| |
Eles gostam tanto de cerveja que fabricam em casa
Confraria troca receitas, divide materiais e oferece até curso para interessados em preparar a própria bebida
Talita Figueiredo
A idéia de fazer cerveja na cozinha de casa pode parecer estranha para uns, mas não para um grupo que vem crescendo e aparecendo em várias partes do Brasil, o dos cervejeiros caseiros. Para eles, o tal “segredinho” que chefs famosos guardam a sete chaves para que pratos badalados não sejam copiados não existe. Diariamente, esses aficionados pela bebida trocam informações, por e-mail, sobre receitas, matérias-primas e equipamentos.
Na lista de apetrechos estão panelas de alumínio de 46 litros, termômetro, densímetro, baldes e proveta. Os ingredientes básicos são quatro: água mineral, malte, lúpulo e fermento. Gasta-se cerca de oito horas para fazer uma leva de cerveja (cerca de 20 litros) e espera-se quase um mês para fermentar e maturar. O custo também atrai. O preço do litro de uma Pilsen, estilo das fabricadas no Brasil, fica em R$ 1.
Quando descobriu que era possível usar o fogão de casa para produzir sua bebida favorita, o advogado Mauro Nogueira, de 35 anos, ficou encantado. “Eu fiquei louco quando entrei em uma microcervejaria nos Estados Unidos e provei oito tipos diferentes de cerveja, todas produzidas naquele bar”, lembra.
Da intenção, para a ação. Em 2005, Nogueira convenceu o primo Tiago Dardeau, de 27 anos, e o amigo Pedro Ribeiro a formar um grupo, intitulado Confraria do Marquês. “No começo era muito difícil. Os movimentos no Brasil eram isolados, não há literatura em português sobre o assunto, não encontrávamos os materiais. A gente fazia tudo com base no que pesquisava na internet. Aprendemos muito trocando e-mails com cervejeiros argentinos, que estão 15 anos à nossa frente na produção de cerveja artesanal”, explica Nogueira.
O advogado lembra até hoje da primeira cerveja produzida por ele. “Quando eu abri a garrafa e fez aquele barulhinho da pressão saindo, fiquei emocionado.”
MATÉRIA-PRIMA
As dificuldades de encontrar os materiais e informação sobre o tema foram o ponto de partida para a criação de um curso de cerveja no Rio, que vai para a sua oitava edição. “A intenção é realmente difundir conhecimento e fazer crescer esse grupo. A cerveja artesanal é uma técnica milenar e usada largamente em países da Europa e nos Estados Unidos”, afirma Dardeau.
Com o passar do tempo, os alunos foram se tornando confrades e, num caminho natural, formaram a Associação Carioca de Cervejeiros Caseiros (Acerva), a primeira do País.
São Paulo já começa a formar a sua. Um dos diretores é o empresário Eduardo Passarelli, de 30 anos. Especialista em cerveja, foi jurado do primeiro concurso da associação carioca. Voltou para São Paulo e está ajudando a fundar a Acerva paulista. “Será nos mesmos moldes e usamos o mesmo nome da carioca. Queremos descobrir outros cervejeiros no Estado e divulgar em São Paulo essa cultura da cerveja de verdade.”
Atualmente, no e-group (lista de pessoas que compartilha um email) da associação carioca, pessoas de várias partes do País, e até da Argentina, trocam receitas com a precisão necessária para elaboração das cervejas: “guarde o fermento até 72 horas numa temperatura entre 1º C e 3º C”, por exemplo. Além disso, fazem listas para comprar materiais como densímetros, que não se acham em qualquer esquina.
MUITOS PRÊMIOS
Segundo o também advogado Leonardo Botto, a união dos apaixonados pela cerveja artesanal iniciou-se justamente pela necessidade de comprar material e baratear os custos. “As sacas de malte vendidas são de 20 ou de 50 quilos e vêm do Sul. Fermentos e lúpulo a gente compra com representantes também do Sul do País. Para tudo pagamos frete. Então começamos a montar listas de compras e dividir”, conta. Botto é o integrante do grupo com mais prêmios. Só no primeiro concurso promovido pela Acerva, no ano passado, ganhou quatro títulos.
O doutor em matemática Ricardo Rosa, também integrante do grupo, tem até título internacional. Quando foi para Indianápolis, nos Estados Unidos, para um congresso de Matemática, levou três tipos de cerveja na bolsa para competir na Brewers Cup 2007. “Fiquei em primeiro lugar na categoria English Barley Wine”, comemora. Ele foi o grande vencedor do concurso do dia 29 de setembro, com 1º lugar nas duas categorias do concurso (Stout e Estilo Livre). Durante o evento, foi anunciada oficialmente a criação da Acerva paulista.
|