estadao.com.br Estadao Jornal da Tarde Agencia Estado Eldorado AM Eldorado FM iLocal ZAP
   

Julio Mesquita
(1891-1927)
DIRETOR:
Ruy Mesquita

 
 
PARTICIPAÇÃO
ESPECIAIS
MERCADOS/FUNDOS
 
 
  
 
      Busca local   
Segunda-feira, 15 outubro de 2007   edições anteriores
CADERNO 2
 ÍNDICE GERAL | ÍNDICE DA EDITORIA | ANTERIOR | PRÓXIMA
  Bach com gosto de jazz, por Loussier

Pianista fala sobre mistura que lhe deu fama e o traz à cidade para dois recitais

João Luiz Sampaio

Nas noites parisienses dos anos 50, o jovem pianista recém-saído do conservatório, que abandonara para viajar pelo mundo e conhecer os mais diferentes ritmos e experiências musicais, ganhava a vida acompanhando Charlez Aznavour e Christine Sauvage em clubes e boates. Até que um dia... Bach. Para Jacques Loussier, o compositor não era exatamente uma realidade distante; como estudante, “desde os 14 ou 15 anos”, passou e repassou algumas de suas principais obras. Mas foi um pouco mais tarde, naquele momento em que tocava na noite parisiense, que a música do compositor surgiu à sua frente sob um novo prisma. “O ritmo, a beleza das melodias, de repente tudo aquilo se encaixou dentro da linguagem do jazz e comecei a pegar alguns compassos de sua música e improvisar sobre eles.” E é essa mesma idéia, refinada pelo passar dos anos, que ele traz a São Paulo para duas apresentações, hoje e amanhã, no Cultura Artística.

Loussier chega a São Paulo acompanhado do contrabaixista Benoit Dunoyer de Segonzac e do baterista André Arpino, com quem se apresenta desde o final dos anos 80. É preciso aqui fazer um breve histórico da carreira do trio. Nos anos 60, Loussier formou seu primeiro conjunto e correu o mundo com sua visão de Bach. Foram 15 anos, 6 milhões de discos vendidos e uma série de convites que o levaram a escrever música para o cinema e o teatro. No começo dos anos 80, no entanto, ele se retraiu. Deixou Paris e se instalou em Miraval, na Provença. Conta que sentiu a necessidade de voltar às pesquisas musicais do início da carreira, deixando de lado a correria das turnês, gravações de discos e assim por diante. Nesse momento, dedica-se bastante às ligações entre música e tecnologia, escreve obras como Pulsion, Pagan Moon e Pulsion Sous la Mer, tentativa de diálogo com a música de seu tempo. Em 1985, porém, o mundo musical parou para comemorar o tricentenário de Bach. E Loussier não resistiu. Formou um novo trio, com Arpino e Vincent Charbonnier. Começaram com Bach, mas passaram a aplicar a fusão com o jazz também a outros compositores. De sua parte, Loussier segue compondo obras sinfônicas, um concerto para trompete, outro para violino e percussão.

Passear entre o Loussier compositor e o Loussier intérprete é encontrar um elo comum, um espírito musical livre, que absorve as mais diferentes influências e as transforma em busca da originalidade que jamais é forçada e sempre surge de um profundo conhecimento da música que trabalha. Mas como se dá essa adaptação, essa mistura de estilos que leva a improvisão de jazz a Bach ou a Beethoven ou mesmo a compositores do século 20 (nos recitais de São Paulo, além de Bach, ele toca Ravel e Satie)? Conversando com o Estado na tarde de sábado, Loussier hesita na explicação. A gente sabe, tudo bem, em música às vezes é difícil colocar em palavras aquilo que no palco funciona naturalmente. Mas é preciso perguntar. E ele tenta responder. “O tratamento que dou à música de Bach soa sempre natural. É preciso estudar as partituras, é claro, e conhecer a fundo sua música. Mas acredito que é algo que tenha mais a ver com temperamento, com a busca de uma atmosfera diferente, uma aproximação diferente, coloridos diferentes.”

Ao longo dos anos, a improvisação de Loussier parece mudar um pouco de pressuposto. Os primeiros registros o mostram tentando levar à música de compositores clássicos elementos de um mundo distante deles, “como nas brincadeiras que fazíamos no conservatório”. Com o tempo, porém, a sensação é de que o caminho se inverte. E é da música de Bach, Beethoven, Mozart, enfim, que sai todo o caminho da improvisação. “Penso que foi esse mesmo o caminho que percorremos. Com o passar do tempo, em vez de me distanciar da música original, só passei a me interessar mais por ela, a pesquisá-la mais a fundo. Pude sentir isso quando preparava nossa gravação recente dos concertos de Brandenburgo. Foi algo que me levou de volta às raízes do meu trabalho, mas, enquanto em minhas gravações mais antigas eu tentava acrescentar algo a Bach, agora me via tentando reduzir esta música à sua essência.”

Benoit Dunoyer de Segonzac, o contrabaixista que substituiu Charbonnier em 1997, entra na conversa. Concorda com Loussier, mas insiste que são dois caminhos distintos e válidos, que acompanham o trio em seu trabalho. “A verdade é que estudamos muito e partimos sempre da partitura. Mas grande parte do nosso trabalho está na improvisação. E, quando se trabalha assim, é preciso estar aberto às mais diferentes possibilidades. “Tudo influencia nosso trabalho, desde a quantidade de vinho que tomamos no almoço até quantas horas de sono tivemos e assim por diante.” E Loussier completa. “E isso é importante. No fundo, adoramos ser surpreendidos no palco.”

(SERVIÇO)Jaques Loussier Trio. Teatro Cultura Artística. Rua Nestor Pestana, 196, Centro, tel. 3258-3616, Hoje e amanhã, 21h. R$ 60 a R$ 150

   


    Links Patrocinados
  Estadao.com.br | O Estado de S.Paulo | Jornal da Tarde | Agência Estado | Radio Eldorado | Listas OESP
  Copyright © Grupo Estado. Todos os direitos reservados.