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Cristiane, uma estrela escondida no Vale do Paraíba
Atleta brilhou na seleção, mas deixou a Alemanha e hoje joga no São José, que lhe dá bolsa
Amanda Romanelli
A estrutura do campo de futebol do Parque da Cidade, em São José dos Campos, é simples. Dois bancos de reserva feitos de cimento, cobertos com telhas de amianto. O vestiário é pequeno, simples, sem luxo. Em um quiosque, perto do gol, as meninas do time de futebol da cidade guardam suas roupas e o material esportivo. Colocam o uniforme azul, pegam a bola e seguem para o treino. Entre as jogadoras do jovem elenco - média etária que não passa dos 20 anos -, está a Bola de Bronze da Copa do Mundo da China. Uma das 26 indicadas ao prêmio de melhor do mundo pela Fifa. É no time do Vale do Paraíba paulista em que a atacante Cristiane, de 22 anos, joga desde o fim do Pan do Rio, em julho.
Em quase todo time, há uma estrela. Em São José, sem dúvida, é Cristiane. Mas na seleção, que defende desde quando tinha 15 anos, é coadjuvante de Marta, a atual melhor do mundo. Cristiane, porém, brilha em momentos decisivos. Não fosse um belo chute de sua canhota poderosa, o Brasil não teria vencido a Austrália por 3 a 2 e passado à semifinal da Copa da China. E, quatro anos atrás, no Pan de Santo Domingo, a atacante saiu do banco para decidir a medalha de ouro na prorrogação - Brasil 2 x 1 Canadá. Fundamental para o Brasil foi também na Olimpíada de Atenas - acabou artilheira do torneio com 5 gols, na campanha da prata, em 2004.
O currículo invejável faz de Cristiane uma das favoritas à finalíssima do prêmio da Fifa - no começo de dezembro, serão divulgadas as três melhores do mundo. O título, mais uma vez, deve ficar com Marta. Mas Cristiane espera a sua vez. Sabe que corre por fora. “Claro que tem sempre a jogadora que se destaca. Mas, para que isso aconteça, existem outras 10.”
Quando tinha 18 anos, Cristiane foi a primeira brasileira a se transferir para o futebol alemão. Ficou por lá dois anos e meio, atuando pelo Potsdam e pelo Wolfsburg. Jogou pelo último time até antes do Pan. O contrato acabou e, para não ficar parada, voltou ao futebol brasileiro. Mal teve tempo de treinar com a nova equipe, por causa do Mundial.
Assim como boa parte dos times femininos no País, o time é estatal. Cristiane ganha uma bolsa-auxílio do clube e do governo federal. Mora em uma república, com várias colegas. A fama da seleção não chegou completamente ao dia-a-dia, exceto pelo fato de ter sido informada, por um fã, que era indicada ao prêmio da Fifa.
Agora, quer usar a notoriedade e o tempo escasso em São José (seu contrato vai só até dezembro) para ajudar o futebol da cidade. “Virei um pouquinho de celebridade, né?”, brinca, com o sorriso fácil que mostra o aparelho nos dentes. “Vou tentar ajudar as meninas, para que elas tenham as oportunidades que eu tive.” O problema é se ela precisar viajar à sede da Fifa, em Zurique. A craque do time vai desfalcar São José dos Campos mais uma vez.
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