minha interpretação - até que surgiu a idéia do penteado. Ele é estruturado, metódico. Vira a expressão do que Chigurh tem de mais assustador e, ao mesmo tempo, ridículo. Enquanto o cabeleireiro da produção me preparava, eu só via e ouvia os risinhos e cochichos dos Coen. Quando finalmente me vi diante do espelho, foi como se ouvisse um click. É isso, tenho o meu personagem.'

Para Javier Bardem, Onde os Fracos não Têm Vez foi a realização de um sonho. 'Quando cheguei nos EUA pela primeira vez para trabalhar e o meu agente perguntou que tipo de papel gostaria de fazer, situei de cara, como prioridade número um, os irmãos Coen. Adoro o trabalho deles, que sigo desde Gosto de Sangue. Tenho todos os filmes deles em DVD e os revejo seguidamente, por puro prazer. O agente foi sucinto - disse que os Coen não costumam trabalhar com atores estrangeiros e seria muito raro eu dominar o inglês para trabalhar num filme deles. O que eu ainda não sabia era que Joel e Ethan também seguiam meus filmes desde os tempo de Pedro (Almodóvar) e também queriam trabalhar comigo. Quando surgiu este personagem, eles perceberam que seria o ocasião. O cara não tem uma origem definida, um sotaque definido. Mesmo assim, eles não tinham certeza de que conseguiria fazer o filme como gostariam. Testaram outros atores e voltaram a me chamar. Sua única exigência foi que eu me desembaraçasse completamente do sotaque espanhol. Trabalhei duramente com um instrutor para isso, mas, na verdade, esta não foi a primeira vez que recorri a este tipo de profissional.'

O ator lembra que Perdita Durango, de Alex de La Iglesia, foi seu primeiro filme violento. 'Não é um tipo de material que me interesse ou me dê prazer. E aí surgiu esse filme extremamente violento. Sob certos aspectos, foi difícil de fazer. Fui a um matadouro para aprender a usar a pistola de ar comprimido. Quase morri. O cara que me preparava até achou que eu não conseguiria fazer o filme.' Javier Bardem lembra uma cena que expressa a diferença cultural entre EUA e Europa. Na cena em que Chigurh faz a cirurgia em si mesmo, ele precisou ficar nu. 'Não tinha o menor problema de ficar andando nu pelo set, mas todos aqueles assistentes corriam atrás de mim, para me cobrir. Eu ironizava - quer dizer que matar não tem problema, só a minha genitália?'

Ele surgiu como mito sexual no cinema de Bigas Luna, em filmes como Huevos de Oro. Fernanda Montenegro disse que ele tem a potência de um touro de Picasso. Bardem retribuiu - 'Fernanda é uma dama e uma operária da representação. Foi um privilégio contracenar com ela em O Amor nos Tempos do Cólera.' Depois dos Coen, Bardem embarcou em outra aventura inusitada e filmou em Barcelona com Scarlet Johansson e Penelope Cruz, sob a direção de Woody Allen. 'Depois da violência dos Coen, os jogos verbais de Woody Allen. Esta carreira tem me levado a experiências que não cessam de me surpreender.'

   


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