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ECONOMIA & NEGÓCIOS
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  'Só não vamos ocupar o espaço da BRA se não deixarem'

Presidente da terceira maior empresa de aviação do País, Efromovich defende medidas contra o duopólio da TAM e Gol

Mariana Barbosa

O presidente da OceanAir, German Efromovich, passou os últimos dois anos atacando o “duopólio” TAM e Gol e a influência das duas na condução das políticas do setor. Mas, na gestão de Nelson Jobim no Ministério da Defesa, chegou a vez de Efromovich exercer sua influência. Boliviano naturalizado brasileiro, ele é hoje o empresário do setor aéreo com mais trânsito junto a Jobim. Em pouco mais de três meses de gestão do novo ministro, foi o único a ser recebido em audiência por ele - nem Marco Antonio Bologna (TAM) nem Constantino Junior (Gol) tiveram esse privilégio.

Na semana que passou, quando se viu diante de mais uma crise do setor - 70 mil passageiros desassistidos com a suspensão das operações da BRA -, Jobim pediu ajuda a Efromovich, que se transformou na grande aposta do governo para fazer frente ao poder de mercado de TAM e Gol. A pedido do governo, a OceanAir assumiu as operações de fretamento da BRA. Com isso, garantiu-se que os turistas que compraram pacotes da PNX, empresa do mesmo grupo da BRA, para este fim de semana, viajem tranqüilos. Efromovich recebeu a reportagem do Estado na quarta-feira, dia da paralisação da BRA, mas antes do anúncio do acordo.

Mesmo comandando negócios bem mais rentáveis no campo de exploração de petróleo e construção de estaleiros, o empresário empolga-se mesmo é conversando sobre aviação. A empresa aérea brasileira responde por menos de 4% das receitas do grupo Sinergy (US$ 3 bilhões), vai dar prejuízo este ano, mas toma 30% de seu tempo.

A OceanAir vai ocupar o espaço da BRA?

A OceanAir tem condição de absorver esses passageiros com sua própria frota. As malhas são quase iguais. Só não vou ocupar esse espaço se não deixarem. E esse ‘deixarem’ só cabe aos órgãos reguladores e autoridades. Não acredito que vamos persistir no erro depois de toda a experiência que aconteceu no nosso País nos últimos dois anos. Mas as autoridades vão se dar conta de que as companhias menores não conseguem suportar a política de cobertura ao duopólio.

Existe uma política de cobertura ao duopólio?

Existia até agora. Tenho certeza que o governo quer modificar isso aí. O caso BRA é mais um alerta para as autoridades de que é preciso se preocupar com o que o Brasil necessita e não com o que o duopólio quer.

E como modificar?


É só fazer com que o marco regulatório seja respeitado. Veja essa resolução do Conac (Conselho Nacional de Aviação Civil) com as restrições de vôos em Congonhas. Não estão respeitando, estão ignorando.

Mas a lei tem brechas, foi mal escrita.


Nos países civilizados, a Constituição tem uma folha só. Se as pessoas estão bem intencionadas, interpretam e fazem direito. Não existe inocência. Tenho certeza de que quando a nova diretoria da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) assumir, sob orientação do ministro Jobim, vai fazer com que as regras sejam respeitadas.

O governo está se deixando enganar?

Vamos dar um desconto. O ministro assumiu agora, em meio ao caos. Tenho certeza que não é do estilo do ministro Jobim se deixar enganar. Ele é um homem experiente e inteligente demais para isso.

O que fazer para combater o duopólio?

Nada. É só permitir que as menores cresçam.

Como?

Regulamentando a distribuição de slots (autorização para pousos e decolagens) em aeroportos mais concorridos. Havia uma resolução que dizia que uma aerolínea não poderia ter mais de 30% dos slots em um aeroporto, mas hoje isso não vale mais. O órgão regulador também deveria permitir que uma regional escolhesse um destino e desenvolvesse um mercado sem que chegue uma grande e ponha um vôo em cima por metade do preço.

Mas aí é reserva de mercado.

