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Segall, a virada realista
Exposição aberta hoje na Galeria do Sesi mostra como o Brasil ajudou a mudar o rumo de um artista formado pela escola alemã
Antonio Gonçalves Filho
Em abril de 1944, em plena guerra, o sociólogo francês Roger Bastide (1898-1974) escrevendo nas páginas do Estado sobre a tela Pogrom, reproduzida ao lado e pintada em 1937 por Lasar Segall (1891-1957), fez uma curiosa observação: o artista recusara o retângulo do quadro para que o olhar do espectador fosse dirigido impiedosamente para o centro da tela, ocupado por corpos de judeus massacrados, amontoados e 'fraternalmente misturados na morte'. Se isso não é ser realista, então Mário de Andrade sempre esteve errado sobre Segall. Em1924, ano em que o russo desembarcou no Brasil e conheceu os modernistas, o autor de Macunaíma observou que Segall resistia à tentação abstrata por entender que a obra de arte 'relaciona-se com a existência e, num elevadíssimo sentido, tem de ser moral'. Foi com as palavras de Mário em mente que o professor e historiador Tadeu Chiarelli organizou e batizou a exposição Segall Realista, aberta hoje (para convidados) e amanhã (para o público em geral) na Galeria de Arte do Sesi.
A mostra reúne 146 obras entre telas, esculturas, desenhos e gravuras de Lasar Segall. A primeira obra que o visitante vê, logo na entrada, é uma síntese dos vários caminhos percorridos por Segall até 1926, ano em que expôs em Berlim obras produzidas no Brasil, logo após conhecer os modernistas de 1922. Trata-se de Morro Vermelho. Mostra uma negra com o filho no colo, tendo ao fundo uma paisagem tropical. Na tela, é violento o contraste entre a composição fria, que remete às madonas da Idade Média, e as cores quentes dos trópicos. A esse respeito, Chiarelli observa que, deslocando a figura da mãe negra e da criança para os esquemas da pintura religiosa tradicional, Segall estaria propondo uma alegoria, 'o que não o caracteriza como expressionista típico'. O senso comum, no entanto, sempre identificou Segall como expressionista, por ter ajudado a fundar, junto aos alemães Otto Dix e Conrad Felixmüller, entre outros, o grupo da Secessão de Dresden (1919).
As obras dessa primeira fase brasileira - anos 1920 - atestam, segundo o curador, a aclimatação do pintor a uma situação mais realista, 'distante de suas pinturas da década anterior'. Não seria possível enquadrar uma tela como Encontro (1924) - que mostra o encontro fortuito de um casal na metrópole - no passado expressionista de Segall, argumenta. Segall descobre a prostituição nas ruas, as favelas e, mais tarde, o sexo moreno nos mocambos (veja a tela 'Dois Nus', de 1930, reproduzida nesta página). Curiosamente, comparando Dois Nus com o quadro ao lado, que retrata a família do pintor (a mulher e os dois filhos), é possível observar que a posição do negro sentado na cama não difere em nada da posição da mãe em Família do Pintor (1931). As figuras desse quadro 'transcendem suas circunstâncias biográficas para, juntas, encarnarem o próprio conceito de família', observa Chiarelli. Da mesma forma, o homem de Dois Nus não seria um indivíduo, mas um tipo, o representante de uma raça, para seguir a análise de Chiarelli das pinturas que atestam as características raciais dos retratados. E são muitas na exposição. O realismo sintético de suas figuras de negros, diz o curador, 'atesta que Segall não ignorava a produção de outros artistas que em São Paulo tentavam constituir uma arte brasileira, ao mesmo tempo moderna e 'brasílica''.
Chiarelli está falando, naturalmente, de Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, dois expoentes do modernismo brasileiro. O curador vibra com a coincidência de ter na mesma cidade e no mesmo período duas exposições que dialogam entre si, a de Tarsila (na Pinacoteca do Estado) e a de Segall. 'Embora solucione a questão figura-fundo de forma diferente de Segall, Tarsila também estabelece uma base ornamental para a sua pintura', observa Chiarelli. Esse diálogo do pintor estrangeiro com a cena modernista paulistana fez com que ele sublinhasse o colorido das figuras e dos fundos ornamentais. Os retratos dos negros brasileiros, lembra o curador, estão entre as mais significativas obras de sua produção, por serem 'verdadeiras alegorias' do País. 'Ao ser recepcionado por Mário de Andrade como um aliado na construção de uma arte brasileira, ele abandonou o expressionismo e respondeu, de maneira viril, positiva, a essa demanda.'
Como mostra a história, os expressionistas alemães amigos de Segall foram estimulados pela visão dos quadros realistas de Millet e Courbet - e a tela Leitura (1914) de Segall é muito semelhante ao retrato que Courbet fez de Baudelaire em 1848 para essa convergência ser desprezada. Mário de Andrade, um dos primeiros a reconhecer seu valor, não aceitava bem as influências do artista, especialmente quando essas eram provenientes de uma fonte ligada ao abstracionismo (Segall manteve correspondência regular com o amigo Kandinski). As deformações e os volumes da citada tela Morro Vermelho (1926) foram, por exemplo, condenados por Mário: 'É das soluções mais falsas do artista', escreveu. Chiarelli diz que Mário de Andrade não se deu conta de que a pintura de Segall passava, então, por uma série de mudanças e superações . Um pintor imigrante num país novo, com uma arte moderna ainda no berço, só poderia mesmo tentar superar o expressionismo europeu, trocando a paixão pela sobriedade dos ocres e marrons que caracterizariam sua obra.
Há apenas uma pequena parte da obra produzida na Alemanha na mostra. São gravuras da época de Secessão de Dresden, segundo a diretora do Museu Lasar Segall, Denise Grinspum. O museu acaba de completar 40 anos com um acervo de 3 mil obras (ele produziu praticamente o dobro, mas isso só vai se saber quando o catálogo raisonée for lançado). A exposição do Sesi traz também esculturas de Segall, entre elas Três Jovens (1935), que ilustra a versão impressa desta página.
Serviço Segall Realista. Galeria de Arte do Sesi. Av. Paulista, 1313, 3146-7405. 3.ª a sáb., 10 h às 20 h (2.ª, abre 11 h; dom. até 19 h). Grátis. Até 16/3. Abertura hoje, 19h30, para convidados
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