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'Tirava zero em provas de música'
Em Genebra, o pianista brasileiro Nelson Freire revela com exclusividade planos para 2008, que incluem CD de Villas-Lobos
Jamil Chade
O consagrado pianista brasileiro Nelson Freire já se prepara para as comemorações dos 50 anos da morte do compositor Heitor Villa-Lobos, que será celebrada em 2009. Em entrevista ao Estado, o músico revela com exclusividade que está preparando um novo CD com obras do compositor e garante que o lançamento será mundial. 'Villa-Lobos é o maior compositor latino-americano do século 20', afirmou Freire, após seu primeiro concerto do ano, em Genebra. Ovacionado pelo público na noite de quarta-feira, na Suíça, Freire destacou ainda a necessidade de haver um maior incentivo para a música erudita no País. 'A música erudita ainda não faz parte da nossa cultura. Na Rússia, a impressão que me dá é que ir a concertos é um programa assim como no Brasil pensamos em ir ao estádio de futebol', disse. 'Temos de aprender a ouvir música', completou. Eis os principais trechos da entrevista em que lembra que já ganhou nota zero de seu professor de música no colégio e que 2007 foi um ano repleto de reconhecimento ao seu trabalho.
Quais são os projetos para 2008 e para os próximos anos ?
Tenho concertos marcados até 2010, no Brasil e no exterior. Serão anos de muito trabalho. 2007 já foi assim. Só em julho me apresentei em 15 ocasiões em diferentes países. Neste ano, estarei em locais como Paris, Lyon, Escandinávia, Holanda e vários outros países. No Brasil também tenho recitais marcados para o Cultura Artística, em São Paulo, em maio.
O lançamento de seu CD com os concertos para piano e orquestra de Brahms foi recebido com destaque em vários mercados. Há alguma intenção de se especializar nesse compositor como forma de se tornar uma referência mundial?
Sou contra essa palavra (especialista). A sorte do intérprete é a de passar de Beethoven a Debussy ou a Rachmaninov. O intérprete pode penetrar em mundos diferentes, quase como um ator.
Mas as gravações continuarão?
Fiquei muito tempo sem gravar e agora quero compensar o tempo perdido. Confesso que tinha uma certa barreira e precisei superar isso. Neste ano vou me preparar para um número de gravações. Uma delas, que será lançada neste ano, será dedicada a Debussy. Há também um projeto para a gravação de obras de Chopin e o lançamento de uma gravação dedicada especificamente a Villa-Lobos para marcar os 50 anos de sua morte em 2009. Quero gravar algumas cirandas e outras obras.
Qual é a importância de Villa-Lobos para a música brasileira?
Na minha opinião, ele é o maior compositor latino-americano do século 20. Ele tem coisas geniais, embora reconheça que nem tudo que produziu foi excelente. Villa-Lobos tem altos e baixos. Mas o que produziu de qualidade é fora de série. Ele é um compositor que resta ainda a ser descoberto e é isso que eu quero fazer.
O sr. é hoje um dos principais pianistas no cenário internacional. Mas qual sua avaliação sobre a situação da música erudita no País?
Adoro tocar no Brasil e sentir a vibração do público. Mas ainda não podemos fazer comparações com a realidade no exterior. No Rio e em São Paulo a situação está melhorando com as orquestras. Mas ainda assim não se pode comparar. Um dos problemas é que a cultura erudita não faz parte de nossa cultura. Na Rússia, a impressão que me dá é que ir a concertos é um programa assim como no Brasil pensamos em ir ao estádio de futebol.
Mas isso não é uma questão de ser orientado para esse setor?
Claro. Isso vai exigir um maior interesse do governo. Mas não será de um dia para o outro que a situação vai mudar. Lembro-me que, quando era criança, tínhamos aulas de música no colégio. Mas eram péssimas. Música não se aprende na sala de aula ou no papel. Escolas precisariam levar os alunos a ensaios de orquestras, colocar música para ouvir. Isso sim é que faz a diferença. Temos de aprender a ouvir música. Eu também era um péssimo aluno e ganhei várias notas zero nas provas.
Como é que isso ocorria?
Eu já tocava e o professor insistia em fazer ditados de ritmo. Ele achava que estava batendo o ritmo na prova de forma regular na prova. Mas eu colocava cada erro que ele cometia no ditado, transformando o ritmo regular em fusas e semifusas. Claro, ganhava zero. Um dia cheguei a ele e perguntei se queria ver um de meus concertos. A minha nota mudou bastante depois disso.
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