Não é reserva de mercado. O DAC, antigamente, controlava. Quando a demanda chegava em 70%-75%, ele não permitia que outra companhia entrasse. Acima disso ele abria. A lógica era: até atingir essa taxa de ocupação, a empresa que entrou primeiro vai oferecer um bom preço para atrair mercado.

Mas não é atribuição da Anac controlar oferta e demanda.

É, sim. Ela é o órgão regulador, aprova vôos. Tem obrigação de impedir o monopólio, o duopólio e a concorrência predatória. Foi o que aconteceu com a BRA. E ficamos com 70 mil pessoas que precisam voltar não sei de onde.

A BRA foi vítima de concorrência predatória?


Sem dúvida. A BRA teve os problemas dela, mas não foi falta de dinheiro. Os investidores estrangeiros botaram cento e muitos milhões na empresa. Não acho que foi só má administração. Eles tiveram os mesmos problemas que a OceanAir. Mas o grupo Sinergy é sólido. Investimos US$ 5 bilhões em aviões novos, para a OceanAir e para a Avianca. Mas uma empresa que só tem esse negócio não agüenta.

Qual o prejuízo da OceanAir com a crise aérea?


Em três anos investimos US$ 150 milhões na capitalização da empresa, para cobrir prejuízo. Fora os investimentos nela como aerolínea. A OceanAir é estratégica para o grupo por causa do Brasil, da posição geográfica e por causa da Avianca. O grupo está aqui para ficar. E vai ficar. E vai investir. Temos pulmão para isso.

Está queimando o dinheiro...

Não mais. Nos últimos dois meses, a OceanAir conseguiu se equilibrar.

Então a empresa não está sofrendo com a crise.

Está, porque não tem espaço para crescer.

Como a OceanAir pretende se transformar em uma terceira força da aviação? Pleiteando reserva de mercado?

O que queremos é isonomia. Não precisa ajudar, é só não atrapalhar. Cabe ao governo e ao regulador regular o mercado. Se alguém perguntar como, eu posso dar opinião.

Como o sr. controlaria o duopólio?

Se tem um leilão de slots, não deixe entrar quem tem mais de 40% dos slots. Leiloa entre o resto. Faça uma fiscalização eficiente para não deixar os caras manipularem os slots. Os caras juntam passageiros de um vôo no outro só para não deixar slots abertos. Não utilizam e ficam segurando slots, enganando todo mundo. É simples. É só fazer que se respeite as regras do jogo. Olha o que está acontecendo com a Varig nos vôos internacionais. Voa dez dias para um destino, dez dias para outro. Me engana que eu gosto? Tenho certeza que o ministro não vai permitir isso aí.

Mas o que está sendo feito para impedir isso?

Esperar do ministro Jobim um resultado já é uma maneira de atrapalhar o trabalho dele. Até a mídia tem de entender que pegar um pepino desses, na situação que está hoje, com militar fazendo greve, não é simples, tem de dar um tempo.

O ministro Jobim está ouvindo o sr, bastante, não? Mais do que a seus concorrentes.

Não é verdade, é fofoca. Estive duas vezes com ministro, uma vez em um evento e depois em uma audiência, em Brasília. E tive a melhor das impressões.

A OceanAir tem fôlego para brigar com as grandes?

Estamos investindo US$ 2 bilhões em aviões. São 30 A320, com entrega prevista entre 2008 e 2012. Devemos chegar a 7% ou 8% até o fim de 2008. E a intenção é alcançar de 15% a17% do mercado até 2010.

Quanto a OceanAir representa para o grupo Sinergy?

Nada. Em rentabilidade, é negativo. Em receita, 4%.

Quais os planos de investimento do grupo para o próximo ano.

Vamos investir US$ 1,5 bilhão. Isso inclui parte da encomenda dos aviões. Vamos construir um terceiro estaleiro, de US$ 500 milhões, no Espírito Santo. Estamos investindo em agroindústria, um projeto de biodiesel, mas não posso divulgar detalhes ainda.

   


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