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Segunda-feira, 12 novembro de 2007   edições anteriores
CADERNO 2
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  Mostra no Itaú Cultural investiga o tempo futuro

O século 20 é o mote que engatilha as questões presentes na enxuta coletiva

Camila Molina

O Itaú Cultural marcou seu aniversário de 20 anos apresentando, entre março e maio, uma mostra que causou polêmica. Na época, o curador da exposição Coleção Itaú Contemporâneo: Arte no Brasil 1981-2006, Teixeira Coelho, em parceria com Bia Lessa, responsável pela cenografia da mostra, optou por uma montagem ousada e colocou, em uma das salas, telas de artistas como Paulo Pasta, Geraldo de Barros, Antonio Manuel e Eduardo Sued no chão - não apenas isso: uma superfície espelhada no teto permitia ver o reflexo das pinturas que não podíamos ver direito daquela maneira. Agora, ainda como parte do aniversário da instituição, o Itaú Cultural tentou uma outra estratégia: pediu que os curadores Agnaldo Farias e Cristiana Tejo fizessem uma exposição que apresentasse o que vai ser a arte brasileira daqui a 20 anos. Eles tiveram apenas cinco meses para se dedicar à tarefa, como diz Cristiana, e o resultado é a mostra Futuro do Presente, que será inaugurada hoje na instituição.

O título já diz: 'o futuro é uma abstração', mas também, ainda afirma a curadora, 'um tempo do século 20'. Ainda como define Cristiana, não há nada 'futurístico' na exposição - ela lembra que quando o homem foi para a Lua pela primeira vez, na década de 1960, surgiu a fantasia de que hoje poderíamos estar em outros planetas e isso não aconteceu. Não há também na mostra as apostas de curadores sobre o que seriam os novos nomes que despontarão daqui ao período simbólico de duas décadas - 'não somos ciganos que adivinham'. Enfim, pessoas comuns ficam aqui no Planeta Terra mesmo; a pintura não morreu como já se declarou tantas vezes; a tecnologia é algo impalpável; e, se estamos no momento em que vale tudo, o que vai ser a transgressão? Além disso, agora é o tempo da negociação, frisa a curadora - para sobreviver, o artista tem de driblar a instituição e, ao mesmo tempo, se inteirar no emaranhado do circuito: não existe mais maneira de ser radical?

Uma questão foi se ligando a outra para conceber, em tão pouco tempo, a exposição (que ainda conta com um seminário, entre os dias 22 e 24, e uma mostra de filmes, a partir de quinta-feira). O futuro não precisa ser apocalíptico, como diz Cristiana, pode ser ele um tempo de 'consciência, responsabilidade, colaboração.

É certo que, se o futuro é tempo do século 20, alguns artistas-chaves com uma consagrada trajetória são a base da mostra: Cildo Meireles, Nelson Leirner, Paulo Bruscky e Amelia Toledo. São criadores que conseguem ser inteligentes driblando a passagem do tempo - conseguem também, em sua maioria, não deixar de lado o caráter político, contestador e poético.

Meireles, artista político, apresenta o trabalho Elemento Desaparecendo, Elemento Desaparecido, exibido apenas na 11ª Documenta de Kassel de 2002. Sobre a escassez da água, o artista cria sorvetes feitos apenas do líquido - e nos palitos dos picolés, que serão distribuídos por carrinhos que percorrerão pontos da cidade, aparecem as frases que dão título ao trabalho. Leirner exibe, além do Jornal do Não-Artista, uma banca com objetos colecionáveis para estimular que as pessoas façam suas coleções. Bruscky, conceitual, apresenta obra da década de 1970, Meu Cérebro Desenha Sim; e Amelia Toledo, uma instalação com uma extensa chapa de metal nas quais se refletem pedras.

Ao longo da mostra, nas obras dos outros participantes da coletiva - Cadu, Carlos Mélo (livro com fotos de pessoas que apontam para direções diversas), Chelpa Ferro (faz uma bateria estática), Chiara Banfi, Fernando Lindote, Henrique Oliveira (suas pinturas se tornaram agora em um corpo cavernoso) João Modé, Lia Chaia (por meio de desenhos e sons constrói a composição de uma supermáquina híbrida, sem utilidade), Martinho Patrício, Marcelo Cidade, Mariana Manhães (seus robôs de parafernálias criam um 'diálogo de autistas'), Paulo Vivacqua (cria um deserto com sons) e Romano - as questões do futuro e de agora vão se entrelaçando.

Serviço

Futuro do Presente. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, 2168-1776. 3.ª a 6.ª, 10h às 21h (sáb. e dom., até 19h). Grátis. Abertura hoje, às 19h30, para convidados

   


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